ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias

Diálogos para o futuro

Empreendedorismo indígena no Fórum Permanente dos Povos Indígenas da ONU


Joaquim Tashkã Yawanawá e Laura Soriano

Caros amigos editores e leitores do Papo de Índio. Conforme havia prometido, deixo aqui minha contribuição ao Papo, que esteve de maré alta nesses últimos tempos por conta da controvertida proposta de prospecção de petróleo e gás nas florestas acreanas. Depois da “guerra do petróleo”, gostei muito do papo sobre a estréia do meu amigo Siã Kaxinawa como ator no filme Meteoro, de Diego de la Teixeira, que tive o privilégio de assistir justo na noite de sua estréia, em 20 de junho passado, no Cine-Teatro Odeon, no Rio de Janeiro.

Dedicamos esse papo ao Txai Terri, que voltou às terras acreanas depois de passar quase dois meses em Manaus, em tratamento de saúde. Ele voltou recentemente curado, com toda a energia e a alegria de sempre. Parece um menino aos 60. Seja bem-vindo, Txai!

Na realidade, gostaríamos de falar aos leitores acreanos sobre a última Conferência do Fórum Permanente dos Povos Indígenas, da Organização das Nações Unidas (ONU), que participamos, no dia 23 de maio último, em Nova York.  Nossa participação se deu no debate “Diálogo para o Futuro: Empreendedorismo Indígena - Oportunidades e Desafios”. Também participaram deste evento várias lideranças indígenas jovens, que vêm trabalhando com iniciativas de negócios sustentáveis no planeta.

O Fórum Permanente dos Povos Indígenas foi criado, em 2002, pelo Conselho Social e Econômico (ECOSOC) das Nações Unidas. O propósito deste conselho é discutir a respeito do desenvolvimento social e econômico, bem como sobre a cultura, o meio ambiente, a educação, a saúde e os direitos humanos dos povos indígenas. Esse Fórum também assessora e faz recomendações ao Conselho sobre os seus programas, assim como aos fundos e agências das Nações Unidas.

Depois de passar um século lutando para serem reconhecidos pelos governos nacionais, os povos indígenas no mundo conquistaram status legal outorgado, em 2001, pela ONU.

O Fórum é atualmente composto por 16 membros: oito são escolhidos pelos povos indígenas e oito pelos governos. Estes também têm autonomia para nomear os próprios representantes indígenas de seus países, se eles quiserem e alguns o fazem. Os integrantes do Fórum reúnem-se todos os anos, durante 10 dias, em New York/USA ou em Genebra/Suíça. Nós estamos participando das reuniões do Fórum desde o ano passado. Neste ano de 2007, novamente convidados, participamos da grande plenária da ONU sobre o tema relativo a negócios e novos desafios aos povos indígenas. Fomos falar da experiência, nos últimos 15 anos, de parceria comercial entre o povo Yawanawá e a empresa norte-americana AVEDA Corporation Inc. Esta parceria tem servido de exemplo de negócios sustentáveis com empresas que têm o compromisso com o meio ambiente e as populações tradicionais e indígenas.

Hoje em dia, no mundo de negócios, está havendo uma mudança de mentalidade entre alguns empresários modernos. Eles estão percebendo que não dá mais para continuar fazendo negócios explorando, destruindo, desrespeitando o meio ambiente e  a dignidade dos trabalhadores. Esta mudança no comportamento empresarial não está acontecendo por vontade própria deles, isto está acontecendo porque não dá mais para continuar destruindo o planeta e as culturas dos povos tradicionais. É uma exigência do próprio planeta, não porque os empresários de repente viraram pessoas bondosas, mas porque economicamente não é sustentável, viável e duradouro.

É por isso que  o presidente da AVEDA, Dominique Conseil, tem como visão adotar na pratica um novo modelo de negócios,  que seja justo, ético e honesto com a natureza e com o ser humano. Afinal de contas, é isso que traz vantagens econômicas para a empresa e também para os seus trabalhadores, produtores, e por último, para a própria natureza, da qual toda a humanidade depende para sobreviver. Já que sem ar puro e água limpa não poderemos sobreviver na Terra, nossa nave viva.  Essa é a preocupação de um empresário visionário, como Dominique, que através da sua companhia deseja dar um bom exemplo para outras empresas nos Estados Unidos e no mundo.

Graças a essa nova visão empresarial da AVEDA,  a nossa parceria tem durado tanto tempo, sobretudo porque para nós Yawanawá  preservar nossa terra, nossa cultura, nossa língua são essenciais para nossa sobrevivência como um povo indígena. É muito difícil encontrar governos e empresas sérias, como a AVEDA, que não têm a visão errônea de olhar o povo indígena como um “atraso ao progresso” e empecilho ao famoso desenvolvimento econômico do país.

Durante o evento, a gente falou especificamente sobre as oportunidades e dificuldades desta parceria. Nossa parceria com AVEDA consiste na venda de sementes de urucum produzidas na aldeia. A empresa usa a bixina, substância extraída dos caroços de urucum, largamente cultivados na nossa aldeia Nova Esperança, para produzir batom, xampu e outros produtos cosméticos. E associa seus produtos a nossa imagem de um povo tradicional e protetor da natureza.

O Café da Selva

Compartilhar o plenário da ONU com Veneranda Xochitl Juarez, representante da Cooperativa de Plantadores de Café de Chiapas, no México, foi uma grande honra, já que somos um dos muitos admiradores e apreciadores do La Selva Café, uma rede de cafés espalhada pelo México, Estados Unidos e Europa. Sempre que estamos viajando, nunca deixamos de parar num de seus cafés para apoiar a sua causa e encontrar ativistas de toda parte do mundo, que lá se encontram para degustar o famoso café orgânico cultivado pela Cooperativa Indígena de Chiapas, da qual fazem parte 1.800 indígenas.

La Selva Café tem conseguido vender seu próprio café orgânico sem  intermediários,  aumentando assim a margem de lucro de seus produtores, que instalaram, por conta própria, 18 lojas no México, Estados Unidos, Espanha, França e Holanda.  Cerca de 60% dos US$ 4 milhões de dólares em  vendas, durante o ano de 2005, vieram do mercado internacional.

O Café da Selva tem como principal objetivo melhorar a qualidade de vida de seus associados, que lutam contra a pobreza e a marginalização através da ajuda mútua entre seus membros. Além disso, trabalha com um programa destinado a apoiar a produção de café e alimento orgânicos no planeta. Entre outros benefícios sociais,  que eles desenvolvem em Chiapas, destacam-se a construção de escolas, casas e o empoderamento das mulheres e homens indígenas. Para maiores informações sobre o La Selva Café consulte o seu web site: www.laselvacafe.com.mx

Ecoturismo Maasai

Participar do plenário da ONU com Ole Pentenya Yusuf Shani, liderança jovem do povo Maasai, do Quênia, foi outro momento inesquecível. Sua energia e empolgação nos inspiram a continuar trabalhando junto ao nosso povo Yawanawá. Ole coordena um projeto de ecoturismo, que preserva e protege o eco-sistema de sua terra natal. Um negócio que também rende  milhões de dólares para as comunidades Maasai, no Quênia.

O povo Maasai vive em Shompole Group Ranch, numa terra preservada de forma tradicional. Tem como atividade principal o pastoreio e criação de gado. Sua reserva preserva 80% da vida selvagem do Quênia. O ecoturismo rendeu, em 2006, US$ 9 bilhões de dólares. Os turistas que costumam visitar suas reservas são principalmente ingleses e norte-americanos.

Os Maasai vivem em total harmonia com os animais mais perigosos e exóticos da África. Possuem tradições e cultura muito fortes. Com uma população estimada em 10 mil habitantes, ocupam uma área de 62.700 hectares no Quênia. Seu projeto de ecoturismo tem como objetivo principal manter a integridade ecológica da reserva Shompole Group Ranch e melhorar a qualidade de vida de suas comunidades locais. Tem como meta conservar os recursos naturais e culturais do povo Maasai através de um ecoturismo sustentável.

Suas atividades de desenvolvimento social incluem os serviços de saúde, educação, pagamentos de salário dos professores  e bolsa para os estudantes Maasai. Garantem também água de boa qualidade para todas as suas comunidades. Além disso, dão apoio financeiro de pequeno e médio porte para mulheres e jovens empreendedores. Para maiores informações sobre Ole e o projeto de ecoturismo dos Maasai acessem o endereço: www.shompole.com

Projeto Sândalo

Outra figura importante que também participou desse fórum na ONU foi o nosso amigo Dr. Rich Valley, aborígine do povo Nyoongar, da Austrália. Além de ator, compositor e músico, ele trabalha com seu povo na exploração do “sandalwood”, amplamente usado na confecção de produtos cosméticos.

Há mais de  200 anos atrás,  os Europeus chegaram à Austrália com malas bem pesadas. Malas cheias de diferentes idéias, religiões e planos para a região e seus povos nativos. Os europeus buscaram logo apagar a marca dos povos aborígines, com objetivo de construir uma nova civilização. Eles derrubavam as árvores da terra e tiravam as crianças de suas famílias. Além disto, foram proibidos de praticar sua própria cultura e foram obrigatoriamente convertidos ao estilo de vida, cultura e religião dos europeus. Tudo com um propósito de tirar os aborígines de suas terras nativas. Eles são conhecidos atualmente como a “geração roubada”.

Esses primeiros anos de colonização dos aborígines australianos foram tempos muito difíceis, porque provocaram lutas violentas, desesperos e perdas. Porém, com o tempo, sopraram pequenos ventos de mudanças. Em 1976, uma lei intitulada “Ato de Direitos Territoriais Aborígines” abriu  caminhos mais justos para eles e suas populações nativas.

O povo Mardu de Kuktabubba, na Austrália, maneja de forma sustentável uma madeira que se chama “sandalwood”, ou sândalo, que é abundante em suas terras. Desde 2000, o povo Mardu estabeleceu uma parceria de negócio justo com a AVEDA. Comercializa, desde então, o sandalwood para a AVEDA fabricar seus perfumes e produtos de beleza. Usualmente os aborígines eram muito mal pagos pelo seu produto. Com a parceria da AVEDA, eles são agora bem remunerados.

Enfim, voltamos bastantes inspirados por termos tido a oportunidade de aprender e conhecer iniciativas de negócios sustentáveis de vários povos indígenas do mundo, dirigidas por eles próprios, compartilhando junto com seus parceiros empresários a idéia de que seus valores culturais e seus recursos naturais são únicos.

É obvio que todas essas parcerias comerciais tiveram que enfrentar muitos desafios ao longo do tempo. Mas também é obvio que a única maneira de confrontar esses desafios é trabalhar juntos para a preservação da natureza  e a dignidade dos povos nativos, com suas culturas e historias específicas. O verdadeiro respeito pela Terra Viva (Live Earth) é que torna um negócio sustentável, com sucesso tanto para as empresas quanto para as populações tradicionais do planeta.

 
 
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