| OPINIÃO | ||
| OPINIÃO | ||
Sandra Starling * |
|
|
As surpresas que vêm do Acre Sigo sempre as novidades que aparecem no sentido da promoção dos direitos da mulher. A cada passo na história da emancipação do gênero, séculos e séculos de opressão vão ficando para trás, apesar de ainda faltar muitíssimo para que sejamos, de fato, livres. Lembro-me muito, quando trato o tema, do espanto que vivi quando há anos atrás presidi uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara dos Deputados, para apurar os números da violência contra a Mulher no Brasil. A comissão somente trabalhou com dados das Delegacias Especializadas no Combate à Violência Contra as Mulheres, e com os dados de processos em andamento ou já julgados, em todo o território nacional. O resultado foi catastrófico: nada mais, nada menos que 346 casos diários no país, abrangendo desde as agressões verbais ou psicológicas, até os homicídios e passando pelo pior: os estupros contra filhas menores (até mesmo bebês) pelo próprio pai biológico. Também foi duro saber que essa crença de que o homem tem direito de propriedade sobre a mulher não é um valor disseminado apenas nas classes menos informadas da população e que, mesmo nas classes médias intelectualizadas e entre os muito ricos, maridos, pais, irmãos e parentes de todos os graus violentam as mulheres. E prevalece a impunidade – é claro – nesse mundo em que, em todos os poderes, ainda predominam os homens. Mas, embora procure saudar sempre cada passo que se dá nesta luta, tenho cá meus pruridos contra certas maneiras de relembrar o Dia Internacional da Mulher: teatrinhos que tratam nossos problemas num nível muito rebaixado, passeatas tão, mas tão festivas, que até parece que já chegamos ao paraíso e certas homenagens a quem, supostamente, se destacou nessa caminhada, apenas para incluir dentre esses nomes o de festejadas socialites, políticas ou artistas de variada espécie. Já participei de alguns desses eventos – confesso, mas hoje em dia procuro ficar o mais distante possível deles. Todavia, não posso deixar de me emocionar quando tomo conhecimento de passos gigantescos e do reconhecimento desses passos dados por mulheres absolutamente anônimas e em lugares tão distantes quanto o que vai acontecer agora no Senado Federal, com a outorga a Raimunda Putani (Yawanawa) do Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz. Quem é essa Putani? Trata-se de um das duas únicas mulheres indígenas, Yawanawa, do Estado do Acre, que prestaram o juramento sagrado para se tornar pajés e que foram indicadas pelo Senador Tião Viana para receberem o prêmio em reconhecimento da coragem e do pioneirismo desse passo que abre espaço para as mulheres e para todos integrantes de sua cultura. Sabe-se do papel de liderança exercido pelos pajés em suas tribos, dada a relação com o espiritual e com os cantos de cura, além de tantos outros entendimentos sobre diferentes assuntos. E não foi nada fácil para as duas índias conseguirem quebrar as barreiras que sua própria tribo impunha para aceitá-las nesse tradicional espaço reservado aos homens. Por isso, meu Dia Internacional da Mulher ficou todo ele dedicado a homenagear no meu pensamento e no meu coração a mais essa grata surpresa que nos vem do Acre!!! * Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC) |
||
|
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| ESPORTE |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |