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| Elson Martins | |
Feijó: pôr-do-sol de encantamento Desde a primeira vez que visitei a cidade de Feijó, no Vale do Juruá, por volta de 1975, percebi que havia algo de espiritual e sagrado naquele lugar. Não é à toa que basta atravessar o rio Envira, que desliza majestoso em frente à rua principal, e já encontramos aldeias kaxinawa e chanenawa com lições de vida a oferecer. Não sei se foram mantidos aqueles bancos generosos à sombra de árvores que margeavam o rio! Ali encontrei sábios da floresta que costumavam sentar neles ao fim da tarde para trocar conversa ou, simplesmente, entregar-se ao deslumbramento. Fiquei sabendo através de algumas boas línguas que eles sorviam, naqueles,momentos, sua dose diária de ayuasca para dar conta de absorver tanta beleza natural. Muitos anos atrás, as terras do município foram habitadas pelas tribos indígenas Jaminawa e Chauá. Em 1879, houve a primeira penetração dos chamados “civilizados” com a migração nordestina. Em decorrência dessa migração cresceu o seringal Porto Acre, de Francisco Barroso Cordeiro, e o povoado ganhou a condição de vila oficializada pelo então prefeito (general) Thaumaturgo de Azevedo, do Departamento do Vale do Juruá, cuja sede ficava em Cruzeiro do Sul. O nome Feijó, como costuma ocorrer entres os “podres poderes”, foi escolhido como homenagem ao Padre Diogo Antônio Feijó. Melhor seria permanecer o nome do seringal, Porto Acre, e melhor ainda se tivessem adotado Porto do Sol. Feijó fazia parte do município de Tarauacá. Desmembrou-se em 1938 e sua instalação oficial ocorreu a 1º de janeiro de 1939, sob o governo de Epaminondas de Oliveira Martins. O primeiro prefeito (nomeado, naturalmente) foi Raimundo Augusto de Araújo, pai do primeiro governador eleito do Estado do Acre (1962) José Augusto de Araújo. A foto acima é um presente da amiga Lucimar Araújo (o sobrenome é apenas coincidência), funcionária do Ministério Público que se confessa encantada com os fins de tarde à beira do rio Envira. Veja o recado que ela me mandou por e-mail: - Tentei escolher, entre outras, as mais bonitas, mas não consegui. São todas e tão belas! É impressionante como em fração de segundos os raios do sol provocam uma mudança de cor no céu, na água, nas nuvens, nas árvores... Enfim, mudam consideravelmente a paisagem. Reconheço que as imagens são belíssimas, não por mérito meu, mas da natureza! A “fala verdadeira” É assim que os índios kaxinaua traduzem para nós, brancos, o significado de Hãtsha Hãtha Kuin, o idioma deles que é o mais falado entre os grupos indígenas do Acre. E que deveria ser ensinada também em nossas escolas, já que nos autodenominamos “povos da floresta”. Claro, precisamos deste instrumento para conhecer melhor os valores da floresta e adaptá-los a um estilo de vida capaz de justificar a promessa do governador Binho Marques de transformar o Acre no melhor lugar para se viver. A propósito, semana passada recebi em minha casa a agradável visita do Txai Terri Aquino, antropólogo acreano histórico, principal articulador da defesa dos índios do Acre desde os anos setenta, que veio acompanhado do Avelino Kaxinauá (24), neto do grande cacique Alfredo Sueiro Kaxinauá, de quem fui amigo naqueles tempos ditfíceis de delimitação e demarcação das reservas indígenas no Estado. Estava junto também o doutor em Economia Rural, Fernando Garcia, professor de Mestrado da Universidade da Paraíba (RN). Fernando, que também é acreano, lecionou na UFAC (Universidade Federal do Acre) nos anos setenta e, dirigindo à época a Pró-reitoria de Extensão Universitária, ajudou Terri a montar um museu de peças kaxinauá na instituição, posteriormente ignorada, surrupiada ou entregue as traças. Durante a conversa concordamos que à Comissão Pró-Índio do Acre caberia encabeçar um movimento para montar a Escola de Hãtsha Hãtha Kuin ou de língua Kaxinaua em Rio Branco, com apoio do Governo e da Prefeitura. Seria uma unidade experimental que, num futuro próximo, poderia ser adotada em todas as escolas do ensino fundamental. Aqui vai um exemplo de lição da floresta, aprendida pelo Txai Terri e confirmada por seu amigo Avelino Kaxinaua: quando a pessoa está doente, significa que o espírito está saindo de seu corpo. A cura, portanto, consiste em faze-lo voltar ao devido lugar. Isso pode ser feito com ervas, fumos e pajelança. Quero ser aluno da primeira escola kaxinaua para brancos.
YORENKA ÃTAME Altino Machado * Além de lutar diariamente para conter a invasão e a destruição dos recursos naturais de suas terras por madeireiros peruanos, na fronteira do Brasil com o Peru, no Vale do Juruá, a Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa) ainda consegue se mobilizar para inaugurar no sábado (ontem) a Yorenka Ãtame – Escola Saberes da Floresta, uma iniciativa que poderá se tornar num marco na defesa das florestas da região. A Yorenka Ãtame pode ser um exemplo de como restaurar o meio ambiente e ter uma facilidade muito mais prática de ensinar os ribeirinhos. Apoiada pela Rede de Amigos da Escola, Governo do Estado do Acre e prefeitura de Marechal Thaumaturgo, a escola é um desafio do povo ashaninka, que vai ensinar a população branca da região a estabelecer uma relação com a floresta sem danos ambientais. “A Escola é um desafio grande para o nosso povo, para enfrentar até mesmo os conhecimentos acadêmicos”, afirma Benke Pinhanta, ashaninka criador e coordenador da escola. Segundo Benke, a escola veio para mostrar um novo modelo que a comunidade ashaninka desenvolveu voltado à segurança e sustentabilidade alimentar. “As coisas ficam muito entregues na mão do governo, prefeitura, dos políticos, e muito pouco nas mãos dos representantes do cooperativismo”, assinala Benke. A escola vai receber até 80 pessoas de uma vez, 40 pessoas em cada curso, e conta até com os recursos da Internet. Benke avalia que hoje há muita discussão sobre como fazer com relação aos problemas ambientais. “Tem muitas pessoas quase gritando que está acabando a floresta, o ar, a água, estão mudando o clima. Mas isso está acontecendo porque a gente não está construindo para amenizar o que está acontecendo. A parte científica deve se voltar para o lado prático também”, aconselha. Benke considera o manejo a coisa mais séria. “O erro é que estão estudando o que vem de fora: a experiência de manejo florestal que aconteceu na Europa - França, Alemanha, Inglaterra - e Estados Unidos, a parte acadêmica sobre os planos de manejo dos recursos de uma forma econômica. Para a gente, não dá para copiar aquele modelo de fora”. Ele disse que na Europa existe pouca floresta nativa, muito já foi destruído e o que resta na maioria é monocultura de pinheiro e outras espécies. “Temos que ter o nosso inventário porque muitas coisas boas já foram construídas com essa diversidade de madeira, a ciência e a consciência que o povo tem aqui sobre esse manejo”, acrescenta. Como a Universidade da Floresta está se revelando fora de foco, como um campus avançado da Universidade Federal do Acre com cinco cursos em Cruzeiro do Sul, a escola Yorenka Ãtame quer pôr em prática a transmissão dos saberes da floresta dos índios para os extrativistas e ribeirinhos. * Jornalista acreano e sócio informal de Almanacre |
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