| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana (IV) Este ano completam-se 30 anos desde que a primeira equipe de arqueólogos profissionais inaugurou a pesquisa da pré-história acreana. O ano de 1977 marca a identificação dos primeiros sítios arqueológicos a serem oficialmente registrados no estado do Acre, que incluía entre eles diversos sítios com estruturas geométricas de terras. Um trabalho que não parou mais desde então, apesar de ter conhecido alguns longos intervalos. Na Amazônia brasileira pesquisas arqueológicas desenvolvidas por arqueólogos profissionais só tiveram início no final da década de 40, quando Clifford Evans e Betty Meggers realizaram suas primeiras pesquisas na foz do Amazonas (Marajó e Amapá) e estabeleceram uma cronologia para a ocupação da ilha (Prous, Arqueologia Brasileira, 1992). Em 1965 foi organizado pelo IPHAN e pelo Smithsonian Institution (SI) o Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA) que coordenou pesquisas em todo o território nacional e envolveu diversas instituições e pesquisadores estrangeiros e nacionais. Ao se encerrar este programa, que conseguiu promover um enorme avanço no conhecimento de nossa pré-história, em 1976, foi organizado pelo Museu Paraense Emilio Goeldi o Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica (PRONAPABA), coordenado por Mario Simões, Betty Meggers e Clifford Evans, com financiamento do CNPq e do SI, que também envolveu diversas equipes de pesquisa de todo o país. Foi nesse contexto que o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) foi designado pela coordenação do PRONAPABA para desenvolver pesquisas na região dos altos rios Purus e Juruá, sob a coordenação do Dr. Ondemar Ferreira Dias Jr, entre os anos de 1977 e 1980. Nestas pesquisas, que adiante veremos com mais detalhes, foram localizados 70 sítios arqueológicos espalhados por todo o território acreano e estabelecidas as primeiras informações de caráter científico sobre a ocupação pré-histórica do Acre. Ainda assim é importante ressaltar que nesta fase inicial as pesquisas do PRONAPABA tinham caráter extensivo de busca e prospecção de sítios arqueológicos e não conseguiu cobrir todos os vales acreanos. A pioneira pesquisa do ano de 1977 se concentrou na região que compreende as áreas AC-XA (Xapuri), AC-RB (Rio Branco), AC-IQ (Iquiri) e AC-SM (Sena Madureira), quando os pesquisadores Ondemar Dias Jr. e Franklin Levy conseguiram registrar vinte sítios arqueológicos de diversos tipos. E entre estes pelo menos sete sítios arqueológicos com estruturas de terra (que ultimamente vem sendo designados de forma sensacionalista como geoglífos). Uma evidencia que lhe chamou a atenção, merecendo inclusive uma primeira publicação em 1988, após a análise parcial de seus vestígios cerâmicos. Ou seja, devemos a descoberta dos “geoglífos” ao Dr. Ondemar que, não só continua tratando sua descoberta de forma responsável e cientificamente coerente, como estimulou inúmeros desdobramentos, traduzidas em outras pesquisas de campo realizadas posteriormente e, pelo menos, duas teses de doutorado, que veremos com mais detalhes nos próximos artigos. As pesquisas de 1977 se constituíram no marco inaugural da arqueologia no Acre e possibilitaram o estabelecimento do, até aqui, único conjunto de informações confiáveis acerca da pré-história acreana. Há exatos trinta anos, portanto, começamos a compreender melhor a milenar ocupação indígena do Acre. Um conhecimento que ainda pode nos revelar preciosas lições sobre os diversos povos que habitaram a região em um passado mais distante, constituindo variados modos de vida e de relacionamento com a grande floresta amazônica e que podem nos indicar novas e insuspeitas possibilidades para o desenvolvimento das sociedades que aqui vivem. Um evento que certamente deve ser reconhecido e intensamente comemorado por todos os acreanos.
No coração de Rio Branco Nesta ultima sexta-feira, 08 de junho, a cidade de Rio Branco viveu, de forma muito discreta mas extremamente bela, um dos momentos de mais importantes e significativos de sua história. Me refiro a comemoração dos cinqüenta anos de missão da Madrinha Chica Gabriel. Um momento tão singelo e emocionante como toda a trajetória dessa extraordinária mulher que fez de sua fragilidade física uma força tão grande que se tornou capaz de guiar centenas de irmãos nos caminhos da caridade e do amor ao próximo. Como testemunha desse importante evento, eu não poderia deixar de registrar aqui toda a admiração que sinto pelo trabalho da Madrinha e de seus irmãos e filhos de missão. E assisti encantado a cerimônia de homenagem a Madrinha Chica Gabriel que contou com a presença de Antonio Geraldo, Francisco Hipólito, Luis Mendes e outras importantes lideranças religiosas da doutrina do Daime. E ouvindo a própria Madrinha contar os motivos de saúde que a levaram a procurar Frei Daniel Mattos e tudo o que lhe ocorreu desde então, não pude evitar uma breve volta no tempo, a uma época em que a atual Vila Ivonete ainda não passava de uma colocação do velho seringal Empreza, afinal... Já lá se vão mais de cem anos desde que o povo da Villa Rio Branco, cansado de esperar pelos padres católicos que só vinham ao Acre durante poucos meses no ano, e mesmo assim sempre com a rapidez das desobrigas, decidiu erguer uma capelinha em homenagem a N.S. da Conceição, como padroeira de Rio Branco. Ali pertinho da secular Gameleira que havia visto a cidade nascer. Já lá se vão mais de oitenta anos desde que a Igreja Católica, agora representada pelo Bispo da Prelazia do Alto Purus, resolveu destituir a pequenina capela de N. S. da Conceição da imagem da santa padroeira da cidade nascente (e segundo o desejo dos moradores da Vila, expresso nos jornais da época, de todo o Alto Acre). È que o Bispo queria usar a imagem para adornar a igreja de São Sebastião que havia sido construída na Rua Epaminondas Jácome (onde hoje se encontra o colégio Meta) e levou à revolta os moradores de Rio Branco que armados foram em procissão tomar a santa roubada para devolvê-la à pequena capela do Segundo Distrito. Já lá se vão mais de setenta anos desde que o maranhense Raimundo Irineu Serra resolveu dar baixa da Guarda Territorial e fundar uma comunidade religiosa ali nas margens do Igarapé Fundo, em terras do antigo Seringal Empreza. Mestre Irineu deu inicio assim ao estabelecimento das bases doutrinárias do uso ritual do Daime (ou Ayahuasca, como preferem alguns) louvando a Jesus Cristo e a N.S.da Conceição, agora identificada como a Rainha da Floresta. Uma doutrina que através da fé, do amor e da caridade curou, entre muitos outros, o também maranhense Daniel Pereira de Mattos, que se encontrava à beira da morte. Já lá se vão mais de sessenta anos desde que Mestre Irineu decidiu se mudar das margens do Igarapé Fundo para as terras altas da Colônia Custódio Freire e estabeleceu sua comunidade no lugar que passou a denominar de Alto da Santa Cruz, hoje mais conhecido como Alto Santo. E coube a Daniel Mattos prosseguir com seu próprio trabalho espiritual em uma capelinha construída ali mesmo nas proximidades do Igarapé Fundo, dando origem à Barquinha que em sua viagem pelo Mar Sagrado continua indistintamente praticando o bem e obras de caridade. Já lá se vão cinqüenta anos desde que Frei Daniel começou a curar a doença que atormentava a jovem Francisca Campos do Nascimento e causava sofrimento também a seu marido Francisco Gabriel, bem como as suas filhas. Um tratamento longo e doloroso, mas que após sete anos, deu origem a uma nova pessoa, a Irmã de Caridade Chica Gabriel (um nome que sintetiza a Madrinha e seu marido, que na verdade são um só). Já lá se vai uma noite inteira desde que ouvi alguns dos belos hinos da Madrinha Chica e seu emocionante relato de vida. E me surpreendi pensando que esses hinos bem poderiam estar sendo cantados em qualquer igreja católica, evangélica ou daimista, porque falam da fé e do amor a Jesus. Foi quando compreendi que este lugar guardado por três igrejas - filhas diletas da obra de Frei Daniel - comandadas hoje por Francisco Hipólito, Antonio Geraldo e Madrinha Chica Gabriel se constitui no meio de um caminho sagrado que cruza toda nossa cidade. Um caminho que se inicia lá na velha Gameleira, passa pela Vila Ivonete e finda no Alto Santo. Já lá se vai uma noite inteira, apenas uma pequena parte da longa noite dos tempos, desde que senti pulsando a partir daqui, da Vila Ivonete, o coração de Rio Branco. Parabéns Madrinha, mais do que esses justamente comemorados cinqüenta anos de missão, sua obra já alcançou a eternidade e por isso somos todos, os que conhecem e os que nem sabem de seus sacrifícios nesta caminhada, seus devedores. |
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