OPINIÃO
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Rubens de Menezes *

 

Reflexões (pós-)eleitorais

Ressacas curadas... excursionistas retornados... ânimos serenados. É hora de assimilar, sem a adrenalina das emoções, algumas lições deixadas pelas últimas eleições.

Com relação a Xapuri, considero bem abalizada a avaliação feita por Toinho Alves, ainda no fogo da desilusão, destacando a falência do sistema político-administrativo personificado no líder seringueiro. E vou além:

Só funcionou bem durante o período de implantação porquê contava com bons assessores – quando a tomada de decisões ficou a cargo apenas de suas lideranças locais, surgiram deficiências tanto na articulação entre as lideranças, como nas ações minimamente planejadas. A administração ficou acéfala!

Várias tentativas foram feitas - meu irmão, inclusive – com o intuito de planejar e organizar as ações do poder público, e todas, sem exceção, findaram fracassadas por conta das cisões geradas pelos conflitos de interesses individuais, da estupidez das vaidades e, mais grave, da imensa incompetência na percepção clara dos objetivos da administração pública: o município deve ser pensado como um todo; não é a cozinha da nossa casa!

A população xapuriense é extremamente conservadora: ainda hoje, faz questão de ressaltar os defeitos de Chico Mendes - talvez para impedir sua canonização. Isto quer dizer que sua importância na organização dos seringueiros não foi ainda assimilada, principalmente, pelo segmento urbano.

Um dos motivos da reviravolta nestas eleições, foi o sentimento de quê o governador não deixará de investir no município, ícone e logomarca maior da florestania; chave e cornucópia de recursos para financiamento do modelo de desenvolvimento acreano.

Devo acrescentar que este raciocínio é, cartesianamente, irretocável. Porém, a medida das coisas nem sempre é dada por valores absolutos, mas inclui grande dose de subjetivismo, e, quando se trata de política... Bem, não acredito que o governo interrompa o fluxo de recursos para investimentos no município. Quanto a “atrasos”; não sei, não...

Já o volume, deverá ser drasticamente reduzido. Não considero esta a melhor alternativa, visto que punirá indistintamente a todos. Por outro lado, disponibilizar recursos na mão do Vanderlei, é muito temerário. É caminhar dentro da floresta, à meia-noite, com lua nova e... sem lanterna.

Quanto ao prefeito atual, desnecessário se faz qualquer comentário. Acrescento apenas, que em conversa com moradores na semana da eleição, percebi-lhes no espírito, a angústia de não ter outra opção para assumir a liderança no município. Do que na verdade a população, principalmente a urbana, sente falta, é de uma liderança surgida dentre eles (“Todos conhecemos o Puxa-Encrenca; mas ele sabe mandar. Se o cara não fizer; ele sai até na porrada!”) Querem autonomia e dirigir seus próprios destinos. Como todos nós!

Xapuri foi administrada nos últimos 8 anos pelo PT mais próximo de sua base e origens. Como conseguiu ser tão descuidado a ponto de não conseguir renovar sua liderança e assim continuar avançando, pelo menos até ao ponto de manter um diálogo que expresse um consenso mínimo? Qual o peso do fundamento filosófico que embasa seu programa político e sua coerência com os objetivos a ser alcançados?

É impossível, pelo menos, do meu ângulo de visão, perceber qualquer sustentabilidade no modelo de desenvolvimento que não priorize o ser humano (agente e objeto). Em Xapuri, temos a materialização desta dialética: Raimundão foi derrotado com apoio maciço dos moradores de bairro periféricos, em tese oriundos da zona rural. Que nível de consciência adquiriu a população de Xapuri, que se esborroa apenas pelo fato do indivíduo trocar o campo pela cidade? O todo, ou suas partes? Eis a dialética inclemente.

O artigo escrito por Valdecir, meu querido amigo e conterrâneo, equivoca-se ao sugerir o repatriamento de um de nós para assumir a prefeitura de Xapuri. Ora, definitivamente, não é o que a população deseja e precisa; a vontade que nela percebo é que dentre os moradores, não necessariamente nativo, surja alguém com perfil de líder – apostaram no Vanderlei, só que este é tão estúpido que supõe-se imperador! Liderar é congregar os sentimentos e anseios comunais. Prefeito, o toque é de “grátis”, se quiser entender...

Nós outros, Valdecir, somos muito bem recebidos como filhos pródigos e servimos para avivar as recordações cada vez mais desbotadas; mas lá no fundo dos olhos das pessoas percebemos que não fazemos mais parte da comunidade; somos o que somos: os de Rio Branco! Não podemos fantasiar!

Podemos contribuir dentro de minha proposta, que é estruturarmo-nos como grupo de apoio e em consonância com a comunidade ajudar na elaboração de bons projetos e na formação de novas lideranças. Estas devem ser nossa preocupação e fim último. Xapuri não pode ficar sozinha! Josué, um abraço.

* (xapuriense)

 

 
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Rio Branco-AC, 10 de janeiro de 2005
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