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| Elson Martins | |
Elson Martins É difícil imaginar, pela aparência, que ele seja urbano nascido e criado em Rio Branco. A forma de se vestir e calçar, o jeito desengonçado do andar, e o cabelo em desalinho, entre outros aspectos, fazem crer que sempre viveu na floresta. Sua timidez e simplicidade reforçam a idéia. E esta permanece quando o vemos com um pincel na mão retocando uma tela de 1,46 x 1,80 metro, espalhando luz numa paisagem amazônica traduzível somente pelo coração. Estou falando do Ivan Campos, 47 anos, provavelmente o mais talentoso e enigmático artista plástico do Acre. Ele lembra o pai, Cícero Moreira, outro aparente gnomo da mata que passou uma eternidade emocionando os ouvintes da Rádio Difusora com os programas “Manhã Sertaneja” e “Jóias da Velha Guarda”. (Não, não! Nada de botas de cano longo e cintos largos com imensas fivelas douradas. Cícero amava e defendia um outro sertão.) - Sou urbano. Minhalma é que é da floresta! A explicação sintética é do Ivan. Os detalhes ficam para sua mulher, a cruzeirense Ana Angélica. Ou para algum dos filhos do casal: Ivana, 25, Darviles, 24, e David, 20 anos. Ana mostra o local onde será construído o atelier do artista, no fundo da casa. Por enquanto, ele trabalha no pátio da frente, sujeito a todo tipo de interrupção. A mais freqüente parte de três cães de guarda (ou nem tanto) que latem com gosto contra tudo que transita diante do portão de entrada. Muitas vezes o artista dá sinais de esmorecimento, mas Ana está atenta e não deixa que ele se entregue. - Ela é meu esteio - confirma ele, olhando para o chão. Bote esteio nisso! Mesmo assim, aos trancos, circulam em diferentes regiões do Brasil e do mundo mais de 200 telas com a assinatura e o estilo inconfundível do Ivan. Um estilo que ele próprio define como “psicodelismo”. Quem já viu alguma de suas telas sabe o que isso significa: um emaranhado de bichos, raízes, folhas e luzes que se harmonizam numa paisagem misteriosa e intrigante. -Só tenho o segundo grau completo. Pintura, eu nunca estudei não.Eu só espalho as cores. E o que pensam os críticos, os especialistas? Ivan participou em 2005 de uma exposição da Funarte no Rio de Janeiro. Seu trabalho foi muito elogiado. Após essa aparição, começou a receber encomendas de colecionadores da Alemanha. Já pintou cinco telas para os alemães. Mas, em Rio Branco, Ivan se vê como santo de casa, aquele que não faz milagres. Ele se queixa das autoridades que não se interessam pelo trabalho dos artistas. Abre exceção para o ex-governador Jorge Viana e para o atual prefeito, Raimundo Angelim: Viana lhe comprou uma tela pelo maior valor que obteve até hoje, R$ 4 mil. O prefeito foi à sua casa, encomendar um quadro. A queixa do pintor desencava uma outra frase síntese, desta vez para expressar resistência com base no valor de sua arte: - Eu posso trincar, mas não quebro. A veia artística vem da mãe, Gercina Campos, que gostava de desenhar mulher nua. Desenhava até naquele pequeno papel com um lado da cor de alumínio e outro branco, utilizado como proteção de cigarros. Ivan sofreu tétano quando tinha apenas 6 anos de idade, tendo que passar nove meses em ambiente escuro. A mãe ficou junto a ele desenhando, mesmo sem luz, suas mulheres nuas. Desde esse tempo o menino começou também a desenhar: primeiro com lápis, depois com nanquim. Fazia desenhos em quadrinhos. Revista em quadrinhos foi uma de suas manias. Chegou a ter três mil gibis guardados sob sete chaves. Gostava muito do Fantasma com sua namorada Diana Palmer, o cavalo Herói e o cachorro Capeta. A mais recente tela de Ivan Campos ficará pronto daqui a 30 dias. E não foge ao tema dos outros trabalhos que produziu: o entranhado da floresta com sua diversidade e magia. Parece até um quebra-cabeça, daqueles que a gente precisa se esforçar para identificar figuras. No caso, quase dá para perceber cânticos, orvalho, vento nas folhagens e estranhos gemidos. “A Universidade da Floresta virou um campus burocrático” Altino Machado A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora na Universidade de Chicago, é um dos principais nomes no âmbito internacional quando o assunto é Amazônia. Ela e o marido, o antropólogo acreano Mauro Almeida, professor da Unicamp, já não demonstram o mesmo entusiasmo em relação ao projeto da Universidade da Floresta.
Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Almeida não conseguem mais esconder a insatisfação com os rumos que a Universidade da Floresta está tomando após dois anos de existência. Eles foram os organizadores da Enciclopédia da Floresta, considerado o mais completo compêndio sobre a cultura, hábitos e saberes das populações indígenas e comunidades de seringueiros da região do Alto Juruá. O campus avançado da Universidade Federal do Acre no qual se transformou a idéia original da Universidade da Floresta se distancia cada vez mais do sonho de reunir cientistas e pajés, valorizar os saberes tradicionais e as alternativas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, sem deixar de atentar para os mecanismos de proteção à biodiversidade da região e aos conhecimentos dos povos nativos. --------------------------------------------------------------------- Nota do editor: o jornalista Altino Machado entrevistou a professora Manuela Carneiro da Cunha na manhã de quarta-feira, 6, em Cruzeiro do Sul, durante um dos intervalos da reunião regional da SBPC. Participou o jornalista Flamínio Araripe, que escreve para o Jornal da Ciência. A entrevista gravada e completa e os comentários que suscitou estão no blog www.altino.blogspot.com. |
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