OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Verdade e Poder

O “mundo” das idéias e pensamentos é muito engraçado e original. A primeira dificuldade diz respeito ao fato de que nunca se sabe ao certo se estamos realmente tratando de problemas reais ou apenas imaginados. Mas, perguntariam vocês, “como separar esse mundo a que se rotula de “mundo das idéias” desse que se apresenta de forma material e “real”?” A esse respeito as aspas não são de pouca importância, pois na realidade são formas de conceber o mundo que, na forma de mundo das idéias (que poderia ser dito dos valores conscientes ou dos vários graus de inconsciência), dão toda a forma do mundo real. A questão é muito mais profunda, pois na verdade todo o estudo, reflexão, discussão, diálogo, e mesmo brigas e marcações de posições de valores, na mídia ou na academia, não deixam de marcar de forma consciente ou não o mundo material, das nossas vivências, sejam elas as mais espirituais ou as mais brutas. Em resumo, está na imaginação a chave para todo o nosso viver e sentir, uma vez que é ela que se interpõe e, se utilizando de valores e idéias que, nos registros mais profundos parecem ser “verdades”, produz a nossa visão, os nossos assentimentos e aversões.

Existem épocas, como a renascença, o pós-guerra e outras em que uma parte daquilo que se achava graniticamente “verdade irrefutável” passa e exibir o seu caráter arbitrário e artístico, ou seja, passa-se a desconfiar de que as coisas não são bem como nós “imaginávamos” e as idéias de bem e mal, de belo e feio, de aceitável e não aceitável e de justo e injusto passam a ser objeto de um silencioso e “plebeu” escárnio da parte dos que justamente eram colocados numa posição inferior na ordem de valores. Basta lembrar que os grandes homens da renascença, ou seja, os grandes pensadores dessa época, não tinham lugar entre os “Doutores da Igreja” e que eram por vezes meros funcionários públicos sem o menor brilho social. Ou que Descartes não tinha expressão “acadêmica” e era tratado como um “ator sem teatro” ou como um “livre” pensador. Ou ainda do enorme e opressivo desprezo a que foi submetida a vida e a obra de um Lima Barreto, que era um “nada” social, econômico e mesmo cultural, quando ele mesmo confessa que se depender dos críticos, ele nem mesmo pode ter a certeza de ser um escritor.

Num primeiro momento, nessas épocas de decadência e nascimento (dependendo de quem valora) os beneficiários tentam agir como se nada houvesse mudado. Mas então uma parte do aspecto inventado do poder de “deus” ou dos “bem nascidos” ou do “estado despótico” se revela. Como assim? Pensam uma parte dos oprimidos: então o fato de que seja refutável o seu “direto” a dominar e ficar sempre com a melhor parte, seja dos ganhos do comércio, seja da exploração pura e simples de populações “animalizadas” e, por conseqüência dessa “animalização”, escravizadas, seja ainda da simples espoliação do estado para todos os seus, dessa e das futuras gerações, não muda nada? Os beneficiários sempre souberam que tudo não passava de um trato ou, para dizer com palavras mais duras, que as suas vantagens não estavam alicerçadas na natureza das coisas, mas sim num secreto e mesmo bem humorado amontoado de mentiras rebatizadas de “verdades”.

A filosofia não se lê e aprende apenas nos textos dos grandes clássicos, mesmo que não seja possível começar sem o conhecimento de alguns deles. Mas, depois de “visitar” esses recônditos da alma na companhia dessa máscara chamada filósofo, se aprende que o conhecimento com maior direito a esse nome é apenas uma grande anti-natureza, ou seja, um treinamento para ver com a mente aquilo que está escondido, um treinamento para divergir o olhar, para não mais entender aquilo que seus contemporâneos chamam de “natural” e “prudente”. Loucura? Desequilíbrio? “Imaginação”? Talvez, mas para que o bicho homem possa superar as suas alucinadas normalidades esses homens da visão dolorosa, que freqüentemente gostariam de nunca ter visto pela primeira vez aquelas dolorosas hipocrisias a que se acostumou chamar de verdade, pois gostariam de acreditar que era possível não aprender a ver esses “objetos” e, portanto, teria sido possível viver como a calma de todos. Mas não é um paradoxo que justamente os homens mais preparados para viver além e a parte sejam justamente os que menos têm esse direito? Como diz Nietzsche, os pensamentos de um filósofo não vêm de dentro, mas sim de fora, de baixo, do alto, ou seja, à partir de um momento ele não tem mais controle sobre aquilo que ele tem como os seus acontecimentos e verdades, pois não é mais possível evitá-los...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 8 de julho de 2007
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