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Invenções premiadas

Tecnologias desenvolvidas pela Funtac recebem reconhecimentos e prêmio pela inovação

Juarcy Xangai
César Dotto, presidente da Funtac: objetivo é transformar as invenções em produtos de consumo


Juracy Xangai

Um fogão elétrico que gera energia elétrica, um jogo de espelhos que multiplica a capacidade iluminação das lâmpadas e a produção comunitária de sabões e sabonetes pelas mulheres do bairro da Sibéria, em Xapuri, garantiram três prêmios à Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac) no concurso promovido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Agência Brasileira de Inovação.

O prêmio Finep 2006 é composto por cinco categorias que premiam as iniciativas inovadoras nas áreas da pequena empresa, inovação social, produto, instituição de ciência e tecnologia e processo. O Acre participou pela primeira vez dessa disputa apresentando seis projetos, dos quais três foram premiados entre as 61 apresentadas por 14 instituições.

Foram apresentados ao Prêmio Finep 2006 os projetos do fogão microgerador de energia, o xampu esperança, a luz espelhada, a Saboaria Xapuri, o sabonete contra escabiose (sarna) feito à base do óleo de andiroba de rama e o xampu contra pediculose (piolho) feito à base de extrato da quina-quina.

O fogão gerador de energia recebeu medalha de ouro como vencedor da categoria inovação social, já que serve aos propósitos do programa Luz para Todos. Na categoria processo, a luz espelhada recebeu medalha de bronze, o mesmo aconteceu com a Saboaria da Associação dos Moradores do Bairro da Sibéria, ambos no terceiro lugar.

Somente os primeiros colocados das cinco categorias estarão participando do julgamento nacional que acontecerá nos dias 29 e 30 de novembro, em Brasília.

O Acre estará concorrendo com o microgerador de energia, um fogão que usando o sistema de alto vapor gera energia elétrica suficiente para alimentar uma residência. O fogão foi desenvolvido a partir de um projeto do empresário paulista Ronaldo Sato.

Comemorando as conquistas, o presidente da Funtac, César Dotto esclareceu: “Além da realização das pesquisas e o desenvolvimento de produtos, nosso maior objetivo hoje está em transformar essas invenções em produtos de consumo que gerem emprego e renda para a população do Acre. Para isso, cada projeto tem um empresário envolvido nele para dar praticidade à sua realização”.

Idéia luminosa

No caso da Luz Espelhada é seu próprio idealizador, o empresário, Alceste Arlindo de Castro, quem está fabricando e instalando as luminárias que reduzem em até 80% o consumo de energia elétrica. Recebeu prêmio bronze na categoria produto.

“A idéia de utilizar um jogo de espelhos que faz multiplicar a força de uma pequena lâmpada foi criada pelo empresário Alceste Castro. Nós, da Funtac, demos o apoio técnico e científico para que esse produto fosse colocado no mercado e vem dando ótimos resultados”, garante Antônio Luiz Jarude, gerente de desenvolvimento institucional da Funtac, que trabalha a interação entre a pesquisa desenvolvida pelas instituições e a iniciativa privada.

A Funtac constatou que uma lâmpada fria (fluorescente) doméstica de 45 watts substitui tranqüilamente as de 225 watts à base de vapor de mercúrio ou de sódio, normalmente utilizadas na iluminação das ruas. “A idéia parte do princípio de que precisamos de luz, não de calor como geram as outras lâmpadas. Um exemplo prático do que isso significa em termos de economia de energia é o de que o Posto Shell Quinari, que antes consumia 8.100 watts de energia para iluminar seu pátio durante o mês e hoje consome apenas 810 watts, ou seja, está economizando 90% da energia que consumia antes para fazer a mesma coisa”.

Uma lâmpada fria de 40 watts tem vida média estimada em 8.000 horas a um baixo custo quando uma lâmpada de sódio de 250 a 300 watts utilizada em iluminação pública gasta muito mais energia, é mais cara e tem vida útil de apenas 1.500 horas.

Fogão chocante

A idéia do fogão gerador de energia foi apresentada pelo empresário paulista, Ronaldo Sato ao senador Sibá Machado que vem sendo um dos principais estimuladores da utilização de energias alternativas, especialmente o biodiesel no país. Ele apresentou o projeto à Funtac e através de uma emenda parlamentar destinou dinheiro para que o projeto fosse desenvolvido no Acre.

“A proposta do fogão é revolucionária pela sua simplicidade e eficiência, continuamos as pesquisas, mas já estamos produzindo 30 unidades, das quais dois ficarão na Funtac e outros 28 serão distribuídos a famílias que vivem isoladas. O uso delas será acompanhado por nossos técnicos para anotar as observações das donas de casa e fazer modificações necessárias para atender suas exigências. Já temos dois empresários muito interessados em fabricar esse fogão aqui no Acre”, explica Dotto orgulhosos com o prêmio ouro na mão.

O fogão consome metade da lenha ou biomassa necessária para alimentar um fogão comum. Um sistema especial de tanques e tubos faz com que a temperatura da água atinja 800 graus fazendo movimentar o gerador de energia capaz de alimentar cinco lâmpadas e uma televisão. Ao mesmo tempo aquece a chapa sobre a qual a dona de casa faz o almoço. Outra vantagem é que o fogão não solta fumaça, assim não produz o alcatrão que costuma estimular a formação de câncer nas cozinheiras.

A idéia é usá-lo para gerar energia em comunidades isoladas com um custo três vezes menor que o atual quando se usam placas de energia solar para fazer a mesma coisa.

Sabão social

A falta de empregos levou as mulheres da Associação dos Moradores do Bairro da Sibéria, em Xapuri, a buscar formas alternativas de gerar renda a partir da produção do sabão tradicional feito de sebo de gado ou restos de gordura da cozinha. Lideradas por Carmita Pereira de Souza, elas logo descobriram que além do sabão poderiam produzir e vender detergente, desinfetante, pasta para polir panelas, sabão em pó e ainda sabonetes e outros produtos de beleza a base de óleos e ervas da floresta.
Foi assim que surgiu a Saboaria Xapuri que com apoio tecnológico da Funtac e empresarial do Sebrae está ampliando suas instalações e colocando seus produtos no mercado atingindo finalmente seu objetivo de gerar ocupação e renda para aquela comunidade que é uma das mais carentes de Xapuri.

O projeto ganhou a medalha de bronze na categoria Inovação Social da Finep e a Funtac participa do projeto trabalhando a melhoria da qualidade e apresentação do produto, além de testar a pureza dos óleos regionais de copaíba, andiroba e outros utilizados na produção dos sabonetes. “Isto é feito para garantir a segurança dos consumidores que forem usar estes produtos”.

PALAVRA DOS INVENTORES

Satélite russo inspirou lâmpada

Numa viagem à Belém a esposa Maria trouxe para Alceste Castro uma revista com matéria sobre um cientista russo que pretendia mandar para o espaço um satélite com um jogo de espelhos para aumentar a luminosidades sobre as férteis terras da Sibéria, que ficam boa parte do ano às escuras, assim conseguiria aumentar a produção de alimentos.

“A idéia do russo foi abortada com a crise do sistema soviético, mas eu comecei a fazer minhas experiências instalando espelhos em caixas de luminária comercial, então media a luminosidade e acabei por conseguir multiplicar em seis vezes a claridade da luz de uma lâmpada. Meu objetivo é dar o melhor aproveitamento possível à energia com economia de gastos para o usuário e, consegui”, afirma ele.

Mas segundo Alceste, suas boa idéias, porque esta não é a primeira, só puderam ganhar cunho técnico e científico para serem patenteadas graças ao apoio recebido da Fundação de Tecnologia do Acre. “Tive boas idéias e desenvolvi projetos, mas quem dá a garantia científica exigida para que se considere uma nova invenção, foi a Funtac, foi ela quem aperfeiçoou os projetos e desenvolveu cada um dos protótipos. Sem ela isto tudo não passaria de boas idéias”.

Hoje as luminárias espelhadas fabricadas pelo empresário Alceste Castro clareiam com economia os pátio do Posto Shell e de uma rua do Quinari onde recebeu interesse e apoio da prefeitura municipal. “Lá as lâmpadas frias de 35 watts estão oferecendo uma claridade maior que as lâmpadas quentes de vapor de mercúrio de 240 watts. Além do preço da luminária espelhada ser muito menor, a vida útil da lâmpada fria é seis vezes maior e gasta apenas 20% da energia consumida pela outra. Ou seja, as prefeituras poderiam iluminar cinco vezes mais ruas do que clareiam agora, gastando o mesmo dinheiro com o consumo de energia e gastando menos com a troca de lâmpadas”.

Necessidade fez a criatividade

Carmita Pereira de Souza, 64 anos, mãe de seis filhos. lembra que foi a falta de empregos que levou um grupo de mulheres ligadas à Associação dos Moradores do bairro da Sibéria, em Xapuri, a começar a produzir sabões tradicionais de sebo, restos de óleo de fritura para uso próprio além de vender o excedente.

“A gente fazia sabão todas as quartas-feiras, éramos 24 mulheres, então nos dividimos em grupos com cada uma trabalhando uma semana. Fizemos festas e bingos e com a ajuda da comunidade conseguimos montar um chapéu de palha para não ter de trabalhar sob o sol e a chuva”, Carmita merendeira da educação municipal, Maria Luceni e irmã Ignez sempre atuaram como voluntárias do projeto da saboaria.

“Das que começaram restam poucas porque a maioria foi buscar meio de vida em Rio Branco, Porto Velho e outras cidades, mas nós que resistimos aprendemos a preparar sabonetes com óleo de andiroba, copaíba ervas como aroeira, capim santo, melão de São Caetano e outros produtos regionais. Chegamos a produzir uma média de 300 a 400 quilos de sabão por mês. Só não produzimos mais porque não temos uma colocação certa para o produto, mas em toda feira ou evento que a gente participa o sucesso é certo”.

 
 
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Rio Branco-AC, 8 de outubro de 2006
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