OPINIÃO
   RETRATOS DO JURUÁ

Nelson Liano Jr.

 

Salvem os rios do Juruá!

A situação é séria e preocupante. Detesto esse discurso fácil e panfletário de falsos ecologistas e de “ongueiros”de classe média alta, tipo: Salvem a Amazônia, salvem isso ou aquilo. Mas o que está acontecendo nos rios afluentes da bacia do Juruá é um crime contra a humanidade e a natureza sem precedentes. Por conta da preguiça e do mau-caratismo de alguns poucos habitantes da floresta estão envenenando as águas dos nossos rios com tingüi, timbó e outros produtos. A ironia é que a denúncia foi feita primeiro por um morador do rio Campinas e, posteriormente, justo no dia mundial do meio-ambiente, por um morador do rio Alagoinha. É claro, que nenhuma dessas pessoas simples sabiam que era o dia mundial da ecologia. Denunciaram porque não podem mais tomar banho nas águas dos rios, não podem beber e nem fazer comida e, muito menos, pescar ao meio da mortandade de milhões de peixes, jacarés e lontras. Eles não têm conexão com entidades internacionais que mandam milhões de dólares para a preservação da Amazônia e nem contatos com ministros. Os rios são as vidas deles. É o pouco que resta de uma gente sofrida que vive da floresta. Eles são os verdadeiros guardiões da floresta que estão esquecidos numa agonia lenta e gradual.

Mais uma vez não quero ser panfletário e nem emocional. Mas ouvir o depoimento dessa gente simples machuca o coração. O pior, é que se providências reais não forem tomadas essas pessoas ainda serão usadas por entidades sem escrúpulos para reforçar ainda mais a deplorável proposta de internacionalização da Amazônia. E, assim, continuarão no calvário de uma vida sem perspectiva de futuro num cenário desolado criado pela ignorância humana.

As denúncias do envenenamento dos rios Campinas e Alagoinha foram levadas por mim ao IBAMA, Polícia Federal e Ministério Público. Divulgadas na imprensa através de um chamamento à reflexão da própria população da floresta para que cesse a destruição dos recursos que garantem a sua própria sobrevivência. Há problemas sérios no IBAMA do Juruá. O Ministério do Meio-Ambiente precisa se atentar para isso. Na região de maior biodiversidade do planeta o órgão não tem funcionários suficientes para exercer a vigilância e o trabalho de educação ambiental necessários. A PF e o MP entram em ação quando convocados. Mas tampouco possuem os recursos humanos suficientes para coibirem os crimes ambientais e o tráfico internacional de droga que acontece nessa área fronteiriça.

Vale destacar, que nesse momento, a situação ainda poderá ser revertida. Mas é preciso que esses organismos federais que atuam no Juruá sejam melhores aparelhados em todos os sentidos. Como diz a canção do poeta Loro do Juruá: “é preciso ouvir a voz que vem de lá”. A região é exuberante. Um dos poucos jardins verdejantes que ainda restam debaixo do céu. Um lugar de riquezas imensuráveis que corre o risco de se deteriorar sob a batuta da ignorância e do lucro fácil. Sem falar, no povo mais humilde e generoso do nosso Acre.

Todos os atrativos do Juruá nos remetem a importância e da urgência de um projeto de ecoturismo para a região. Um dos caminhos sociais e econômicos para a mudança da triste realidade de destruição gradativa do nosso meio-ambiente. É verdade que a secretaria de esportes e turismo do Acre está empenhada em concretizar o projeto com o apoio do senador Tião Viana (PT-AC) e do deputado federal Henrique Afonso (PT-AC). Mas a ficha precisa cair com urgência no Ministério do Meio-Ambiente para a solução dos problemas fundiários e de infra-estrutura da face norte do Parque Nacional da Serra do Divisor, local mais atrativo para o ecoturismo da região. É claro, que essa é uma ação de solução entre as muitas outras que podem ser criadas.

Mas outra questão é que além da matança de peixes e do envenenamento das águas dos rios, a caça com cachorro nas matas tem condenado muitas famílias da floresta a passarem fome. A caça é uma atividade de sobrevivência para a maioria das pessoas que vivem “a vida real”da Amazônia. Já para alguns poucos é uma forma de lucro fácil para proporcionar iguarias à mesa dos mais abastados.

Como já disse, detesto frases panfletárias, mas no assunto em questão é preciso gritar alto. Implorar a Rainha da Floresta para que os “homens do poder” acordem para a situação que se vive hoje no Juruá em relação à preservação ambiental. Chega de destruição. Com a harmonia da floresta restaurada, o presidente Lula, tenho certeza, não precisará se preocupar com a sobrevivência das 25 milhões de almas que vivem na Amazônia. Os gringos jamais terão a petulância e a ousadia de propalarem idéias estapafúrdias como a internacionalização das nossas matas.

Mas, inspirado pela realidade que vivo como morador do Juruá, sou obrigado a resumir tudo que já escrevi numa única frase tão simples como o coração dos verdadeiros habitantes da floresta: “Salvem os rios do Juruá!”.

 

 

 
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Rio Branco-AC, 08 de junho de 2008
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