| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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Quebrando o galho Vou contar dois casos. Ouvi diretamente dos protagonistas, em boa parte. Depois de ouvir a versão oficial, ouvi outras partes de amigos comuns, sempre interessados em revelar a verdade inocente, em preservar a mais nova versão original. São casos de quase amor, em que um homem procura o outro para reclamar sobre a mulher que perdeu para este. Em ambos, o personagem principal tinha certeza de estar quebrando o galho do colega, digamos, do sócio. Contando estórias, reproduzo o que ouvi, com a veracidade possível. Mas adianto que as duas são verdades quase absolutas. No primeiro caso, vou apelidar o protagonista de Titio. Ele conheceu uma senhora no bairro em que passou a residir e logo se engraçou dela, mesmo informado que a distinta tinha marido e filhos. Conversa vai, conversa vem, começaram a namorar. Nos olhos dançarinos da morena, o Titio notou, sem muito esforço, que havia um pedido de providências. Mais adiante, ela largou o marido e foi morar com o Titio, no mesmo bairro, perto da casa do antigo esposo, que por ali sempre passava, olhando, espiando, conferindo. A desculpa dele era ver se os meninos estavam bem. Quando se cruzavam pelas ruas do bairro, o Titio e o outro trocavam olhares desafiantes, até que um dia discutiram, parece que até brigaram, houve um ou outro riscado de faca. E o rapaz acusou o Titio de o chamar de “corno”. O caso foi parar na delegacia, sendo marcada data para audiência com a autoridade policial, mas o doutor delegado não conseguiu resolver o caso. Meses depois, conforme fiquei sabendo pelo Titio e por amigos nossos, em outra audiência, foram tomados os depoimentos dos envolvidos. O rapaz, demonstrando estar ainda muito chateado, afirmou enfaticamente que o Titio, além de lhe tomar a mulher e os filhos, ainda o havia chamado de “corno”, o que ele considerou um abuso (de direitos). Em resposta franca e rápida, o Titio afirmou: “veja só, doutor, eu fui casado uns quinze anos, até que um dia, um negão levou minha mulher e meus filhos embora, lá para o Nordeste! Eu fiquei aqui, sozinho, sem reclamar de nada, deixei pra lá. Quando é agora, eu pego a patroa deste rapaz, dou amor e carinho, trago ela e os meninos para casa, trato bem e tudo mais, moro no bairro, ele até pode passar perto ... e o cara ainda vem reclamar! Será que não vê que eu tô quebrando o galho dele?”. O segundo caso envolve o Mestre Foba, personagem que já transitou em nossas páginas. O Mestre é aquele que passeou a vontade no barco do carioca (A Rainha de Búzios), prometendo compra, mas depois que o combustível acabou, deu no pé. O Mestre é conhecido conquistador, que dá o maior valor às gordinhas, mas também às magras e às mais ou menos. Nenhuma o aborrece. Dias atrás, ele paquerou uma moça que estava sentada nas proximidades, em um barzinho, e mandou um bilhetinho propondo namoro. Antes que a moça pudesse ler a proposta, um amigo de mesa informou ao Mestre que aquela moça “puxava da perna”. Rápido e sem preconceitos, ele respondeu: “mas quem te disse que eu quero a moça para correr?”. Bem, mas o caso não é este, é o seguinte. Um belo dia, o Mestre estava na oficina automotiva dele, altamente especializada em mecânica e lanternagem, durante horário de intervalo, após o almoço, quase cochilando, um olho fechado, outro não, quando lá chegou um rapaz, chamando em voz alta. O Mestre Foba limpou a vista e perguntou, em voz ainda mais alta, “o que é que tu quer?”. Então, o cara disse que tinha ido lá para saber porque o Mestre andava atrás da mulher dele, do rapaz. Com tantas do gênero em seu currículo, o Mestre precisou recorrer à boa memória para desvencilhar-se do visitante inesperado e da situação imprevista. Logo lembrou da criatura. Para não perder de tudo, com a rapidez habitual, olhando firme para o quengo do sujeito, o Mestre abriu um semblante de espanto planejado, misturado com uma irritaçãozinha bem trabalhada e respondeu: “tua mulher! Que conversa é essa, quem disse que a mulher é tua? Escute aqui, meu amigo, aquela mulher, de quem agora você pensa ser o dono, era minha, até uns quinze dias atrás. Eu fiquei com ela durante uns três meses, dei o maior valor, até gostei dela, depois liberei. Quando é agora, de uns dias pra cá, você começou um namorinho besta e já quer ser dono? Olhe, preste bem atenção, ela veio aqui passar uma tarde, foi só umazinha, só uma ‘ficada’. Como foi só aquela vez, ela continua liberada, e você devia era me agradecer, eu tô até quebrando teu galho! A mulher foi minha antes! Vai, some daqui e não volte mais, senão eu pego ela de volta!”. Dias após, pensando sobre os eventuais efeitos da prescrição em casos assim, de direito adquirido presumido, quase real, meio fatal, eu ainda não conseguia entender bem em que consistiriam os galhos quebrados pelos nossos protagonistas, ambos bem-preparados para os questionamentos dos infelizes do amor, dos sem-jeito com mulheres, dos sem resposta para tudo, sem graça. É nesse hiato que atuam nossos conquistadores. Pensei que seria perda de tempo considerar sobre a preclusão, em tais hipóteses. Ou mencionar que o direito seria apenas uma expectativa, quanto à aquisição. Seria o amor um bem durável, ou de uso comum? Melhor deixar por conta da livre interpretação, com base em princípios. É tudo questão de hermenêutica. E a jurisprudência majoritária afigura-se francamente favorável ao entendimento dos nossos personagens. Os desamparados poderão sempre recorrer ao lamento dos amores perdidos, apelar para a saudade. É uma tal dor que, adiante dos galhos quebrados, já em caso de recurso extraordinário, tem outro nome. Segundo o Mestre, todo castigo ainda será pouco. |
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