| OPINIÃO | ||
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Carlos Melo * |
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Música para ouvidos cansados Reclamar é fácil; sair do labirinto é que são elas. Exige abrir diálogos, eleger parceiros, acumular forças, construir consensos. É a arte da política. Já a simples reclamação, na crença de transformar o “cidadão” em “cliente”, reduz a cidadania ao Procon, a um serviço de relacionamento qualquer. A política não entende essa linguagem, mais adequada a barões enfadonhamente cansados. O espaço de que a política se ocupa pede energia e disposição, não moleza. Nos últimos dias, assistimos a exemplos contraditórios: de um lado, o movimento “Cansei”, reativo e sem objetivo delineado; perdido na ilusão de realizar um protesto de massas, coisa para profissionais do ramo. Do outro lado, o ministro Nelson Jobim, que surgiu à cena como um raio de assertividade e autoridade, em tudo diferente dos vacilos e procrastinações habituais do governo Lula. “Cansei”, o nome dispensa comentários; possui virtudes possivelmente anuladas pelos próprios defeitos. Não há golpismo e o radicalismo é coisa démodé para seus líderes. Estão indignados, sim, e querem canalizar eleitoralmente a indignação; o que os norteia, porém, não lhes permite vôos mais ousados. O voluntarismo é grande, mas não se registra a mesma inconseqüência do PT de ontem, do “Fora FHC”. É certo que não engolem Lula e o PT, e ainda lamentam a sensaboria de Alckmin. Mas, daí até um golpe vai distância. Não há nada que os articule de verdade. Faltam lideranças que consigam arrebatar descontentes: não há Lacerdas e nem Levis para incendiar o ambiente e organizar “marchas” com deus e o diabo. Apesar dos pesares, é um avanço: não se quer e nem se pode virar a mesa. Todavia, até para reclamar é necessário fazer política, fragilidade maior do “Cansei”. Possuir temário relevante - a crise das políticas urbanas e a pouca atenção dispensada aos setores médios - não basta quando pouca ou nenhuma energia é politizada: não se aponta questões estruturais, não se indica quem se favorece delas e nem há a preocupação em encontrar soluções para além da tal “vontade política”. Perde-se bons argumentos apenas. Quanto a ser da “elite branca” - expressão de Cláudio Lembo adotada pelos petistas -, é fato que a inabilidade permitiu que à frente do “Cansei” se postassem alguns dos mais chiques e bem vestidos do país. Gravatas de seda e colarinhos ingleses, no entanto, não são bons símbolos para quem reivindica. Não se amassa barro com mocassins italianos; a massa desconfia. A essência do protesto se perde na sua estética e o PT explora isso. Até Ricardo Berzoini demonstrou graça e inteligência pouco comuns no seu caso: “Coisa do ‘Haddock Lobo’ ou do ‘Oscar Freire’”, disse a respeito. Demonizar as “elites”, no entanto, foi apenas estratégia esperta; saída pela tangente. Lula fizera algo parecido, no auge da crise do “Mensalão”. O que chama atenção é que agora tenha se socorrido tão rapidamente desse expediente. As vaias do Maracanã realmente o magoaram. Elegante, mas politicamente simplório, o “Cansei” limitou-se à exibição de umas poucas bandeiras e frases de efeito, articuladas pela internet. Perdeu-se oportunidade de mobilizar energias em benefício de uma pauta realmente importante: a qualidade de vida nos grandes centros e a ineficácia do Estado nos seus três níveis. Espaço para pressão haveria. Inexistem políticas para classe média que sofre “a síndrome do filho do meio”. Espremida entre o “primogênito” mimado e o “caçula” desprotegido, fica a míngua sem atenção. Haveria margem para discussão de reformas e negociação democrática. Políticas públicas para centros urbanos beiram à catástrofe, quando não chegam à catástrofe. Mas o cansaço mental... No cerne desta questão, estaria a visão, a organização e a gestão do Estado, mais decrépito e cansado que o “Cansei”. A insensibilidade estratégica, no entanto, corrói a idéia de política e nisto consiste nossa verdadeira tragédia: abrir mão de projetos; recorrer ao raso senso comum, despido da necessária complexidade do mundo. Falta sagacidade. Ir às ruas é fácil, difícil é ser ouvido. Sem propostas, gritos transformam-se em sussurros. * Cientista Político, doutor pela PUC-SP, Professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de “Collor: o Ator e Suas Circunstâncias” (Ed. Novo Conceito) |
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