OPINIÃO
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Leonildo Rosas *

 

 

FPA: uma unidade ameaçada

A Frente Popular foi uma das maiores construções políticas da história do Acre. A idéia de juntar vários partidos com um mesmo objetivo de devolver ao Estado sua auto-estima e seu devido lugar nasceu em 1990. Embora não tenha vencido as eleições naquele ano, ela foi vitoriosa porque acumulou capital político e deu seu recado, fazendo com que os eleitores percebessem que o Acre tinha jeito.

Até então, nunca um candidato de um partido considerado de esquerda houvera obtido uma votação tão expressiva nem chegado a um segundo turno na disputa para o governo. O jovem engenheiro florestal Jorge Viana conseguiu. Foi o primeiro de muitos outros passos.

Diferentemente do que muitos pensam, Jorge Viana não foi para o segundo turno apenas pelo seu carisma pessoal. Contou com o apoio de várias outras forças e de um capital político construídos nos movimentos sociais pelos partidos que o apoiaram. Viana não seria o que é sem as forças progressistas. E, muito provavelmente, essa forças também não chegariam tão longe sem ele.

Essa simbiose entre o político carismático e as forças que o sustentavam permitiu a primeira vitória dois anos depois, com a chegada à prefeitura de Rio Branco. Mas os erros também vieram.

Já em 1996, pela primeira vez a coligação teve uma ruptura. O PC do B lançou candidatura própria. E perdeu! O então vereador Marcos Afonso era acusado pelos ex-camaradas de traidor. Concorreu a prefeito para suceder Jorge Viana. Foi derrotado pelo peemedebista Mauri Sérgio.

A derrota serviu para ensinar. A partir dali começou-se a perceber que não bastava uma candidatura forte ou carismática para obter a vitória eleitoral. O ensinamento tirado é de que nada se constrói sem um projeto político e de governo bem definido. Projeto esse que deve ser alicerçado num ponto fundamental: a unidade.

Foram essa unidade e a capacidade de dialogar com os diversos setores da sociedade que possibilitaram que a Frente Popular do Acre passasse a obter vitórias sucessivas nos pleitos em que seus candidatos concorriam.

Tanto sucesso possivelmente fez com que o diálogo com a sociedade fosse interrompido. A maioria das decisões passou a ser tomada por grupos isolados e lideranças que fugiram um pouco das características originais.

Mas, se faltou diálogo, sobrou capacidade para manter as forças unidas, mesmo umas tendo maior poder e espaço político do que as demais. Essa liga que une todos é a causa do Acre.

As eleições do ano passado foram a demonstração inequívoca da força unitária da Frente Popular. A junção de todos possibilitou a vitória do então vice-governador e secretário de Educação Binho Marques, um homem que nunca fora submetido ao teste das urnas.

Os fatos que levaram até a candidatura de Binho Marques também revelam que o projeto coletivo sempre esteve à frente das vontades, pretensões e paixões individuais.

Marques apareceu como a solução de um grande problema. Considerado candidato natural, o senador Tião Viana, pelo parentesco com o então governador Jorge Viana, foi impedido de concorrer ao governo. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, abriu mão de ser candidata. Alegou que preferia continuar o seu trabalho à frente do ministério.

Fosse Tião Viana ou Marina Silva candidato, seu companheiro de chapa sairia de um tradicional partido da coligação. O nome do deputado estadual Edvaldo Magalhães, do PC do B, surgia naturalmente. O parlamentar é um fiel defensor do projeto. Havia sido líder do governo na Assembléia Legislativa durante oito anos. E liderou muito bem. Nunca perdeu uma votação.

Ocorre que a realidade com a candidatura de Binho Marques passou a ser outra. Ele não tinha densidade eleitoral nem era conhecido pela maioria da população acreana, principalmente na região do Juruá, onde está o segundo colégio eleitoral do Estado.

Era preciso construir uma alternativa juruaense para formar a chapa. Edvaldo Magalhães, mesmo sendo da região, não era visto como o parceiro ideal. A solução foi convidar o ex-prefeito César Messias, do PP, que aceitou.

Primo do ex-governador Orleir Cameli, Messias fez uma administração elogiada. Não conseguiu eleger seu sucessor, mas deixou a prefeitura com a popularidade em alta. Não havia nome melhor.

Em nome da unidade e do projeto político, Edvaldo Magalhães retirou sua candidatura. Foi pessoalmente convidar o ex-prefeito para concorrer ao governo na chapa de Binho Marques.

A estratégia deu certo. Binho e César venceram, assumiram. Estão governando. Mas os problemas começam a aparecer.

A Frente Popular, que caminha para completar 18 anos nas eleições do próximo ano, é muito diferente. Embora tenha um núcleo pensante, precisou inchar. Abriu concessões. Atraiu antigos adversários para chegar ao terceiro mandato consecutivo de governo.

A abertura dessas concessões e as novas adesões trazem problemas imediatos. Problemas esses que, por incrível que pareça, estão sendo creditados ao recém-chegado PP do vice-governador César Messias.

A situação chegou a tal ponto que há quem acredite que o PP está agindo deliberadamente para minar a tão preservada unidade da Frente Popular do Acre.

Os críticos do comportamento progressista acreditam ter provas materiais para fazer a afirmação. A primeira foi a filiação do prefeito de Tarauacá, Vando Torquato.

Esse primeiro fato tem procedência. Tarauacá é um ambiente onde os partidos tradicionais da Frente Popular têm candidatura própria a prefeito e fazem oposição ferrenha ao prefeito. Nesse município, as forças contrárias a Torquato se juntaram para dar vitória expressiva ao governador Binho Marques e ao presidente Lula.

Outra movimentação do PP que chamou a atenção foi a filiação do prefeito de Acrelândia, Vilseu Ferreira. Nesse município, as forças que apoiaram a chapa Binho-César também têm candidatura própria.

O terceiro movimento, que não deu certo ainda, foi a tentativa de filiar o ex-deputado José Vieira e a esposa, a ex-prefeita Toinha Vieira, que é a principal adversária do prefeito Nilson Areal.

Os progressistas podem reclamar de perseguição e dizer que têm o direito de procurar o crescimento. É uma verdade. Mas o problema está nessa busca desenfreada pelo crescimento, filiando personalidades políticas que, historicamente, trabalharam para derrotar o projeto da Frente Popular.

Está mais do que claro que a Frente Popular não necessita, no momento, crescer. É hora de manter o que se tem e buscar a qualidade política para continuar implementando os projetos concebidos há 17 anos.

O que se percebe é que, ao manobrar para crescer, o PP complica a vida dos aliados. Abre a possibilidade de pôr o governador Binho Marques num palanque e o vice-governador César Messias noutro, em vários municípios. E não foi para marcharem cada um para o seu lado que a população os elegeu.

As eleições de 2008 serão as eleições da maioridade da Frente Popular. A coligação, que começou como uma menina precoce e passou pela adolescência ensinando a fazer política, a ponto de ter a maioria dos prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais e prefeitos, não pode agora, quando entra na idade adulta, perder seu rumo e seu prumo. Afinal, os erros cometidos após os 18 anos recebem maiores punições.

Na política, esses erros quase sempre levam diretamente para a balsa.

* Jornalista

 
 
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Rio Branco-AC, 8 de julho de 2007
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