| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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Guerras e dinheiro, foguetes e moeda, balas, sangue, gritos, crenças, tragédias e alegrias, vidas que disparam na rapidez das transações em que a linha é de tiro, de fogo e de dor. Onze de setembro (EUA), onze de março (Espanha), episódios de morte e de desatino por todo o mundo Valores que transitam pela inconstância do preço dos homens, on line ou in natura, idéias que se atiram em interesses dispersos, cujas cotações variam na carta das idolatrias, na relação das ideologias, na variação das ambições, na amplitude das dominações. Todas servem fés e cobiças, nos diversos paladares em que se comunga o poder, em que se excomunga o fanatismo, em que se bebem os sangues. Todas servem à trapaça de qualquer motivo. Desequilíbrios não são problemas para as guerras, que só com eles alcançam mais rapidamente a vitória daqui ou dali. A falta de prumo não desagrada. Quanto maior a inclinação, mais aberta estará a boca insaciável para engolir o que se despeja pelo desaguadouro das ilusões, enganações e encenações. É grande a boca do lobo. E será mais fácil cuspir sobre o fogo derramado, acariciando a certeza do preço próximo do sonho seguinte, apesar de dores e gritos, apesar de outro corpo que cai ao lado da máscara, junto a outro motivo que nasceu para morrer, enquanto isso ainda é possível, até que a morte pare de cair do céu, até que a vida cubra um véu de razões, se isso então ainda for possível, como ainda é sorrir, ajudar. O lobo não dorme, a boca não fecha, a ciranda não pára. Caiu na roda, tem que dançar o miudinho, achar tudo legal, bacana, very intersting, e ainda ficar muito agradecido. Se toda guerra é perdida, se o que vem já está indo, se o grito mais serve para denunciar a posição de quem não calou, resta pagar o ingresso e referendar o voto sistemático ao invariável soberano. E como temos pressa! Ainda mais enganado será quem pensar não estar sendo. É mais fácil cadastrar-se logo, aderir ao plano, praticar o culto, consumir o produto, contribuir, com um comentário que seja, investir na comunicação, dar a mão (ou acenar, ou deixar estar), simpatizar ou fazer-se de vítima, fingir a pseudo-causa, participar do show. Mas nem tudo é facilidade. A notícia diária pode vir, há muito tempo e todos os dias, da questão sangrenta de Israel com os Palestinos, pode surgir no meio da Rússia, como ocorreu com centenas de crianças em uma escola, pode ser causada por mais um furo no Iraque, um furo no chão que brota, ou um furo no peito que jorra. A notícia diária pode vir, como há muito tempo e todos os dias, dos necessitados, mendigos, índios, gente do mato, do sertão, gente da dominação, dos moradores de rua, dos subterrâneos, dos prédios e praças, gente daqui e dali, velhos que param ou meninos que deixam correr. A notícia pode propagar como o gás sarin num metrô no Japão ou como a força das ondas que nascem de um tsunami. E ficamos perplexos em nossa pressa. Mas pode haver notícia em atos simples e úteis. Serenidade, certeza da beleza que há em ajudar, em rir ou chorar junto, é tudo mais difícil, mas é isto que serve ao tempo que cada um tem para escrever a própria vida e dar a própria notícia. É manchete significativa ao tempo que vamos deixando, todo dia, todo tempo. Proporcionar brilho à gente que é para brilhar mas não brilha, nem vive, nem ri. A leitura disso renova o fato de amanhã, é o fato novo. Ser útil é notícia cujo preço pode estar num gesto simples, num sorriso limpo, num carinho alegre. Se a notícia não estiver no preço, estará no produto da crença. Se não estiver na crença, estará no sabor da ideologia. Se não estiver na ideologia, estará no prazer de fazer acontecer. |
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