OPINIÃO
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Maria Regina Canhos Vicentin *  

O silêncio dos bons

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons!” (Martin Luther King).

Já nem sei o que me deixa mais assombrada, se a canalhice dos astutos velhacos ou a passividade das pessoas de bem. As coisas vão acontecendo num ritmo frenético, ou deveria dizer, cibernético? Os crimes se avolumam, a droga grassa feito erva daninha, a impunidade é uma constante. Muitos se sentem incentivados a assumir facetas sombrias que andavam engavetadas, principalmente diante do anonimato da internet. Há aqueles que batem no peito, e se dizem bons, pois não roubam, não matam, votam, e pagam seus impostos. Mas, na calada da noite, seduzem adolescentes com imagens pornográficas e conteúdo erótico através do computador. Que lindo! Durante o dia uma pessoa honrada, na madrugada, muitas possibilidades. Será que isso é ser bom?

Ao nosso lado alguns padecem pela privação de bens materiais, entretanto, é bem mais fácil chamar-lhes vagabundos, assim justificamos nossa avareza em teimar não dividir o que acumulamos num sistema que sobrevive à custa da exploração dos mais fracos. Talvez, nossa “bondade” faça com que ajudemos no Natal, época em que quase todos têm crise de consciência e precisam se sentir reconfortados. A miséria, no entanto, não tem época. Ela acontece diariamente, pois a exploração também é diária. Será que isso é ser bom?

Muitos de nós cumprem os preceitos religiosos à risca. Todos os domingos estamos lá, “batendo o cartão”, ouvindo a Palavra, pedindo perdão pelos nossos erros e, o mais importante, graças para a nossa vida. É impressionante como conseguimos negociar com Deus. Pedimos muito mais do que damos, certos de que essa diferença vai ser abatida pela misericórdia do Criador, que sabe sermos todos imperfeitos e pecadores. Saímos da Igreja revigorados, rumo a mais uma semana de omissões: cegueira, surdez, e paralisia. Nada vemos, nada ouvimos, nada fazemos. Será que isso é ser bom?

Eu me pergunto: Quando isso vai mudar? Quando vamos deixar de ser espectadores passivos do rumo que as coisas teimam tomar? Será que esperamos a segunda vinda de Cristo? Será que não temos consciência de que Deus se serve de nossa boca, nossos braços, nossa ação para auxiliar o próximo? Quando o Pai quer ajudar a alguém, Ele conta com a nossa ajuda. Muitos milagres são feitos através de nossas mãos, mas Deus não poderá faze-los se continuarmos com os braços cruzados, sendo hipócritas ou santinhos do pau oco. Jesus nos adverte: “Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis; mas, ai do homem que os causa!” (Mt 18, 7). Parafraseando Martin Luther King, o silêncio dos bons está realmente me preocupando.

* é psicóloga e escritora. (Adquira seu mais novo livro: Superdicas para ser feliz no amor – Editora Celebris)

 
 
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Rio Branco-AC, 9 de novembro de 2007
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