OPINIÃO
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Elson Martins *

 

Bom aqui e na China

O Acre atravessa um bom momento para construção de uma sociedade que seja ao mesmo tempo tradicional e moderna. Uma sociedade na qual toda família possa viver bem com sua cultura, ideologia, religião, gosto e aptidão. O governo da floresta está fazendo sua parte relativamente bem e começa a colher bons frutos de suas ações: tem muito projeto dando certo com a estrutura recém-criada do Estado, que também se tornou favorável aos cidadãos interessados em ampliar ou iniciar negócios. Acho até que os meios de comunicação (jornais, rádios e tvs), por não estarem conseguindo sair do redemoinho dos fuxicos e das vaidades, estão deixando escapar boas pautas sobre a nova situação.

O Estado avançaria mais se cada pessoa percebesse que é preciso fazer também a sua parte na construção desse Acre próspero e desejado. Em tempos passados, digamos, do começo até os anos sessenta do século XX, as comunidades acreanas tiveram que se adaptar às condições de isolamento em que se encontravam fazendo coisas incríveis para resolver problemas de escola, saúde, alimentação, transporte e, naturalmente, renda. Foi assim que cada município, cidade ou vilarejo construiu especificidades, borracha à parte. Tarauacá impôs-se com a pecuária e o abacaxi gigante, Cruzeiro do Sul com a farinha, o guaraná e o açúcar gramixó enquanto Sena Madureira, Xapuri e Feijó, entre outros, teciam sua ponta de orgulho e originalidade.

As atividades produtivas desse tempo não morreram mas foram negligenciadas por sucessivos governos. Em seu lugar, foram sugeridas outras formas de “desenvolvimento” inibindo nas comunidades sua principal aptidão. A tradição e o saber fazer locais foram encolhendo e se envergonhando, na medida que os sabichões que passaram a chegar do Rio de Janeiro e depois Brasília impunham seus planos mirabolantes. Durante os vinte e tantos anos do período militar, salvo alguma exceção como a do governo Geraldo Mesquita, a região ficou a mercê dos tecnoburocratas do poder central. E a vida, se não piorou de vez, melhorou quase nada nesse longo e escuro período.

A partir de 1999, o Estado começou a emergir do fundo do poço, guindado pelo movimento dos povos da floresta com o governador Jorge Viana (PT) que o representa. A mudança tem sido lenta e confusa porque nem sempre governo e movimento caminham juntos, mas também porque é grave o que tinha e ainda tem que ser removido do meio da sociedade: como corrupção, crime-organizado, clientelismo, corporativismo e tanta coisa mais que todos conhecem. Pois bem (ou pois mal), essas coisas podem voltar ameaçando o que se conquistou dos anos noventa para cá.

Num ano político como 2004 dá para ver bem a cara dessa ameaça. Basta ler com atenção os depoimentos e observar as fotografias e imagens (na tv) dos grupos que reaparecem falando de siglas e alianças partidárias. Curiosamente, eles raramente falam de projetos, idéias e ações que nos interessam, como se temessem argumentar contra as teorias e práticas do desenvolvimento sustentável. Para contestar o que está sendo feito, teriam que oferecer mais que um discurso emplumado e referências carcomidas da política. Também teriam que ter legitimidade para afirmar que sabem fazer melhor.

É por conta dessa ameaça que cada cidadão acreano, de nascimento ou de coração, deve esperar menos como ação do governo e mais de si mesmo, pois o melhor só pode ser concluído com a participação do conjunto da sociedade. O que equivale dizer: com a sua própria participação. Acredito que temos aqui no Acre um gosto e uma estética regionalizados que podem se transformar em grande força política, ou produtiva, ou de lazer, ou de hábitos alimentares e até de mercado. Vou encerrar com um exemplo:

Quem não gostaria de entrar num restaurante ou lanchonete de Rio Branco, com algum amigo de fora, e faze-lo perceber que as toalhas de mesa foram produzidas por nossas costureiras com motivos indígenas Caxinauá? Ou que os cinzeiros foram feitos com cocos da floresta, por artesãos locais? Ou que as mesas e cadeiras com “design”amazônico saem de nossas movelarias? Poderíamos oferecer sobremesas com sabores regionais exóticos, de nossos frutos silvestres, e ainda arrematar com um licor de mutamba, com sabor e cheiro inigualáveis aqui ou na China!

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 10 de fevereiro de 2004
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