OPINIÃO
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Sibá Machado *

 

Questão regional e globalização

A velocidade do pensamento de um povo tem exatamente a velocidade de seus meios de transporte e de comunicação em qualquer época de sua existência. Partindo desta constatação poderemos compreender melhor os desenvolvimentos técnico, cultural e econômico dos povos ao longo de sua história. Tais fatores repercutem nos sistemas econômicos e que por sua vez influenciam não só as sociedades, mas também a relação destas com os governos.

Grosso modo, os sistemas econômicos tiveram como essência de sua existência a expansão dos mercados e o domínio de povos, territórios e da natureza provocados pela divisão do trabalho onde o comércio separou-se da agricultura possibilitando o surgimento das cidades, que por sua vez separaram-se do campo dando origem a diferenciação de classes sociais. Assim, o capitalismo pode ser visto como fruto da divisão entre a agricultura e o comércio, a cidade e o campo, o nacional e o estrangeiro, o local e o geral, os ricos e os pobres, o trabalho braçal e o trabalho intelectual, o novo e o velho, o moderno e o atrasado.

A questão regional não está alheia a estas condicionantes. Ela é o ponto de partida para debater desigualdades regionais, desenvolvimento tecnológico, cultura das populações tradicionais e o usofruto dos bens naturais. Nestes termos, os sistemas econômicos sempre trataram com negligência os problemas regionais. Apesar de dominante, tal sistema sempre encontrou resistência das comunidades locais que começaram a pensar o desenvolvimento local a partir do social e do ambiental. A partir desta resistência, cria-se um cenário paradoxal para globalização: como compatibilizar desenvolvimento econômico, aumento da produtividade e lucros com a manutenção do modus vivendi local? É necessário reconceituarmos o que é desenvolvimento, afinal, crescimento econômico que ignora o viéis sócio-ambiental pode ser crescimento, porém, não pode ser definido no mundo moderno como desenvolvimento.

Estimulados por este debate, estamos a trabalhar o conceito de Capital Comunitário para efeitos de uma melhor compreensão do movimento cooperativista no agrário da Amazônia acreana. Para o termo “Capital”, deve-se compreender o somatório das riquezas materiais e para “Comunitário”, a visão humanitária da solidariedade entre as gentes do local e no geral, procurando extinguir a pura competição, substituindo-a pela cooperação: a economia solidária.

 O propósito da inclusão do Capital Comunitário na propriedade de parte ou no todo das cadeias produtivas, isso nos parece o novo paradigma das relações econômicas e a materialização da sustentabilidade do desenvolvimento. Devemos observar que todo e qualquer sistema de produção tem como pressuposto as trocas, e estas se organizam em cadeias produtivas de produtos/mercadorias. E mais, no sistema capitalista, toda cadeia produtiva se baseia de um lado, na socialização do trabalho, e de outro, na individualização da apropriação dos bens, das técnicas e das rendas.

De forma pálida, o que mais se aproxima desse paradigma é o cooperativismo, uma das mais conhecidas organizações econômicas coletivas no mundo, mas que ainda demonstra limitações. Esta por si só, não rompe as estruturas do sistema vigente, podendo ser tratada como um meio termo entre a competição desumana nos processos produtivos, frutos do sistema capitalista e a estatização das políticas sociais, quase sempre compensatórias e mitigatórias dos efeitos danosos da economia de mercado.

No caminho oposto, o Capital Comunitário, conceito ainda em construção, tenta romper com as limitações do cooperativismo ao inserir-se na propriedade das cadeias produtivas proporcionando aos comunitários a posse da força de trabalho, do conhecimento tecnológico, dos meios de produção, dos bens e serviços gerados e das rendas obtidas.

* Senador da República e presidente regional do PT.

 

 
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Rio Branco-AC, 9 de dezembro de 2006
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