| OPINIÃO | ||
| OPINIÃO | ||
Domingos José de Almeida Neto * |
||
Entre o céu e o inferno Acabo de assistir a mais uma cena dantesca da novela América. Tratou-se, desta feita, da chegada do Peão Tião, personagem de Murilo Benício, que se encontra entre a vida e a morte, nos umbrais do inferno. Contracenando com ele, duas das mais belas atrizes brasileiras: Taís Araújo, no papel de Nossa Senhora, e Juliana Paes, como Creuza (o nome não podia ser mais sugestivo), uma falsa convertida ao Senhor - e isso sem falar na figura do Touro Bandido, que naquela ocasião se apresentava com três cabeças (lembrando algumas das figuras descritas no Apocalipse) e concebia a personagem do guardião (do porteiro) da Caldeira de Pedro Botelho. O mais interessante da cena, entretanto, foi o fato de “Nossa Senhora” haver dito a Tião que a sua chegada ali se devia principalmente ao pecado da carne a que sempre cedia, sendo Creuza, coitada, era a sua representação em espírito – em espírito? Mas ela não havia morrido. Bom deixa pra lá - desse pecado (e que pecado!). Ou seja, mais uma vez a culpa do pecado do homem não seria atribuída a ele mesmo, mas à mulher. Fiquei analisando detidamente a cena e lembrei-me que minha esposa me havia dito algo do tipo: “Evangélicos estão questionando Glória Peres (autora da novela) em função da repercussão negativa que a personagem Creuza possa trazer as suas igrejas”. Interessante! Bastam algumas cenas de mentirinha envolvendo uma beata também de mentirinha (é obvio) para que alguns homens de Deus fiquem preocupados com a possibilidade de elas macularem o templo do Senhor. Ora, meus amados, o templo do Senhor não se abala com pouca coisa não. Aliás, coisas muito piores (escândalos mesmos) já foram divulgadas na imprensa (que não eram de mentirinha - nem a imprensa nem as coisas muito piores -, diga-se de passagem) e envolvendo, na maioria dos casos, não a figura feminina, mas de varões, sem que o Templo tenha vindo abaixo. A bem da verdade, conheço um bem interessante - e verdadeiro - que muito se assemelha com o da novela, não fossem alguns “pequenos” detalhes: Apesar de o pecador ser também do sexo masculino e um dos seus maiores pecados ser o de adultério (da carne), é ele que diz ser um servo do Senhor e não as mulheres com quem se deita; diferentemente do Tião, que quando é apanhado em adultério se humilha diante da esposa, nosso “personagem” da vida real quando descoberto em suas práticas nefastas por aquela com quem desposou aplica-lhe uma surra (o que tem acontecido com certa freqüência) e a ameaça até de morte para que esta não o delate. Ou seja, não obstante a vergonha do “chifre” que leva do bandido (não estou falando do touro, mas do marido traidor), tem a esposa que, sob castigo (como se fosse ela a pecadora), preservar a pessoa do marido e, por extensão, não macular a igreja a que servem. A propósito desse esconde-esconde, existem interesses diferenciados em cada um dos lados que com ele estão envolvidos. Vejamos: se o interesse da esposa e dos demais membros da igreja que sabem da verdadeira identidade do safado é, ao que tudo indica, preservar o marido e o beato apenas como forma de não escandalizar a instituição religiosa a que servem, o do marido e ministro do Evangelho é tão-somente resguardar o casamento (e não a esposa), a igreja e a figura do “beato” que para ela representa, como forma de garantir seu resguardo pessoal enquanto aproveitador do templo e de um bando de “cegos” que o vêem como um homem fiel, justo, honesto e, acima de tudo, abençoado Proveito inclusive - e principalmente - financeiro. O fato é que se a pessoa em comento antes do casamento vivia miseravelmente - até porque ocupava cargos insignificantes na igreja e não recebia salário pelo o seu labor -, hoje vive em grande abastança, à custa de sua brilhante sagacidade, que lhe permite tergiversar entre as coisas do céu e do inferno. Para finalizar, vou me permitir brincar um pouco de autor de novela, imaginado a seguinte cena: tribunal do júri. Na plenária, santos e profanos; no banco dos réus, de um lado, o Peão Tião e, do outro, nosso “beato” (que acabamos de transformá-lo em personagem fantasmagórica - se bem que na vida real também o é). Muito bem, o sentenciador só pode inocentar um deles. E quanto a você, quem escolheria para entregar aos braços do Príncipe das Trevas, ao coisa-ruim? o peão ou o “beato”? Vou dar algumas dicas: o “beato” é mentiroso, infiel, agressivo, enganador para com Deus, com a igreja, com os fiéis e com a esposa. O peão também é mentiroso, infiel, agressivo, enganador. Entretanto, o peão só mente para si mesmo, para Nossa Senhora Aparecida, de quem todo peão é devoto, e para a esposa quando comente o ato infiel; se agressividade há no peão, só a vimos externalizar quando fora ou levado a defender o que lhe era de legítimo direito, como o caso da venda das terras de sua família, ou quando, coletivamente, provocou a ira do Touro Bandido ao apertarem-lhe os testículos, que numa reação natural agiu prontamente - boi pra dá gosto à dona Neuta (dona do boi Bandido), não! Enganar, o peão também engana - afinal foi infiel a novela inteira -, mas pelo menos consegue ser amável, inclusive com a principal prejudicada nesse imbróglio todo. Talvez a grande desvantagem para o peão em meio aos evangélicos seja o fato de ele ser, como já mencionei, devoto de Nossa Senhora, a quem os protestantes não dão muito importância - como não dão, a bem da verdade, aos outros santos. É Pai, Filho e Espírito Santos, e pronto! Abramos os nossos olhos, irmãos, pois, contraditoriamente, parece existir mais farsa na vida real do que nas novelas e que precisa ser denunciada, venha de onde vier. * Professor da Ufac, mestre em História do Brasil |
||
|
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| ESPORTE |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
| |