| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana (VII) O ano de 1988 foi muito importante para a história da arqueologia acreana. A publicação do primeiro artigo sobre os sítios com estruturas de terra pesquisados pelo IAB entre 1977 e 1980 marca uma primeira tentativa de síntese da pré-história acreana, ainda que restrita aos vales do Iaco, Acre e Iquiri. Com a descoberta de pelo menos nove diferentes sítios com estruturas de terra, durante as pesquisas realizadas entre 1977 e 1980, o Dr. Ondemar Dias logo percebeu estar diante de uma ocorrência extremamente importante para o conhecimento da ocupação pré-histórica, não só do Acre, mas de toda a Amazônia Ocidental. Afinal de contas tratava-se de um tipo de sítios totalmente original e desconhecido até então e que levantava de imediato diversos questionamentos e hipóteses. Apesar de valetas de terra retilíneas já terem sido registradas no Xingu, os sítios do Acre revelavam diversas formas geométricas e composições de círculos, montículos e retas. Entretanto, já no inicio do artigo “As Estruturas de Terra na Arqueologia do Acre”, escrito em parceria com a Dra. Eliana Carvalho, Ondemar parece prever o que aconteceria quase vinte anos mais tarde ao alertar: “Quanto menos especulativas, distorcidas ou até mesmo irreais são as interpretações, tanto mais possuidoras de um conjunto suficiente e coerente de dados. Precipitar o todo interpretativo sem mesmo possuir tal conjunto tem permitido construções teóricas confusas, de pouca precisão e frágil fundamentação, induzindo ao erro os menos avisados. Poderemos sucumbir às visões interpretativas feitas para a ocupação pré-histórica da Amazônia no total desconhecimento de porções territoriais – ainda neste mesmo nível - imensas?” (Dias e Carvalho, 1988, pág.16) Essa preocupação com o rigor científico e com a relação ética que deve se estabelecer entre os pesquisadores e seu objeto de estudo explica, entre outras coisas, o cuidado com que o Instituto de Arqueologia Brasileira como um todo sempre revestiu seu trabalho e o fato de só publicar ou divulgar informações que poderiam ser efetivamente comprovadas, abrindo mão do sempre eficiente sensacionalismo midiático. Ou alguém desconhece que nossa sociedade, e por conseguinte a mídia, é ávida pelo espetacular, pelo especulativo, mesmo que isso signifique, muitas vezes, mais a desinformação do que o conhecimento? Assim, Ondemar e Eliana deixaram claro também de saída que esse artigo tinha apenas caráter preliminar e visava estabelecer algumas hipóteses realistas de trabalho e de desenvolvimento das futuras pesquisas acerca dos sítios com estruturas de terra do Acre. E como reconhecimento ao pioneiro trabalho desenvolvido pelo IAB no Acre deixemos aos autores do citado artigo a tarefa de descrever como se deu a descoberta dos, até então desconhecidos, sítios com estruturas de terra da Amazônia Ocidental. “Logo no primeiro sítio localizado por nós em 1977, próximo a cidade de Rio Branco, pudemos constatar a existência de uma estrutura circular em forma de valeta pouco profunda, com um pequeno acumulo de terra em forma de mureta na área externa do circulo. Posteriormente mais uma série delas foram localizadas, algumas das quais nos forneceram material cerâmico arqueológico. Localmente são consideradas como ‘trincheiras’ da guerra do Acre e nunca antes haviam despertado a atenção. Aliás, cumpre ressaltar, termos sido os primeiros pesquisadores a trabalhar em toda a bacia do Purus acreano e do Juruá em todo o seu curso. (...) Nós tivemos oportunidade de visitar as obras militares ainda existentes na vila de Porto Acre e observamos que são muito diferentes daquelas identificadas por nós e para a maioria das quais temos a comprovação fornecida pela cerâmica, da sua antiguidade, ou pelo menos, da sua relação com a pré-história local.” (pág.17) A partir dessa narrativa inicial Ondemar e Eliana passam a descrever e interpretar oito sítios com estruturas de terra em diferentes regiões e com variadas características. Quatro destes sítios: Palmares I e II, Campo das Panelas e Capatará, foram localizados nas margens da BR-317, trecho entre Rio Branco e Xapuri. Sendo os dois primeiros com estruturas circulares bem definidas, o Campo das Panelas com estrutura muito irregular e o Capatará com uma mureta reta mais simples. Mais dois sítios, Catuaba (as margens da BR-364) e Boca Quente (no entorno da área urbana de Rio Branco), junto com os quatro anteriores, formam um conjunto de sítios relacionados à Fase ceramista Quinari, determinada por Ondemar Dias a partir da análise do material arqueológico da região. Mas também possuem características variadas, sendo o Catuaba constituído por pequenas plataformas de 8 X 4 metros e 1 metro de altura e o Boca quente por um circulo de 120 metros de diâmetro. Já o sítio mais ao sul dentre aqueles tratados neste artigo apresentou material cerâmico relacionado à Fase Xapuri. Trata-se do sítio São Francisco, situado no município de Assis Brasil e que apesar de já estar parcialmente destruído evidenciava ser um pequeno circulo pouco profundo, com uma camada ocupacional atestada por cerâmica de cerca de 30 cm de espessura. E finalmente os autores tratam ainda de mais um sítio, este bem mais ao norte, no vale do rio Iaco, município de Sena Madureira, cujo material arqueológico está relacionado à Fase Iaco. Além de sua condição geográfica diferenciada, este sítio, que foi denominado Lobão por estar situado às margens da estrada que antigamente ligava Rio Branco e Sena Madureira, é, de longe, o mais complexo dentre todos os sítios aqui relacionados e foi descrito da seguinte maneira: “A estrutura maior tem cerca de 50 metros de diâmetro e o conjunto valeta-mureta tem até 2 metros de largura, por cerca de 50 cm de altura e apresenta o detalhe do interior ser mais baixo do que a área externa. A 150 metros de distancia há outra estrutura, bem menor, com cerca de 20 metros de diâmetro e valeta-mureta baixa, não chegando a 40 cm de altura, sendo mais visível a depressão. Alinham-se, mais ou menos no sentido Norte-Sul. Ao norte delas há grande mancha de terra preta, distante cerca de 200 metros. Em toda a área foram recolhidos fragmentos cerâmicos e nos foi doada peça inteira. A 50 metros além da terra preta, em área também enegrecida, em terreno de plantio, com cerca de 50 cm de espessura, já revirado, recolhemos inúmeros fragmentos de peças semelhantes. A terra preta mencionada tem cerca de 13 metros de extensão por 5 de largura e está, atualmente cortada pela estrada.(...)” (pág.20,21) A partir da descrição sumaria das características dos sítios pesquisados, os autores passam então a se dedicar às interpretações possíveis, diante do estágio dos conhecimentos disponíveis na época, estabelecendo diversas hipóteses acerca da função das inusitadas estruturas de terra. Dentre estas hipóteses, a defensiva, a simbólica, a mágica, a agrícola, bem como a alguma combinação entre estas. “Círculos mágicos de proteção ou efetiva obra contra a surpresa de ataques inimigos, elas podem ter sido uma, outra, ou ambas as coisas.” (pág.22) E para reforçar sua linha de trabalho citam ainda a “visita a uma aldeia ‘Curina’ do Igarapé Matrinchão, no Juruá amazonense, próximo à cidade de Eirunepé, pudemos observar que a aldeia atual (em 1983) estava cercada por uma mureta de terra, toda plantada de ‘ananás’, cujas ramagens espinhentas (ou cortantes) formavam densa barreira, impedindo de forma eficaz, qualquer tentativa de cruzá-la, pelo menos a pés descalços, por homens e animais.” (pág.23) Como tive a honra de trabalhar por muitos anos com Ondemar e Eliana, ouvi deles diversas outras hipóteses acerca da localização, distribuição e datação destes sítios, que veremos futuramente nesta coluna, mas sempre pautados pela profunda seriedade e ética no trato com o conhecimento. Afinal de contas nenhum cientista, seja de que área for, pode desconhecer que o conhecimento é uma forma de poder e por isso exige extrema responsabilidade. De qualquer forma, Ondemar e Eliana, ao encerrar este artigo prenunciaram de alguma forma os acontecimentos que viriam a ocorrer desde então. “Faz-se mister que a pesquisa tenha prosseguimento no Estado do Acre e que outros se interessem em aprofundar o trabalho, tornando nossa pré-história ainda mais compreendida e seus detalhes melhor esclarecidos. Nosso esquema vem proposto como um esboço inicial, sendo imprescindível sua complementação. Que as novas contribuições, no entanto, mostrando sua validade ou não, estejam sempre apoiadas no mesmo nível de argumentação demonstrado a partir da utilização de dados técnicos e cientificamente sólidos.” (pag.24) E o tempo mostrou que seus autores estavam certos em ambas as recomendações. Afinal foi através do mesmo Dr. Ondemar Dias que foram elaborados dois novos projetos (1992 e 1994) para estudar especificamente este tipo de sítio arqueológico, sob coordenação da arqueóloga acreana, a Prof. Mauricélia Souza, bem como duas teses de Doutorado elaboradas e defendidas (1996 e 1999) na UFF. Do mesmo modo em que, mais recentemente, surgiram novos descobridores de geoglífos, novas hipóteses de que eram os deuses astronautas - e pousavam bem no meio dos círculos de terra entre purussauros e tigres dentes de sabre - e insuspeitos mercenários de ocasião que tentam de toda forma se auto-promover, desconhecendo e até desmerecendo tudo o que até aqui já foi feito, enquanto se apropriam de informações e hipóteses geradas pelos mesmos que criticam, sem sequer citar a fonte de onde tiraram suas informações. Uma realidade que é de certa forma uma triste crônica de nosso tempo. Por isso Gaia está enferma, seus filhos (da dita civilização ocidental) a estão matando. Mas acredito que aqui no Acre existe uma trincheira (ou várias) escavada na terra e vamos continuar lutando. Foi assim antes, será depois. Obs.: Como se trata do vigésimo sétimo artigo desta coluna, numero de que gosto muito, quero aproveitar para agradecer aqueles que me mandam e-mails de Portugal, do Acre e de outras partes do Brasil comentando os artigos da coluna, ou mesmo aqueles com quem nunca tive nenhum tipo de contato mas que recortam e guardam esses artigos. São vocês que justificam o sempre sofrido ofício de escrever. Obrigado. |
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