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Sandra Starling * |
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John Milton, o demônio sob a pele de um titular de importante escritório jurídico de Nova York, interpretado magistralmente por Al Pacino em “O Advogado do Diabo”, fecha o filme com uma declaração primorosa: “A vaidade é definitivamente o meu pecado favorito”. Se há um pecado que assalta o mundo da política, de maneira implacável e universal, esse pecado é a vaidade. Talvez a razão disso resida naquilo que Hannah Arendt, a partir das contribuições de Kant, estabelecia como o marco distintivo entre a eternidade e a imortalidade. Quem se move pela fé, e não pela política, busca a eternidade da alma; quem se movimenta, antes de tudo, pelas veredas da política, visa a imortalidade histórica de suas palavras e seus feitos. Por conta disso, acho que o Livro do Eclesiastes deveria ser a leitura de cabeceira para os políticos. Seu mote - “tudo é vaidade!” - vale para os que se movem por um desejo imoderado de admiração e homenagem, na esperança de não serem esquecidos pelos homens após a morte. Até mesmo quando procuram aparentar humildade. Faço essas considerações após ter lido, na edição nº 369 de “CartaCapital”, uma entrevista com o Senador José Sarney. Perguntado sobre o mausoléu, no Convento das Mercês, em São Luís (MA), que lhe é destinado como última morada, respondeu: “seria um atrativo turístico. No futuro, até ponto de peregrinação. Tenho culpa de ter sido presidente da República?”. Sinceramente, creio que os que pensam na eternidade, desviando-se da política, têm, paradoxalmente, mais chances de se tornarem imortais e lembrados pelas futuras gerações com o merecido respeito e veneração. Há pouco mais de um mês, morreu em Detroit (EUA), aos 92 anos, uma costureira negra que, mesmo não tendo exercido qualquer cargo público ao longo de sua duradoura vida, contribuiu como ninguém, no século XX, para que todos fossem tratados como iguais perante a lei. Pessoa alguma encarnou, como ela, no século passado, o ideal republicano. Falo aqui de Rosa Parks, uma mulher que, ao se recusar a ceder o lugar em um ônibus para um homem branco, foi presa por desrespeitar a lei do Estado do Alabama. O movimento pela sua libertação detonou toda a luta, desde meados dos anos 50, em prol dos direitos civis dos negros norte-americanos. Foi naquele episódio que começou a despontar a figura de um pastor que dispensa maiores comentários: Martin Luther King. Aos funerais dessa mulher compareceram, entre milhares, o Presidente dos EUA, George W. Bush e o ex-Presidente Bill Clinton. Na ocasião, a Secretária de Estado, Condoleezza Rice, declarou: “o seu solitário ato de coragem fez eclodir uma revolução. Eu posso dizer, honestamente, que, sem a Senhora Parks, eu não estaria aqui hoje como Secretária de Estado”. Rosa Parks era completamente despojada. Jamais se moveu por ambição da fama. Rejeitou a vaidade dos que se gabam de reconhecimento. Mas há também, entre os grandes nomes da Política, os que, despindo-se da vaidade, sabem precisar qual deva ser o seu legado para a posteridade. Thomas Jefferson, eleito duas vezes para a Presidência dos EUA, determinou que, em sua lápide tumular, constasse, como epitáfio, os seguintes dizeres: “autor da Declaração de Independência; autor do Estatuto da Liberdade Religiosa da Virgínia; fundador da Universidade da Virgínia”. Destacou seus esforços em favor da liberdade e da educação, omitindo, propositadamente, o fato de ter sido, por oito anos, o supremo magistrado da grande nação da América do Norte. Sábio, compreendeu o que nos ensina o Eclesiastes: “e olhei para todas as obras que fizeram minhas mãos e eis que tudo era vaidade e esforço para alcançar o vento e não havia nada de vantagem debaixo do sol”. * Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC) |
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