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Elson Martins

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Vargas reunido com partidários do PTB em 1950

Getúlio Vargas perdeu banquete

No início dos anos quarenta o governador do Acre, Epaminondas Martins, recebeu um telegrama do Rio de Janeiro comunicando que o presidente Getúlio Vargas visitaria o ex-Território Federal permanecendo três dias em Rio Branco. Estava em formação, na época, a Grande Marcha para o Oeste, através da qual o governo brasileiro planejava ocupar o imenso espaço vazio cobiçado por paises estrangeiros. E a Segunda Guerra Mundial ampliava os temores de Vargas quanto a isso.

O comunicado da Presidência causou alvoroço na administração local. Como se faz para receber bem um homem tão poderoso como Vargas? O que ele gostaria de ver? Que tipo de comida prefere? Alguém poderia informar sobre os gostos e manias do presidente? Pra dizer a verdade, ninguém entendia patavina de cerimonial.Além disso,quem imaginaria naqueles tempos que um presidente quisesse visitar o Acre? No corre-corre alguém sugeriu passar um telegrama perguntando se Getúlio tomava banho quente ou frio...

Convém lembrar que ainda não havia sido criado o “escalão precursor” que, nos dias de hoje, se antecipa e dá um “chega pra lá” nas equipes locais isolando o presidente em nome de sua segurança. Ah, a pista de pouso de Rio Branco era de barro puro; como explicar que uma verba liberada pela Aeronáutica para pavimenta-la, havia sumido?

No Acre território faltava tudo, por isso dois pilotos baseados aqui foram acionados: o comandante Sérvulo, que pilotava um velho Ferchald; e o coronel João Donato, pai do excepcional cantor e compositor João Donato, que num outro aparelho recebeu a missão de transportar uma carga de sabonetes, toalhas e papel higiênico de Manaus.

Mas o “menu”, gente, como fazer com o “menu” presidencial? Com o declínio da borracha a cozinha acreana perdera sua performance européia. A comidinha regional era gostosa, mas faltava tempero e o requinte do começo do século. O “frisson” palaciano se ampliava com a situação quando um “salvador da pátria”, aleluia, informou sobre a existência, em Cruzeiro do Sul, de um cozinheiro francês remanescente da “belle époque” da borracha. Chamava-se Elli Gaby e a fonte advertiu: “o sujeito é meio enjoado”!

Não teve conversa. O governador mandou seu ajudante de ordem, capitão Sergio, buscar o homem de avião. Ele tinha que vir para Rio Branco por livre e espontânea vontade, “ou amarrado”.

Quando Gaby chegou ao palácio do governo e tomou pé da situação fez escândalo: Como fazer “menu” especial com macaxeira, jerimum, farinha d!água e açúcar preto? Não tinha maionese, nem petit fois, nem patê, nem vinho, nem licor de espécie alguma. Não tinha nada Ele teve que fazer uma lista imensa - abusou até, provavelmente se vingando- e lá se foi um avião do governo buscar tudo no Rio de Janeiro.

Pra encurtar a história: à véspera da visita presidencial, o “maitre” já havia feito comida sofisticada para um batalhão. A cozinha que funcionava no palácio mesmo, que era também residência do governador, lembrava a de um restaurante francês. Entretanto, chegou novo telegrama avisando que Getúlio Vargas, aconselhado por seu esquema de segurança, cancelara a viagem. O presidente, conforme a segurança, correria riscos numa terra tão distante habitada por alguns perigosos “comunistas”.

Bobagem! Por precaução, o governador Epaminondas tinha mandado prender a corriola subversiva encabeçada pelo poeta Tomé Manteiga, destemperado, de língua afiada que certamente acharia meio de fazer chegar aos ouvidos de Getúlio Vargas, críticas duras sobre “como estava o povo acreano”. O cancelamento da visita, além de privar o Acre de um fato histórico, acentuava o despropósito de prender, por nada, esse pessoal.

Para amenizar a situação - e já que tinha tanta comida chique sobrando -, o governador mandou buscar Tomé Manteiga e seus companheiros para jantar no palácio as especiarias do Elli Gaby. Tomé foi: comeu, bebeu, mas, após algumas doses de vinho francês, deixou o Palácio Rio Branco bufando de raiva pela humilhação que sofrera.

(Historinha que ouvi do escritor e poeta acreano Océlio Medeiros, 94 anos, um dos comensais).


Plácido de Castro com seus cachorros no seringal Capatará

Fawcett e Plácido

Alceu Ranzi

O Texto abaixo é uma tradução livre, extraída do livro Exploration Fawcett, de autoria do Coronel Percy Harisson Fawcett, publicação de 2001 da Editora Phoenix Press de Londres.

A viagem de Fawcett, realizada nos anos de 1906 e 1907, foi uma missão oficial do governo Boliviano de reconhecimento de fronteiras. Digno de registro são os relatos dos encontros com Plácido de Castro e as observações de Fawcett sobre os remanescentes dos Apurinãs no campo do Gavião. Também chama a atenção a foto de corpo inteiro do Plácido no Capatará com os seus cachorros.

Pelas datas é possível inferir que os encontros entre Plácido de Castro e Fawcett e a travessia Capatará (rio Acre) para Santa Rosa (rio Abunã), ocorreram entre os meses de março e abril de 1907.

Vamos deixar o Cel. Fawcett falar: 

“Depois de deixar Cobija nós entramos em território brasileiro e a mudança foi notável. Barracões prósperos, ricos proprietários e casas bem construídas. Comparando com Cobija, Xapuri era uma lugar luxuoso, com um hotel onde a diária de “14 shillings”, não era cara, comparando com os preços ao longo dos rios.

Como nas cidades bolivianas, não faltava em Xapuri álcool e doenças. Era em Xapuri que os “valentes” do Acre se reuniam para festejar, assim a cidade era quente em mais de um sentido.

Dan era o “galã” do nosso grupo e o pagamento que ele recebeu em Cobija foi gasto com uma nova “fatiota”, um relógio de bolso com corrente e um par de horrorosas botas amarelas com salto alto e elástico nos lados. Eu não sei explicar como Dan escapou da atenção dos “valentes” de Xapuri. Imagino que os “durões” de Xapuri seriam diabolicamente capazes de se divertir algumas horas maltratando e ridicularizando o “gostoso” do Dan.

Essas cidades, nos altos rios, atraem os piores elementos do Brasil. São capazes de roubar borracha e outras coisas, sem que os proprietários percebam. Vender o resultado dos furtos, rio abaixo, é coisa fácil. Esses maus elementos são hábeis com suas facas e armas de fogo e prontos para usar sem compaixão. Pessoas comuns não teriam chances com esse tipo de bandido.

Empresa é outra localidade brasileira no rio Acre, menos desenvolvida do que Xapuri. Em Empresa nós ficamos o tempo suficiente apenas para encontrar com o coronel Plácido de Castro, Governador do Acre, com quem seguimos até a sede do seu seringal Capatará. Graças ao Coronel, em Capatará nós conseguimos as mulas para a viagem por terra para o rio Abunã. Por sua hospitalidade e conversação amena, ficamos em débito com ele.

Os afluentes das cabeceiras do rio Abunã precisam ser explorados e mapeados, pois os igarapés são extremamente importantes para o arranjo dos marcos da fronteira Bolívia/Brasil.

Nós acampamos em um lugar chamado Campo Central, com a intenção de explorar e mapear as nascentes de alguns igarapés e determinar suas posições geográficas. Enquanto realizando as explorações nós percebemos enormes clareiras de gramíneas, de um a dois quilômetros de diâmetro, o lugar comportava poucos anos antes uma grande aldeia dos índios Apurinãs. Alguns destes índios ainda viviam em outro lugar, chamado Gavião. Os índios eram de todas as maneiras, de aparência deteriorada, de pequena estatura e não aparentavam perigo. Eles enterravam seus mortos numa postura sentada e em todos os lugares da clareira havia sepulturas. Alguns outros índios, com muita sorte, fugiram das correrias para o interior da floresta, onde fizeram amizade com seringueiros e rapidamente caíram sob a influência do álcool.

O pequeno bando de índios do Gavião havia se acostumado à civilização e pareciam suficientemente contentes, exceto pelas maldades infligidas ao grupo por um espírito diabólico chamado Kurampura.

Por pouco, próximo do Gavião, eu escapei da morte. Ao longo do varadouro havia vários igarapés profundos, com pontes feitas de troncos. Ao cruzar as pontes eu ficava francamente nervoso, mas me confortava o pensamento de que instintivamente ou por familiaridade, as mulas saberiam melhor do que eu o que estavam fazendo.

Foi quando ao cruzar montado uma dessas perigosas pinguelas, o tronco quebrou e nós – eu a mula – caímos dentro do igarapé. Eu fiquei mergulhando na água debaixo do animal, cujo peso me imprensava contra o leito barrento do igarapé. Se o leito fosse de pedra eu teria quebrado vários ossos, pois a mula escoiceava para todos os lados nas tentativas de ficar em pé. Com a queda, todo o ar foi expulso dos meus pulmões e nos últimos instantes eu consegui colocar a cabeça fora dágua e respirar. Escapei por pouco.

As fortes chuvas e a alagação do varadouro para o rio Abunã, nos forçaram a ficar alguns dias no Campo Esperança, onde alguém furtou duas selas das nossas mulas. Se o ladrão for descoberto eu tenho pena dele, pois os arreios e os animais pertencem ao Coronel Plácido de Castro.

Antes de deixarmos Santa Rosa, para descer o rio Abunã, Plácido de Castro veio se despedir e desejar boa viagem ao nosso grupo. Como sempre o Coronel estava acompanhado de uma matilha de cachorros, de várias raças, os quais tinham o hábito de sentar e se coçar a cada minuto. Na floresta os cachorros se coçam o tempo todo - passam a vida se coçando. É de admirar que seu couro perca o pêlo somente em alguns lugares, ao invés de sair a pele inteira de seu corpo.

Foi a última vez que eu vi o Coronel Plácido de Castro, pois logo depois ele foi morto a tiros, por assassinos desconhecidos, enquanto viajava pelo varadouro. Sua morte foi uma grande perda para a região brasileira produtora de borracha, pois ele era um homem brilhante.

O Coronel Plácido de Castro, que teve um importante papel no lado brasileiro contra a Bolívia, nas confusões de 1903 no Acre, contou-me que no começo os seus homens vestiam “khaki”, mas as mortes eram tantas que ele mudou o uniforme para verde. Essa tonalidade provou ser menos conspícua na floresta e as perdas humanas foram reduzidas.

Na opinião de Plácido de Castro foram os maus governantes que precipitaram a crise entre o Brasil e a Bolívia. De sua próprias conquistas o Coronel era modestamente reticente mas seu renome havia ultrapassado as fronteiras do Acre.”
 
A divulgação dessas passagens, pouco conhecidas, poderá servir para os estudiosos da história, antropologia, arqueologia, geografia e outras disciplinas que tratam de variados aspectos importantes para a cultura do Acre.

alceuranzi@hotmail.com 
Fonte: Fawcett, P.H. 2001. Exploration Fawcett, Phoenix Press, London

 
 
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Rio Branco-AC, 8 de outubro de 2006