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A história de uma comunidade que conseguiu ser a mais eficiente de toda a região amazônica na preservação de uma idéia Projeto Quelônio no Acre consegue preservar mais de 60% de tracajás e iaçás. Esse índice não encontra paralelo em toda a região amazônica. Mesmo com apoio institucional de ONGs e governos estadual e federal, sem o envolvimento da comunidade, nada seria possível. Nenhum dinheiro oficial tem muito sentido na floresta se não houver a crença do homem de que “na mata pode-se ser e ter uma força diferente de tudo o que tem nas cidades. Salvar tracajás e iaçás é importante, mas é apenas parte das coisas”. Governo do Estado promete levar experiência do seringal Porto Díaz para outras regiões do Acre |
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Localizado no seringal Porto Díaz, região limítrofe entre os municípios acreanos de Plácido de Castro e Acrelândia, o projeto tem a cooperação de 150 famílias “envolvidas com as tracajás”. Com o apoio de instituições nacionais e estrangeiras, o Projeto Quelônios ainda tem dificuldades operacionais. Há um ano a sede do projeto recebeu apoio do Governo Federal para a captação da energia solar. O Prodeem (Programa de Energia nas Comunidades Rurais e Florestais) deu importante suporte para a comunidade melhorar a qualidade do serviço. Capricho - Um dos pontos que chama a atenção dos visitantes é o capricho com que os coordenadores tratam todos os processos que envolvem a preservação das tracajás e iaçás. A sala de reuniões é simples. Cadeiras e mesas de madeira. As paredes são substituídas por telas (uma forma de economizar energia e proteger contra os mosquitos). O piso é de “chão batido”. O quadro com os nomes das instituições parceiras é caprichosamente colocado aos olhos dos visitantes, com escrita rudimentar e amadora, mas está lá: fielmente mostrado para que todos vejam quem contribui para um dos melhores projetos da Amazônia. Há também um outro quadro, tão caprichoso quanto o primeiro, que mostra os detalhes das etapas desenvolvidas pelo grupo ao longo dos quatro últimos anos de trabalho. Ali estão traçadas as metas, esboçadas as etapas alcançadas e mapeadas as regiões onde estão as praias com os últimos 16 mil ovos espalhados pelas praias acreanas e bolivianas só no ao passado. Tudo feito de uma forma tão artesanal que não há quem duvide de que nessa comunidade há um motivo muito forte para acreditar que existe algo de diferente que explique tanta dedicação. A didática lembra os mais bem elaborados diagramas feitos pelos modernos computadores dos cursos de Master in Business Administration (MBA) só que no Porto Diáz quem dá a aula são os caboclos. A idéia e a mata - “Envolver a comunidade não é tarefa fácil. Eu tento me dedicar ao máximo, não apenas para conseguir bons resultados, mas porque eu sei que por trás de toda a defesa dessas duas espécies há coisas mais valiosas”, disse o coordenador do Projeto Quelônios no Acre, Abraão Libdy Kerdy. Quando perguntado sobre que “coisas mais valiosas” seriam essas, Kerdy (acreano e “descendente de árabes”, como se orgulha de dizer) aponta com os lábios para o rio Abunã e afirma. “Não sei lhe dizer muito ao certo, mas sinto que aqui na mata podemos ser e ter uma força diferente de tudo o que tem nas cidades. Salvar tracajás e iaçás é importante, sim, senhor, mas é apenas parte das coisas”. “Como um mouro” - No cotidiano do descendente de árabe, a expressão “trabalhar como um mouro” ganha proporções bem amazônicas. Quando chove durante as madrugadas frias do rio Abunã, Kerdy junto com os 14 companheiros do projeto saem pelas praias “vulneráveis” procurando as covas mais rasas. O objetivo é fazer com que a força das águas das chuvas não leve os ovos ainda imaturos para o rio. “É um desespero porque, além da chuva e do frio, temos que agir rápido para que não haja perdas”, lembra Kerdy. “Vocês trabalharam para colher”, diz governador Viana O governador Jorge Viana não escondia o entusiasmo a cada explicação dada pelo coordenador do Projeto Quelônios no Acre, Abraão Libdy Kerdy. Viana ouviu atentamente todas as declarações das dificuldades vividas até o instante em que o projeto chegou à etapa alcançada. Ao final da fala do coordenador, veio a declaração. “Vocês trabalharam muito para colher um resultado como o que vocês nos apresentam hoje”, disse o governador, antes de ponderar que “se não tivesse havido o envolvimento da comunidade como o que foi feito aqui, dificilmente vocês teriam chegado nesse nível de competência, mesmo se toda a infra-estrutura tivesse sido oferecida”. Acompanhado do irmão e senador Tião Viana, do pai, Wildy Viana e do tio e ex-governador do estado do Acre, Joaquim Falcão de Macêdo, o governador Jorge Viana foi recebido em clima de festa pela comunidade. Ao chegar de “voadeira” pelo rio Abunã, o grupo hasteou as bandeiras do Brasil, Bolívia, de Plácido de Castro e de Acrelândia. Jorge Viana prometeu intensificar o apoio, além do que já é dado pelo Instituto do Meio Ambiente do Acre (Imac) e da Secretaria de Meio Ambiente do Acre (Sema). O compromisso é transformar a sede do projeto em um Centro de Florestania no seringal. Com isso, a infra-estrutura física da sede será completamente modificada, além de se tornar uma referência para todos os projetos de desenvolvimento sustentado da comunidade. Outra proposta colocada em discussão é a possibilidade de que a experiência piloto no Porto Diáz seja transferida para “outros rios”, além do Abunã. A intenção é levar para regiões do rio Envira, Yaco, Purus e Juruá. O atual coordenador do projeto, Abraão Kerdy, pode servir como uma espécie de consultor para a instalação das novas bases. Não foram estabelecidos prazos para instalação do projeto em outras regiões do Acre. Convidado a “abraçar” uma Samauma de mais de 300 anos, o governador Jorge Viana não hesitou. Chamou o irmão, senador Tião Viana e partiu mata adentro, acompanhado de parte da comunidade. A árvore chama a atenção pelas proporções quase gigantescas. Foram necessárias 23 pessoas com os braços abertos para envolver toda a árvore. Jorge Viana tirou várias fotos ao lado de índios na parte do caule da planta que mantém contato com o solo. Lançamento simbólico reforça compromisso com a comunidade O governador Jorge Viana, o secretário de Meio Ambiente, Edgard de Deus e o superintendente do Ibama no Acre, Anselmo Forneck fizeram o lançamento simbólico de tracajás no rio Abunã. “Eu gostaria que todas as crianças e todos os idosos pudessem ver o que está sendo feito aqui nessa comunidade. É empolgante porque sinaliza que um projeto não pode estar equivocado quando a maioria se reconhece nele. Viajar pelo Acre comprova isso”, disse Viana. Duas crianças da própria comunidade vestidas com roupas indígenas cantaram o “Hino Ecológico”, logo após o lançamento dos animais no rio. Uma parte da letra reforça a afirmação do governador. “Reflorestar é a nossa alegria/ grandioso para ver a flora florar”. Índios querem implantar projeto em aldeias Durante a visita do governador Jorge Viana à sede base do Projeto Quelônios, no seringal Porto Diáz, índios de várias etnias demonstraram interesse em implantar o Projeto Quelônios em aldeias de várias regiões do estado. Antes da chegada da comitiva oficial, os índios já estavam há uma semana “participando de aulas” para aprender todos os processos de implantação do projeto nas aldeias. Estavam presentes índios das etnias Kaxinawuá, Apurinã, Jaminawua, Ashaninka e Manxiniri. “Sou educador indígena e tenho certeza de que essa idéia é boa para toda a minha gente. Não é só para preservar as tracajás, não. É uma idéia boa para a minha gente”, disse Norberto Sales, ex-vereador pelo PV e educador indígena há 22 anos. A comunidade de Sales pertence ao rio Jordão e possui mais de mil habitantes. O processo de preservação O processo de preservação de tracajás e iaças mostra como o envolvimento com a comunidade é importante, tamanho o cuidado necessário. 1) Os ovos estão espalhados seis quilômetros acima e abaixo, a partir da sede do Projeto Quelônios. As praias onde são cavadas as covas estão em território brasileiro e boliviano. “Somos moradores do mesmo rio. Temos as mesas preocupações, independente de bandeiras”, diz o coordenador do Quelônio no Acre; 2) Os ovos, logo após um período de maturação, são trazidos para uma praia base. Os 14 trabalhadores do Projeto Quelônios acampam e após 90 dias trazem os ovos para os berçários (viveiros); 3) Uma tracajá está pronta para realizar a primeira desova após oito anos (com essa idade a massa do animal chega a 10Kg). Com esse tempo, já pode ser considerada uma “matriz”. Uma dificuldade apontada no processo de preservação é que muitas vezes a tracajá ou iaçá é abatida antes da primeira desova; 4) Até agosto estão proibidas caças a esses animais. Em agosto ocorre a desova nas praias. O governador Jorge Viana prometeu fazer parte do ritual |
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