Ayahuasca (VI)
Esta semana a coluna recebe a colaboração de Sílvio Margarido que dá continuidade à série de artigos sobre os fundadores das práticas tradicionais do Daime no Acre.

O Caminho de Daniel
Aqueles eram dias muito especiais na vida de Daniel, ele estava decidido, iria mesmo construir uma igrejinha para São Francisco e iniciar a sua missão de ajuda aos necessitados. Daniel vinha por aquele caminho que tantas vezes percorrera andando calmamente e perdido em pensamentos.
Os passos eram firmes, mas a sua cabeça estava entre tempo e lugares que nunca poderia esquecer. A cada passo Daniel Pereira de Mattos, um negro maranhense que há anos vivia no Acre e fizera daqui a sua terra, “com prazer e amor como se fosse a terra que o viu nascer”, lembrava do que tinha sido a sua vida até aqueles dias. Dias e acontecimentos que ficariam marcados para sempre tanto para ele como para aqueles que depois dele viriam e haveriam de lembrar. O ano era 1945, ele vinha da vila Ivonete, onde havia se despedido do amigo Irineu Serra, conterrâneo que muito lhe ensinou e incentivou no entendimento de sua Missão. Pegou seus pertences e cinco litros da “Santa luz”, o Daime, e veio para o lugar onde iniciaria o seu trabalho e cumpriria a sua missão...”Deste mundo à eternidade”.
Caminhando por aquele estreito caminho freqüentado somente por caçadores e seringueiros, lembrava dos sonhos que tinha na infância em Vargem Grande, no Maranhão, onde nasceu, em 13 de julho de 1888, dois meses depois de abolida a escravidão, próximo a antigas feitorias e quilombos como, São Roque e Rampa. Em seus sonhos de criança a Virgem Maria e São Francisco lhe entregavam um livro azul, que agora Daniel entendia e no qual estava preparado para escrever a missão que lhe era reservada por Deus. Enquanto caminhava pensava em tudo, em cada passo que deu durante todos esses anos. Lembrava de quando veio ao Acre pela primeira vez, em 1905, como marinheiro em uma fragata da marinha de guerra brasileira para trazer as tropas do exercito, que vinham ajudar na resolução da questão do Acre com a Bolívia e com o Peru, pensou em ficar. Dois anos depois, pediu baixa da marinha em Belém do Pará e em abril de 1907 chegou definitivamente ao Acre onde trabalhou nos seringais com Plácido de Castro, Cel. José Alexandrino, Daniel Ferreira, José Ferreira e José Galdino. Entre a primeira vez que veio ao Acre e quando veio definitivamente ele ainda fez uma viagem muito importante para a afirmação de sua fé em Jesus Cristo, visitou o Oriente médio e esteve em Jerusalém, a histórica cidade santa do cristianismo e de outras religiões.
Foram anos duros e de muito trabalho, pois um novo povo estava se formando e um mundo novo sendo construído, e ele fazia parte da construção deste novo mundo. “Conheci desde as trincheiras de Porto Acre, as pedras e tijolos que foram colocados nas primeiras paredes deste Castelo Místico e de grandes riquezas, que é o Acre”. Teve aqui a sua mocidade registrada e selada com o selo do patriotismo, do amor à terra.
Depois de anos trabalhando nos seringais finalmente veio juntar-se aos outros trabalhadores urbanos da Rua da ?frica. Nos anos em que passou na marinha ele aprendeu muito, sabia ler e escrever muito bem e de seus vários ofícios (carpinteiro, construtor naval, sapateiro, poeta, músico, artesão, cozinheiro, entre outros) foi de um deles que faria seu ponto na recém nascida cidade. Montou sua barbearia e começou a ganhar a vida, trabalhando na Rua na Epaminondas Jácome, em 1925, depois na Rua Seis de Agosto, e finalmente na Rua General Rondon, no bairro do Papôco. E foi no Papôco também que viveu várias noitadas de boemia acompanhado de seu inseparável violão.
Interrompendo suas lembranças percebeu que já estava cansado de sua caminhada por aquele longo varadouro na floresta. Parou em um local que lhe agradara e havia escolhido, pois lhe fora prometido um pequeno pedaço das terras que pertenciam a Isaura Parente e eram administradas por Manoel Julião.
Daniel, naquele momento, também lembrou emocionado dos filhos de seu casamento com Maria do Nascimento Viegas e que não via há anos... Onde estariam Nazaré, Creuzolina, Ormite e Manoel? Onde estaria sua esposa? Não sabia que sua família havia voltado para o Maranhão, pois suas noitadas de boemia o afastaram de casa e de sua família. Numa manhã, à margem do rio Acre, abanou um lenço branco para um navio que saía e se despediu, sem saber que sua esposa e de seus filhos estavam naquele navio. Foi um duro golpe. A vergonha e a saudade o fizeram cair cada vez mais na bebida. Aquele era o ano de 1937 e, exatamente neste ano, o amigo Irineu Serra, vendo a situação que passava Daniel, mandou busca-lo em uma carroça de boi para curá-lo e livra-lo do alcoolismo, usando o Daime. As lembranças fizeram Daniel verter algumas lágrimas, mas tudo seria diferente, pois ele também se dedicaria a curar e a livrar outros dos vícios.
O tempo para Daniel agora era de esperanças. Daniel desceu um pouco a estradinha e foi até o pequeno riacho que ficava abaixo do lugar que escolhera para construir a igrejinha e iniciar a sua missão, no Igarapé Fundo lavou o rosto das lágrimas e bebeu um pouco de água para refrescar-se do calor.
Durante os anos em que ficou com Mestre Irineu na Vila Ivonete, se dedicando ao seu trabalho de cura com o Daime, Daniel aprendeu muito sobre o preparo e uso da Ayahuasca, se dedicando a fortalecer seu espírito e entender cada vez mais sua missão. Teria que viver como São Francisco, pobre e humilde, comendo de esmolas, fazendo a caridade, aconselhando e preparando outros irmãos para continuar seu trabalho depois que ele partisse. E assim, a partir de 1945, ele e vários outros irmãos iniciaram uma missão que até hoje é mantida por uma comunidade que prima por levar adiante um trabalho que cumpre um importante papel na assistência espiritual de muitos necessitados. Nos primeiros anos deste trabalho, Mestre Daniel ficou conhecido por sua humildade, por ser conselheiro e um verdadeiro instrutor espiritual. Durante os 12 anos que trabalhou ali, até desencarnar, o acompanharam os irmãos de fé José Joaquim da Silva, Anelino Cavalcante da Silva, Agostinho Henrique de Paiva, Elias Nassif Correa Kemel, Avelino Simão, Antônio Geraldo da Silva e Manuel Hipólito de Araújo, já falecidos, encontram-se vivos ainda hoje o Sr. Antonio Lopes da Silva, Sr. João de Deus, Sr. Gregório Nobre de Oliveira, Dona Francisca Josino de Melo ( Dona Chiquita), Dona Francisca Campos do Nascimento(dona Chica Gabriel) e seu esposo sr. Francisco Gabriel entre tantos outros que passaram por essa missão. Mestre Daniel construiu os pilares da Doutrina, o Hinário, as obras de caridade com atendimento a necessitados, curou e preparou seis irmãos para o trabalho de atendimento, Chica Gabriel, Maria Baiana, Inês Maia Porto, Francisca Maia, Maria Ferrugem e Dona Chiquita, médiuns que, preparados por ele, prestariam assistência com os guias curadores.
As bases das influências doutrinárias de Mestre Daniel, vieram do cristianismo - a partir do catolicismo popular muito comum no nordeste brasileiro e especialmente no Maranhão - do xamanismo e de outros cultos indígenas com os quais teve contato, dos cultos afro-brasileiros - como a umbanda e o candomblé - além de forte influencia do espiritismo Kardecista e de tudo que aprendeu com Mestre Irineu no uso ritual da Ayahuasca. ?
também muito presente na doutrina de Mestre Daniel, a simbologia do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Foram deixadas por Mestre Daniel as devoções à Sagrada Família, primeiro Jesus Cristo, Virgem Maria, São Francisco que é o mediador dos trabalhos, o advogado e o professor, São José e São Sebastião. Dessas devoções ele deixou as romarias a serem realizadas e cumpridas nos meses de Janeiro (São Sebastião), Maio (Nossa Senhora Rainha da Paz) e de 1 de Setembro a 4 de Outubro( São Francisco). De seu próprio sincretismo vem os pretos velhos, os caboclos, as entidades do mar como a sereia e as ninfas do mar, botos e Iemanjá, os Erês (crianças) e entidades do Candomblé como Oxalá, Xangô, Ogum e Oxossi, além de uma linha de entidades do Oriente e os Encantados. Orientou, também o Sr. Antônio Geraldo, que o sucedeu após a passagem, no fardamento e nos bailados com as entidades no parque.
O Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus–Fonte de Luz” foi constituído oficialmente em 20 de janeiro de 1959, quatro meses após Mestre Daniel ter desencarnado, no dia 8 de setembro de 1958. Durante os anos que sucederam a sua passagem foram presidentes o Sr. Antônio Geraldo da Silva e Manuel Hipólito de Araújo, conhecido e chamado carinhosamente pela irmandade como o nosso “ velho pastor “. Hoje é dirigente do Centro, o filho de Padrinho Manuel, Francisco Hipólito de Araújo Neto, que conduz os trabalhos junto com uma irmandade de aproximadamente 300 adeptos, que reúnem-se periodicamente aos sábados para os trabalhos de obras de caridade, às quartas-feiras para a sessão de preparação e nas datas santificadas, quando se fazem as comemorações, tomando a santa bebida, cultuando e louvando com os hinos e salmos, primando pela pureza e originalidade do que foi deixado por Mestre Daniel Pereira de Mattos, um negro maranhense que, mesmo com todo o sofrimento, deixou para a humanidade um trabalho de elevação espiritual e de prática da caridade e amor ao próximo.
Já estava anoitecendo e Daniel ainda concentrado em seus pensamentos, relembrava sua vida, pensando na sua missão, nos momentos bons e tristes e nos momentos de que se envergonhava. Seu espírito estava feliz, pois sabia que Deus lhe havia destinado um caminho a percorrer, que não seria fácil mas não terminaria com ele, pois é um caminho que se segue “deste mundo à eternidade”. Tinha já a companhia de vários irmãos e sabia que outros se juntariam a eles. Lágrimas escorriam pelo seu rosto negro, sofrido, mas uma luz de conforto invadia o seu coração. Mais uma vez pegou o seu violino, concentrou-se e recebeu ali, naquela capelinha simples de taipa... mais um dos seus hinos...
“... Esta casa é de Jesus e da Virgem Mãe da Conceição...”
Silvio Francisco Lima Margarido. Rio Branco, 19 de abril de 2005