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| O outro lado do centro de Rio Branco
Um beco e o Mercado dos Colonos lembram um Acre sem esperança |
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O Beco Estado do Acre não tem saída. É pequeno. Localizado no coração de Rio Branco, tem pouco mais de trinta metros e nove imóveis construídos em madeira. A maioria está com as portas fechadas e quase caindo. A situação, triste e melancólica. Assemelha-se muito à do Estado de há alguns anos. Falta esperança. Sobram problemas a ser resolvidos. Afixada num poste de rede elétrica, a placa indica o endereço. Está ao lado de um boteco de quatro metros quadrados. O local não tem ventilação. Foi construído de forma improvisada. Nele cabem apenas um velho freezer horizontal e um fogão de quatro bocas, onde ficam duas panelas. É ali que a aposentada Iraci Angélica Gomes, 60, prepara e vende almoço a três reais o prato. Os fregueses são trabalhadores braçais ou bêbados que passam o dia na região. Ela também vendia cachaça, mas parou porque a bebida lhe trazia mais problemas do que lucro. Iraci não tem a noção de quanto fatura por mês. Sabe apenas que é pouco. Somado aos R$ 350 pagos pela Previdência Social, “dá para comer”. O boteco de Iraci é um dos vários que estão estabelecidos no entorno do Beco Estado do Acre. Nesses locais se vende de tudo. Carne sem a menor condição de higiene, roupas, frutas, cigarro e balas são alguns dos produtos comercializados. A paulista Teresa de Jesus é proprietária da última casa do Beco. É uma construção de madeira com dois pisos. Foi erguida com a autorização do administrador, tentando evitar que o local continuasse sendo ocupado por viciados em drogas. Como centenas de sulistas, Teresa veio para o Acre em 1976, atraída pela propaganda oficial do governo Francisco Wanderley Dantas, que vendeu o Acre como “um Nordeste sem seca e um Sul sem geada”. Foi morar na região de Xapuri, próximo à Fazenda Paraná, de propriedade de Darli Alves, o acusado de mandar matar o líder ecologista Chico Mendes, em dezembro de 1988. “Nunca tivemos problema com ele. Inclusive compramos a mesma área de terra que ele. Ganhamos na Justiça o direito de ficar com a posse. Ele era um bom vizinho”, diz. Igual a dezenas de pessoas que trabalham diariamente no local, Teresa espera por dias melhores. Afirma que há mais de 15 anos houve promessa dos governantes de que a situação irá mudar para melhor. Mas os anos passam sem que nada de concreto aconteça. No Beco Estado do Acre foi erguido, em 1977, pelo governador Geraldo Gurgel de Mesquita, o Mercado dos Colonos. Era nele que eram realizados os embarques e os desembarques dos produtos. O local não tem mais a movimentação intensa do passado. Mas continua gerando renda para muitas pessoas. É o caso da própria Teresa de Jesus. Ela e a família trabalham num dos negócios mais rentáveis do local: a venda de salgados a 40 centavos. Gera 16 empregos diretos. O preço popular proporciona um faturamento suficiente para pagar os funcionários e sustentar toda a família. Outro negócio rentável da família brota do chão. É água de um poço artesiano construído no fim do beco. Sua produção é suficiente para abastecer todos os comerciantes estabelecidos na Praça dos Catraieiros. Rende à proprietária R$ 15 mil por mês. Mercado – O Beco nasceu em função da construção do Mercado dos Colonos. A vida de um está intrinsecamente ligada à do outro. Nasceram quando Geraldo Mesquita assumiu e mudou o foco de desenvolvimento defendido pelo seu antecessor. Pois freio à “paulistização” do Acre e valorizou a produção agrícola local. Para fomentar a política, criou órgãos importantes como a Colonacre, a Emater e a Cageacre. Os sucessores de Mesquita não deram prosseguimento ao seu trabalho. Aos pouco, os órgãos foram tendo suas funções esvaziadas. Hoje, o mercado morre aos poucos. O Beco, também. Ambos não têm vida, só problemas. Os comerciantes que ainda resistem esperam que seja feita uma reforma nos moldes da realizada na Praça da Bandeira, como foi prometida pelos governantes. “A esperança é a última que morre. A minha não morreu porque sou brasileira e não desisto nunca”, ironiza a comerciante mineira Laurinete Lopes, nora de Teresa de Jesus. Outro que não perdeu a esperança é o administrador do mercado, Ricardo Melgar, 38. Melgar lembrar que aquele é o único mercado do Acre administrado pelo governo do Estado. Segundo ele, o atual governo fez uma arrumação no local, mas ainda falta muito a ser feito. “Espero que essa reforma prometida venha logo. Estou aqui desde 1991 esperando por isso. Disseram que logo que terminassem a obra no Mercado Velho iriam começar aqui”, comenta. Enquanto espera pela revitalização, Melgar vai tocando a administração como pode. Cobra mensalmente R$ 15 dos comerciantes. O faturamento mensal é de R 250, insuficiente para realizar qualquer melhoria. “O pior é que tem muita gente que não paga.” “Eu chorei pelo meu trabalho” Os pequenos olhos do aposentado José Francisco da Costa, 75, brilham quando fala da sua história dentro do Mercado dos Colonos. Ele mora no local há mais de 30 anos. Vive num pequeno quarto que mal comporta sua cama, mas diz que é feliz. Vindo de um seringal de Sena Madureira, José Francisco começou cuidando dos banheiros no mercado. Depois, trabalhou na varrição, passou para vigia, até chegar ao momento mais difícil da sua vida: a aposentadoria. “Não queria me aposentar. Chorei pelo meu emprego”, revela. Separado da esposa, que preferiu fugir com outro, José Francisco nunca mais casou. Seu casamento parece ter se concretizado com o local onde conheceu a glória e a derrocada. Não consegue se desvencilhar disso. Até começou a construir uma casa no Belo Jardim, mas não terminou. Prefere o calor do quartinho dentro do mercado. Aos 75 anos, ele prepara diariamente refrescos em sacos para vender pelo centro da cidade. Para preparar o produto, empurra um carrinho durante três horas na Via Chico Mendes para comprar água mineral. São cinco galões de 20 litros. Para vender os sacolés, José Francisco capricha no visual. Põe a melhor roupa, combinando com uma velha gravata, e sai faceiro gritando: “Olha o refresco!”. “Sempre gostei de andar arrumadinho. Por isso, ponho essa gravata”, diz. Há um ano, começou a sair da escuridão do analfabetismo, na qual esteve a maior parte da sua vida. É um dos milhares de alunos do Projeto Poronga, realizado por meio da parceria do governo do Estado com a Fundação Roberto Marinho. Já consegue ler algumas palavras. “Comecei a aprender a ler no ano passado. Estou fazendo isso porque sempre gostei de estudar, mas não tive oportunidade. Felizmente, essa oportunidade chegou.” Pensões tomam conta do mercado Feijão e arroz dentro do Mercado dos Colonos só podem ser vistos nos pratos das dezenas de pessoas que, diariamente, vão almoçar nas várias pensões que se estabeleceram onde no passado eram boxes para venda dos produtos da cesta básica. Poucas são as pessoas que ainda vendem verdura, carne ou farinha. Não dá lucro permanecer nessa atividade. As pensões são simples. A comida, também. É vendida a preços que variam de R$ 3 a R$ 5. É preparada por mãos como a de Hélia Maria, 46, que fechou um comércio no fim da Estrada da Sobral para se estabelecer nas dependências do mercado. “Não foi difícil conseguir o ponto. Afinal, quando chegamos aqui, estava tudo abandonado”, revela. Hélia não tem noção de quantas refeições serve por dia. Sabe apenas que o dinheiro apurado é suficiente para sustentar a família de quatro pessoas, “porque o marido não tem mais idade para trabalhar de carteira assinada”. No horário de meio-dia, o mercado fica mais movimentado. Os fregueses são empregados do comércio e funcionários públicos que encontram ali uma alimentação de acordo com suas condições financeiras. “A comida normal sai a três reais. Mas pratos diferentes como a galinha caipira custam cinco reais”, explica Hélia. Farinha – Um dos poucos comerciantes que continua com atividade diferente da praticada pelas proprietárias de pensões é Orlando Mendonça. Vinte e quatro dos seus 66 anos de vida ele passou no mercado. Conheceu o apogeu e agora convive com derrocada de um dos principais pontos comerciais de Rio Branco. Em 1982, para se estabelecer no local, vendeu uma colônia. Seus filhos precisavam vir para a cidade estudar. Dos quatro, somente um chegou à universidade. Com saudade, ele lembra que o movimento era intenso no local nas décadas de 80 e 90, mas tudo começou a mudar quando foram inaugurados os grandes supermercados. “As pessoas dos bairros vinham até aqui comprar. Com os supermercados, ninguém vem mais. Não dá para competir com o poderio deles. O comércio pequeno não tem vez diante dos grandes”, resigna-se. Orlando vende farinha proveniente de Cruzeiro do Sul e de municípios vizinhos a Rio Branco. Não dá para faturar grande coisa. Mas, num mês considerado bom, é possível ganhar um salário mínimo. Dinheiro esse que é somado aos R$ 350 pagos pelo INSS referente à sua aposentadoria. Reconhecendo as dificuldades, Orlando Mendonça acredita que é possível melhorar a situação do mercado com a realização de obras de revitalização do espaço. “É preciso mudar a frente do mercado. Também seria importante construir um estacionamento. Hoje, quem vê essa entrada tem até medo de entrar.” Fumo de rolo - O fumo vem do rio Iaco. É produzido pelo cunhado de Antonio Bezerra da Costa, 74. Cinco móis de 15 quilos saem para ele por R$ 270. Há vinte anos, Antonio sobrevive assim: vendendo fumo. Houve uma época que, desencantado com a situação de penúria de mercado, Antonio foi embora para uma colônia no quilômetro 47 da Estrada Transacreana. Agüentou seis anos. Voltou para a cidade por apresentar problemas de saúde. Para fazer a mudança, vendeu a propriedade rural por R$ 40 mil. Recebeu R$ 20 mil numa casa, comprou um carro para o filho “e o resto foi se acabando aos poucos”. Até hoje tem dinheiro para receber. Sem ocupação, Antonio voltou ao antigo ponto. Soldado da borracha, recebe dois salários mínimos do INSS. Complementa a renda vendendo o fumo de rolo. Tem época que não ganha nem R$ 10 por dia. “Não dá é para ficar em casa parado sem fazer nada”, diz. Sem grandes esperanças, Antonio espera ser indenizado quando o mercado for reformado. Alega que não tem mais saúde para trabalhar. Cansado de labutar, enxerga com luz no fim do túnel do beco a intervenção do Estado. Isso é o que todos esperam. Mercado perdeu sua finalidade O Mercado dos Colonos foi criado com a finalidade de atender a pequenos produtores com a venda direta da produção agrícola aos consumidores finais. Os produtores procuravam a gerência da unidade construída pela Cageacre, onde locavam as quadras - um espaço de três metros quadrados - dispostos no chão do armazém, fazendo a comercialização dos produtos. Era cobrada dos produtores uma taxa de manutenção das instalações. Com o passar do tempo, o mercado foi se descaracterizando. A administração da unidade foi aos poucos perdendo o controle dos usuários, visto que os produtores, para não retornarem com as sobras das vendas, passaram a locar as quadras de forma permanente para deixar seus produtos em segurança no local, criando assim um sistema de posse efetiva das quadras. A partir disso, o mercado, que era para atender indistintamente a todos os produtores, passou a ter “proprietários” das quadras. Para legitimar esse processo, no governo Romildo Magalhães foi adotado o sistema de concessão dos espaços mediante o pagamento de taxa de locação. Também foram construídos boxes para açougues e pensões e instaladas bancas nos locais das antigas quadras. O mercado passou a ser um ponto de comércio normal, com os atravessadores dominando, em contradição ao objetivo para o qual o fora criado. Agravando a situação, as imediações do mercado foram invadidas, ou, em muitos casos, concedidas pela prefeitura nos anos 80. Criando, inclusive, estruturas de banheiros públicos no local, tornando-o cada vez mais inadequado para a comercialização de produtos agrícolas. Um exemplo mais claro do descaso foi a construção de boxes na calçada em frente ao mercado, aglomerando-os às dezenas de bancas e botecos diversos. A partir de 1999, passou-se a discutir com os locatários do mercado soluções para a situação. O descompasso político entre governo do Estado e prefeitura não permitiu que fosse feito melhorias efetivas. Não adiantaria reformar o mercado em si se o seu entorno e até suas calçadas estavam invadidas cujas concessões eram de responsabilidade da prefeitura, que nunca mostrou interesse em resolver a situação. No ano passado, por meio de parceria governo e prefeitura, foi retomada a discussão do Mercado dos Colonos. A partir daí fez-se o recadastramento dos locatários, num total de 28, e foi realizada uma reforma emergencial - reparos do piso, implantação do sistema de aeração e redimensionamento dos espaços internos -, tendo sido remanejados alguns comerciantes para outros espaços públicos. Esse processo desencadeou a elaboração de um projeto de revitalização do mercado e seu entorno, hoje em fase de conclusão, e captação de recursos para a sua execução. |
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