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Hepatite no Acre e Amazônia tem características próprias Encontro realizado em Rio Branco serviu para aprofundar conhecimentos sobre a doença |
![]() Vacinação é uma das formas de evitar a contaminação pela hepatite viral |
A Fundação Hospital Estadual do Acre (Fundhacre) realizou de 4 a 6 deste mês o I Encontro de Atualização dos Centros de Referência Amazônicos para Hepatite Viral. Segundo o secretário adjunto de atenção à Saúde, da Sesacre, médico Thor Dantas, o objetivo foi aprofundar os conhecimentos sobre hepatite viral e poder traçar novos planos e metas de trabalho, de pesquisas visando responder perguntas que a comunidade científica ainda tem com relação à doença. O encontro reuniu representantes de centros de referência de toda a Amazônia, cinco pesquisadores brasileiros e dois pesquisadores estrangeiros, num total de 30 participantes e foi coordenado pelo professor doutor Raymundo Paraná, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), um dos maiores pesquisadores de hepatite no Brasil. Todos os centros fazem pesquisa em regime de colaboração sob a liderança de Paraná e o Acre faz parte dessa equipe de pesquisadores. Segundo Thor, as hepatites virais são muito importantes na Amazônia e, no Acre, são particularmente importantes as hepatites virais B e Delta, e também a hepatite C. “No caso da hepatite Delta, é uma hepatite típica da parte mais ocidental da Amazônia. Há muitas dúvidas sobre o entendimento dessa doença, sua ocorrência sua epidemiologia, sobre seu tratamento ideal”. O médico patologista, Zilton Andrade, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e professor aposentado da Ufba, falou no encontro sobre a ‘febre negra de Lábrea’ que ele explica como sendo “uma forma de hepatite extremamente grave associada às hepatites B e Delta”. Segundo explanou, o que faz a gravidade dessa doença são vários fatores que ainda não estão bem estudados: a idade, porque é observada em indivíduos jovens, a virulência do vírus (não está estudado, mas, provavelmente, é um fator). “De qualquer maneira, a causa mesmo é viral. Essa associação está muito suspeita. O material que estudei foi colhido em Lábrea, muitos anos atrás. Não consta que esteja havendo outros surtos semelhantes àquele de Lábrea. Um colega de Brasília foi residir em Lábrea para estudar o caso e acabou presenciando um surto em que sete crianças morreram num espaço de um ou dois meses. E foi um quadro dramático, porque essas crianças ficavam agressivas e agitadas e acabavam morrendo em coma. Tinham, além disso, a pele amarelada pela icterícia e, na fase final, apresentavam vômito enegrecido, vômito sanguinolento.” Zilton Andrade gostou do resultado do encontro, pois entendeu que a situação dessas viroses hepatotrópicas aqui dessa região é bem diferente do que a gente sabe do resto do mundo e de outras partes do Brasil. “Isso merece não apenas ser estudado – disse -, mas devem ser tomadas medidas concretas para proteger a população. Aqui, a incidência de hepatite é muito grande e tem certas peculiaridades, que precisam ser estudadas. Essa associação de vírus B e Delta que na Europa e Estados Unidos é descrita de uma maneira aqui ocorre de uma maneira diferente. Há casos de evolução lenta o que não foi descrito por lá e outros de evolução extremamente fulminante. Por que essa doença está se expandindo, transmitida de uma pessoa a outra são aspectos que estão sendo estudados e esse encontro mostrou isso. E já temos os primeiros pontos em que poderemos atuar para fazer a profilaxia. Em um dos estudos feitos aqui, uma colega verificou que o que havia de comum em famílias que tinham muitos casos de hepatite é que compartilhavam o uso da escova de dente”. Pesquisando a hepatite O professor-doutor Raymundo Paraná conta que em 1999 começou um trabalho convidado pelo senador Tião Viana. A Ufba veio ao Acre e, juntamente com os colegas daqui, executou diversas ações, entre elas a formação de ambulatórios especializados, a própria Faculdade de Medicina, o curso de pós-graduação e daí em diante ficou sendo executado um programa de pesquisa e de assistência aos pacientes. Explica Paraná que as hepatites virais na Amazônia diferem completamente das hepatites virais no restante do Brasil e no resto do mundo. Por isso, ele vê a necessidade de gerar conhecimentos próprios para dar instrumentos aos gestores de saúde para que eles possam oferecer o melhor para minimizar o padecimento dos milhares de indivíduos que estão infectados pelo vírus, na Amazônia. Par ele, ao longo desses últimos anos muito foi feito e hoje o atendimento das hepatites virais na Amazônia, especificamente no Acre, melhorou muito. “Embora ainda tenhamos muito trabalho pela frente, pode se dizer que no Acre se faz uma medicina bastante razoável no que se refere ao acompanhamento da hepatite viral”- disse. Segundo Paraná, esse encontro faz parte da evolução de todo o processo desenrolado nos últimos anos. “Não é a primeira vez que trazemos aqui colegas estrangeiros, não só para mostrar que nossa realidade é uma realidade diferente da que acontece lá fora, mas também para entusiasmá-los nessa luta e para estabelecer conexões para que os colegas do Acre possam explorar outras fronteiras na sua formação científica e assistencial. Possam fazer seu mestrado, doutorado, ou mesmo sua especialização fora. O segundo objetivo é trazer as últimas informações que estão circulando nos meios científicos mais elevados do mundo. Aqui estamos com um colega argentino que tem uma vasta experiência em hepatite B, e uma pesquisadora de renome internacional, da Universidade da Califórnia, além de vários colegas do Brasil. Esse evento está fechando o ano trazendo um apanhado geral do que nós fizemos em Rondônia, no Acre ao longo desse tempo, o que nós geramos de conhecimento, o que pudemos realizar para minorar o problema das hepatites virais na Amazônia. E olha que foi bastante coisa, e os colegas estrangeiros estão impressionados com o volume de informações que nós conseguimos extrair a partir dos estudos realizados no período de 2000 a 2007”. Socializar o conhecimento O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e doutor em patologia humana Mitermayer Galvão dos Reis considerou o encontro “uma forma de socializar o conhecimento”, de tirar as atividades que sempre foram centradas no Sul e Sudeste do país. Segundo ele, é uma forma de dar oportunidade aos profissionais e estudantes daqui do Estado e por outro lado há o aprendizado por parte desses pesquisadores de fora, sejam brasileiros ou estrangeiros, que vão ver uma realidade diferente da sua. Ele gostou da forma como foi organizado o encontro com as palestras, os tutoriais, a discussão dos casos com médicos importantes discutindo os próprios casos do Acre. Para ele, uma dupla vantagem discutindo os casos da comunidade e ao mesmo tempo formando recursos humanos, dando oportunidade aos jovens daqui de interagir com esses professores. Também os pesquisadores aprendem por ser essa uma região diferente. “Aqui é comum encontrar pacientes que têm hepatite B com hepatite D. Isso não acontece no Sul do país, nem nos EUA. Então é a oportunidade de os pesquisadores entenderem a situação daqui. Uma coisa é ler e ouvir; outra é ler, ouvir e ver. E estamos tendo essa oportunidade aqui e agora”, disse. |
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