COTIDIANO

Esforço coletivo para vencer o analfabetismo

Movimento de Alfabetização de Alunos, através do Programa Alfa 100, alfabetiza 220 pessoas em Brasiléia

 


Juracy Xangai

Aprender e a escrever é o sonho “impossível” que acabou realizado por 220 alunos do Movimento de Alfabetização de Adultos (Mova) através do Programa Alfa 100 da Secretaria de Estado de Educação, os quais festejaram no último final de semana, em Brasiléia, os seis meses de curso em que aprenderam as primeiras letras.

Há seis meses 817 alunos começaram a freqüentar as aulas do Alfa 100, somente em Brasiléia. A maioria deles nunca havia entrado numa escola, outros a freqüentaram por alguns meses há tanto tempo que já nem se lembravam mais como escrever o próprio nome. Agora 220 deles concluíram sua alfabetização na semana passada e outros 300 estarão concluindo nesta semana.

A coragem destes alunos enfrentando o preconceito desmentem a tradição de que adultos e idosos já não aprendem a ler e a escrever só se iguala a dedicação dos professores que enfrentaram todas as dificuldades para alfabetizá-los, inclusive um atraso de cinco meses no pagamento dos salários em um curso com seis meses de duração.

O esforço coletivo faz valer depoimentos como o de Nair Moreira do Nascimento, 63 anos, mãe de oito filhos, que relata: “Nunca tive oportunidade de estudar, só ia na escola para buscar meu neto, mas pagar na caneta é a vez primeira. Agora já faço meu nome, leio um pouco, mas escrever é mais difícil, preciso treinar mais, por isso vou fazer o curso de novo neste ano. Venho para a escola faça sol ou faça chuva, só Deus me tira da escola”.

De pai para filho

Há também casos como o de Antônia Rejane Raolino de Souza, que lecionou no bairro Leonardo Barbosa, teve uma sorte desfrutada por poucos professores, a de alfabetizar o próprio pai Romaris da Rocha, 43, pai de cinco filhos.

“Quando era novo eu estudei, mas não usava, então esqueci tudo. Agora voltei e estou aprendendo tudo de novo. Todos os meus filhos estudaram, três estão diplomados, só os dois mais novos ainda estão na escola, mas vão se formar”, afirma orgulhoso.

Já Maria da Penha Jesus da Silva, 44 anos, mãe de três filhos e moradora do bairro Samaúma confessa: “Quando era pequena fui à escola, mas não aprendi nada, agora dez vezes foi que valeu, já estou escrevendo e lendo. Leio devagar, mas leio, vou continuar, meu sonho é ser repórter e trabalhar na rádio”. A empolgação de Maria Penha até contagia a mãe Dionízia, 64 anos, 16 filhos, que declarou: “Nunca estudei, fui criada sem pai nem mãe, tenho vontade de aprender, pelo menos assinar meu nome. Por isso, neste ano eu vou para escola”. Já o pai, Manoel, lamentou não poder ir à escola porque sua visão está muito ruim.

Exposição de trabalhos

Aplicando temas utilizados no Caderno do aluno do Alfa 100, professores e estudantes organizaram uma exposição de trabalhos composto por temas como o lixo, frutas regionais, ditos populares, versos, mensagens de amor e adivinhações. Outro grupo encenou peça de teatro utilizando a história Conto da Mata em que os animais se mobilizam para defender a floresta.

Coordenadores do Alfa 100 e professores fizeram questão de destacar que a alfabetização de todos os que ainda precisam aprender a ler e escrever é uma tarefa que só será vencida com a participação ativa de toda a população num esforço conjunto para erradicar o analfabetismo do Acre.

Bendito entre as mulheres

Sebastião Nascimento Paiva, 21, foi o único professor que trabalhou junto com as 12 professoras do Alfa 100 na zona urbana de Brasiléia. “Foi muito interessante ser o único homem entre tantas mulheres. Até porque aprendi muito com elas, afinal de contas ninguém sabe de tudo. Lamento que muitos homens façam o magistério só para ter um diploma de segundo grau, mas têm até vergonha de dar aulas, o que é uma missão muito bonita”.

Juntos na escola

Luiz Marcos Ribeiro, 63, pai de oito filhos também se animou com os resultados de sua alfabetização. “Fui na escola quando era criança e não aprendi nada, agora, mesmo estando quase surdo consegui aprender meu nome e a ler um pouco, é mais difícil aprender assim, mas vou continuar estudando”. Sua esposa, Adalgisa, 59 que na infância fez até o segundo ano fundamental acompanha o marido e promete que se ele for continuar estudando ela fará o mesmo.

Adeus à novela

Raimunda Gifone Pereira, 48, mãe de nove filhos relembrou: “Eu sabia umas letrinhas, mas ler e escrever de verdade eu não sabia, mas aprendi e estou gostando muito. Antes não perdia um capítulo das novelas, agora fico lendo, quase nem assisto televisão, essa é uma chance de ouro que colocaram na nossa mão”.

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
Rio Branco-AC, 10 de fevereiro de 2004
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
   ANCELMO GÓIS
Com Ancelmo Góis
 
 
P E S Q U I S A