| OPINIÃO | ||
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Carlos Odas * |
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“Quem grita, vive contigo!” Num ano marcado por boas notícias no front econômico, como foi o de 2007, o facciosismo da chamada “grande imprensa”, infelizmente, também foi uma marca. Mesmo boas notícias, se relacionadas às políticas implementadas pelo Governo Federal, eram dadas com um viés negativista que mal conseguia se disfarçar, sempre adendadas por opiniões de “especialistas” dispostos a mostrar que o crescimento de mais de 5% do PIB, a redução significativa das taxas de endividamento público e de desemprego, a redução da miséria e a transição de mais de 20 milhões de brasileiros das chamadas “classes de consumo” D e E para a classe C não constituíam, por assim dizer, motivos para comemoração. Numa indisfarçável simbiose de interesses com a oposição partidária, comemorou-se, sim, o seqüestro de 38 bilhões de reais do orçamento com a derrubada irresponsável da CPMF. Mas a cobertura de dois fatos similares, ocorridos na mesma época, foi emblemática dos pesos e medidas que a “grande imprensa” brasileira utiliza. Em um deles, uma menina foi seviciada durante um mês por presidiários com os quais foi trancafiada numa cela no Estado do Pará; no outro, um menino foi arrancado de casa por policiais militares, durante a noite, acusado de envolvimento no roubo de uma motocicleta, e em seguida foi torturado até a morte dentro de uma delegacia da cidade de Bauru, no Estado de São Paulo. Os dois casos a que me refiro permitem comparar objetivamente a cobertura dada a um e a outro: foram noticiados no período de um mês, ou seja, muito próximos um do outro e em ambos o fato principal é o mais infame desrespeito aos direitos elementares de dois jovens que estavam sob a custódia do Estado. Adoto como parâmetro para análise a cobertura feita pelo jornal Folha de São Paulo por ser, dos chamados “jornalões”, o que meu estômago suportou que eu lesse até agora. De saída, um fenômeno decorrente desse tipo de cobertura: a quem ouviu falar dos dois casos, acontecidos na mesma época, o do Pará aparece vivo na memória como fato recente; já o de Bauru parece fato remoto, do qual não se precisa mais claramente o momento em que ocorreu. A cobertura da Folha de São Paulo teve o mérito de engendrar essa ilusão: o caso de tortura em SP foi noticiado de maneira “asséptica” entre os dias 17 e 20/12; na edição do dia 21/12, já era pauta vencida, sem uma menção sequer. Já o caso do Pará é ainda citado, amiúde, pelos “opinistas” do jornal e deve ser, dessa maneira, categorizado como “exemplo de omissão ou conivência do poder público” com o desrespeito aos direitos humanos. Dessa maneira, a Folha execrou a Governadora Ana Júlia por conta de um desmando – injustificável – acontecido no âmbito do sistema prisional do estado que governa. Da mesma maneira, se prestou a esconder o cadáver e a limpar o sangue das mãos de torturadores covardes para limpar a barra de um político que tem, nesse caso, o mesmo grau de responsabilidade que teve a governadora naquele outro. O político em questão é José Serra, que em nenhum momento teve sua biografia, ademais ligada às lutas pela democracia, defrontada com o fato de que sob seu governo, a polícia do qual é o mais graduado comandante torturou e matou um menino de quinze anos de idade. Aparentemente, perdeu-se a noção de decência em parte significativa das redações brasileiras. A facilidade com que a mesma gente que se cala sobre a tortura, se ela se dá sob a jurisdição dos políticos de que gosta, põe-se a dar lições de como se deve governar o país - repetindo receitas que o quebraram antes - é reveladora. Como reveladora é a utilização de supostos instrumentos de interação entre leitor e veículo para a legitimação da linha editorial. Será possível que nenhum leitor da Folha de São Paulo, já que é o caso que analisei, sentiu-se provocado a fazer qualquer comentário sobre o caso de Bauru? Nenhuma carta foi publicada, pelo menos. Nem a favor, nem contra, tampouco pelo contrário. Daí que se torna insuportável o cinismo de alguns, a desfaçatez, a falta de objetividade, o desprezo por fato que, de tão ignominioso, grita em nossos ouvidos: ainda se pratica tortura no Estado de São Paulo! E tão “sem nome” quanto a covardia da tortura, em minha opinião, é o silêncio obsequioso da mesma imprensa que tão tenazmente cobrou justiça no caso ocorrido no Pará. Todos queremos, sim, justiça. Nos dois casos e em todos os outros em que os direitos mais elementares da pessoa humana sejam dessa maneira atacados, vilipendiados, roubados. Não vale, porém, como cobertura justa, senão isenta, dos fatos constranger publicamente uma governadora porque é do PT e publicar, sem adjetivos e sem fazer juízos, informes oficiais de um governador porque é do PSDB. Se nos dois casos jovens brasileiros sofreram as mais degradantes humilhações estando sob a custódia do Estado, tendo um deles morrido aos quinze anos de idade, o que pode explicar esse comportamento senão o que ele mesmo evidencia: que não é do lado da justiça que se encontram os que são pagos para dar a notícia ou os que são pagos para emitir as opiniões dos donos das redações, mas sim buscando constantemente algum ganho político para seus preferidos, num caso, e acobertando as responsabilidades dos mesmos, no outro? Com a revolta que toma, certamente, cada impotente “leitor” que se sente roubado, busquei os versos tristes que iniciam uma das mais bonitas canções que conheço na magnífica voz de Milton Nascimento: “quem cala sobre o teu corpo consente na tua morte”. Ela foi gravada no início dos anos 1970, num disco chamado “Geraes”, em minha opinião, um dos mais belos da discografia de Milton. Já forte na sentença, tão apropriada a casos de farisaísmos como esse, de que quem cala sobre a injustiça é cúmplice da morte do injustiçado, a canção continua: “quem cala, morre contigo mais morto que estás agora”. A imprensa está morrendo no Brasil, comprometida naquilo que é essencial: a sua credibilidade. Justamente por selecionar por critérios políticos e partidários as injustiças sobra as quais grita e sobre as quais se cala, está morrendo com os injustiçados sobre os quais se calou. Ao final, no entanto, como que para demonstrar que - não! - o mundo não pertence ainda, de todo, aos covardes, aos mentirosos e aos assassinos de todos os tipos, a mesma canção nos convida: “quem grita, vive contigo!”. Gritemos, pois, e lutemos por justiça, sempre. A jovem democracia brasileira se ressente, por certo, de uma imprensa que possa, ao menos, ser chamada de séria. Mas mesmo uma imprensa democrática não se constrói sem pressão popular. Feliz seja o ano de 2008, com tantas boas notícias como foi o de 2007. * Secretário Nacional de Juventude do PT (1999/2001) e Conselheiro do Instituto Cidadania e um dos coordenadores do Projeto Juventude (2004) |
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