OPINIÃO
   CRÔNICA

Stella Galvão

 

O filho da mãe

Era um moço desses bem apessoados, com 40 anos nas costas. Não namorava há uns dois anos não por falta de interessadas. É que ele tinha missão a cumprir como o filho que havia ficado na casa dos pais. O mais novo saiu para constituir família e logo depois o pai partiu desta para melhor. O mais velho assistiu a mãe chorar e lamentar-se pelo esvaziamento do ninho familiar. Então, decidiu que se deixaria sacrificar. Ficaria com a mãe até o fim dos dias, dele ou dela, não importava mais.

Moças vinham e iam, tornadas apenas parceiras utilitárias da necessidade dele dar vazão aos líquidos seminais. Ele as encontrava somente no sábado à noite, quando a mãe o liberava, contanto que ele retornasse no máximo depois da uma da manhã. Se ele tardava, ela ligava sem cessar no celular até que visse a figura alta e magra batendo a porta do apartamento que dividiam. Ninguém agüentava. Ou melhor, ele se cansava de todas e logo as despachava, sem crise alguma de consciência.

Mas, como se sabe, coração nem sempre rima com razão. Quase nunca, aliás. Quando ele a conheceu, numa noite quente de inverno, percebeu que alguma coisa estranha estava por acontecer. Não desgrudava o olho daquela também quarentona, meio agitada e falante, dada às letras. A moça deste encontro, também se encantou com o olhar fixo e firme daquele homem. Saíram do restaurante em transe duplo. Andaram muitos quarteirões até que ele não resistiu mais. Tomou-a nos braços e tascou um beijo ardente, demorado, úmido.

Ela não era fã daqueles encontros súbitos que resultam em pronta intimidade, mas não resistiu àquele rapaz tímido e simultaneamente atirado. Convidou-o para um singelo chá em seu minúsculo apê com quarto e sala, quitado a duras penas. Enquanto ela mexia em canecas e sachês, ele acompanhava-lhe cada minúsculo passo pelo cômodo estreito. Enquanto as canecas fumegavam, ele deu o golpe fatal e atropelou sua anfitriã no gasto tapete da sala. Rolaram quase até bater cabeças.

Os beijos cresceram em intimidade mas, como eram contidos, permitiram-se apenas o passeio dos dedos pelo corpo um do outro. Era tarde, quase meia-noite, quando o telefone tocou pela primeira vez. Ele reagiu com voz débil à convocação da mãe, que já estava a caminho e etc., mas não arredava pé, tirando microlascas dos lábios da moça do chá de canela. As ligações tornaram-se mais freqüentes, os beijos entrecortados, as mãos ainda mais nervosas. Finalmente, ele partiu, cada passo ressoando nas fibras daquele corpo trêmulo e imbuído da tal missão insana. Lançou um último olhar na direção dela e soube que estava preso a algo que lhe faria naufragar num mar sem afetos. Filho da mãe!

 

 

 
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Rio Branco-AC, 9 de dezembro de 2007
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