Val Sales
O Programa Saúde Itinerante é mais uma das importantes ações criadas no Acre e copiadas como modelo de desenvolvimento social por outros Estados brasileiros. Ele é formado por uma equipe de médicos especialistas, enfermeiros, técnicos e assistentes sociais que se embrenham no meio da floresta amazônica para levar atendimento de saúde às comunidades dos lugares mais longínquos e de difícil acesso do Acre.
A dedicação dos profissionais é reconhecida pelos colonos, seringueiros, ribeirinhos e demais pessoas que moram a quilômetros de distância ou a dias de viagem da capital Rio Branco. Em oito anos de atuação, a equipe já percorreu diversas comunidades nos 22 municípios do Acre, onde são considerados os “anjos guardiões” da saúde. Em uma breve entrevista, a enfermeira e coordenadora da equipe, Celene Maia, explica como funciona o trabalho e como é o dia-a-dia desses profissionais.
Como a senhora define sua equipe?
Como uma grande família. Crescemos juntos profissionalmente e no sentido humanitário. A relação com as pessoas mais simples das comunidades do interior nos tem ensinado lições importantes de humanidade e de reformulação de vida. Aprendemos com essas pessoas a dar valor às coisas mais simples e a ter uma consciência mais profunda da importância do ser humano.
O que é o Programa Saúde Itinerante?
O Programa Saúde Itinerante nasceu do sonho do médico infectologista e senador Tião Viana, de ultrapassar as dificuldades geográficas e de saúde do Estado para levar atendimento às comunidades de difícil acesso. Ele reuniu um grupo de amigos profissionais de saúde e os convidou para um trabalho voluntário, começando assim essa atividade que hoje nos gratifica tanto. O programa Saúde Itinerante passou a ter caráter oficial em 2000, quando Tião Viana, já no ofício de senador da República, disponibilizou recursos de emenda parlamentar para financiar as ações do grupo.
Como a senhora entrou no programa?
Participando do grupo de voluntários. Além do papel de enfermeira, foi-me dada a função de organizar a ação.
Os objetivos vêm sendo alcançados?
Nosso objetivo é levar atendimento médico especializado e cirúrgico às populações residentes nos municípios isolados, de difícil acesso e em locais com insuficiência da oferta assistencial, além de proporcionar uma modalidade de saúde igualitária e sem fronteiras. A resposta é sim.
Como é formada a equipe itinerante?
A equipe é composta por médicos, enfermeiros, biomédicos, assistente social e técnico em enfermagem. Disponibilizamos especialidades como cardiologia, ginecologia/obstetrícia, pediatria, infectologia, neurologia, psiquiatria, dermatologia, ortopedia, oftalmologia, gastroclínico e clínico-geral. São oferecidos ainda exames de eletrocardiograma, ultra-sonografias, endoscopia digestiva alta, colposcopia, exames de prevenção do câncer de colo uterino (PCCU) e testes laboratoriais.
Como as comunidades ficam sabendo da presença de vocês?
Por meio do rádio, dos agentes comunitários de saúde, agentes de saúde indígenas, associações de moradores e de produtores rurais. A periodicidade das viagens é de duas vezes por ano a cada localidade.
Qual o diferencial de trabalhar com essas comunidades?
A relação com as pessoas e o conhecimento da realidade na qual elas vivem despertam em nós maior sentido de humanidade e crescimento profissional. O que para muitos é relato, para nós é vivência. O aprendizado vai desde o convívio direto com as pessoas até as condições adversas que enfrentamos, como a falta de acomodação, o que nos faz dormir no chão das escolas, dentro de barcos, em barracas. Também andamos a pé dentro da mata, em cima de caminhão e de trator. Nós nos alimentamos também de forma diferenciada e atendemos dentro de igreja, de escolas, de associações e debaixo de árvores.
Como é organizado o atendimento?
Por meio de triagem prévia feita pelas equipes do programa Saúde da Família (PSF) da localidade visitada. Onde não há cobertura do PSF, a equipe atende demanda espontânea. A triagem para as especialidades é feita pelo clínico presente no atendimento ou pela enfermagem.
Quais os resultados alcançados até agora?
Diminuição no Tratamento Fora do Domicílio (TFD), aumento da cobertura do exame de preventivo do câncer de colo uterino, aumento nos indicadores de saúde dos municípios através de consultas e exames realizados, fortalecimento da atenção básica, aumento da cobertura vacinal, de consultas do pré-natal, contribuição para aumento da inclusão social e o fortalecimento do intercâmbio entre Secretaria Estadual de Saúde e secretarias municipais. As análises dos dados dos atendimentos realizados nos possibilitam novas discussões acerca do modelo de assistência à saúde na região amazônica. |