| ALMANACRE | |||||||
| Elson Martins | |||||||
Pau na moleira Leila Jalul
E u tinha 14 anos quando o cinema caiu na minha cabeça. Não, isso não é uma figura de linguagem. Eu assistia à matinê dominical do Rink, em Campinas, quando um estalo ensurdecedor se sobrepôs ao som do filme. O teto do cinema desabou sobre a platéia. Quando recobrei os sentidos, minutos depois, havia escombros de gesso por toda a parte. Minha mão ainda segurava a mão de minha namorada. Mas ela estava estranhamente fria. Saí do cinema atônito e traumatizado. Caminhei sozinho até o pronto socorro, onde enfaixaram a minha cabeça. Ao todo, 13 jovens perderam a vida naquele desastre horrível. Seus corpos foram estendidos na calçada do Rink (...). Os fundos da minha casa davam para os fundos de outro cinema, onde havia um campo de bocha. A italianada jogava até tarde da noite, infernizando os ouvidos de minha mãe. A certa altura, aprendi a saltar do muro alto e penetrar no cinema através dos mictórios, colocando-me no chão, quase embaixo da tela. Ainda assim, os filmes não passavam de uma diversão como outra qualquer (...). Preferia as peladas. Ou as tardes passadas ao lado de meu pai no seu armazém, ajudando-o em alguma coisa, mas principalmente saboreando o movimento de compra e venda. Além de administrar o vulgo armazém do Pedrinho, meu pai, Pedro Luis Capovilla, cuidava de um sítio, ambos deixados pelo meu avô (...). Nasci a 16 de janeiro de 1936. O nome Maurice Carlos Capovilla sempre me intrigou pelo prenome francês. A admiração pelo ator Maurice Chevalier talvez explique essa escolha da minha mãe, Elvira, mas nunca cheguei a esclarecer completamente o mistério. O relato acima, do cineasta brasileiro Maurice Capovilla, está no livro A Imagem Crítica, de Carlos Alberto Mattos (Coleção Aplauso Cinema Brasil, Imprensa Oficial, São Paulo, 2006). Capô se expõe, nunca deixando de se dizer cinema e parte dele. Inclusive o tempo marginal, de amigos marginais, de cinema bandido, de tempos indiscutivelmente malvados, mais cruéis que os mais cruéis bandidos que povoaram as telas. Está tudo no livro sistematizado pelo Carlos Alberto. Bem dito, por sinal. Um falava de amor e o outro entendia de sentimentos. Uma bela fusão de imagens e palavras verdadeiras, sem copidescagem, sem sinonímias, sem inverdades, sem lero-leros. Nascido antes, quase muito antes da segunda grande guerra, o homem Capô é protagonista de seu filme-vida-desroteirizado, a não ser pelo destino de deixar que a cultura entrasse em sua vida pela cabeça, e não pelo rabo, como costuma acontecer com a pilantragem do cinema comercial. Segundo suas próprias palavras, reditas por mim, o fracasso tem cheiro e gosto de poesia. Cinema também é fracasso! E brasileiro não é tudo bonzinho. E cinema é caro e pede investimento. E cinema nacional, grosso modo, era ruim pra dedéu, som desvairado e aí lascava tudo. Mas Capô não se entregou ao vício da embriaguês (do álcool), preferindo ficar na cachacinha que rendia amigos, traumas e poucas alegrias..., desde que cinema. A produção de Capô, na tela, ultrapassa o tamanho de um rol de roupa de família numerosa. Seu mérito, no entanto, não se mede em metro, mas pela compulsão do fazer cinema ao alcance de todos. Um cineclube aqui, um curso ali, uma estada em Cuba, comunizada até no modo de ver o mundo de forma coletiva, de ver a vida e as emoções compartilhadas. Cinema-pão. Assim é o camarada Capô. Ter nascido em 36, batizado com prenome romântico francês, indiscutivelmente devido ao grande Chevalier, o faz ter, na atualidade, 72 bons anos de lucidez e entrega. Maurice Capovilla, que ainda dança um miudinho saltitante e sofre um nó nas tripas (vulgo diverticulite) que o invalida numas noites dedicadas ao puro “visque” Swing na comemoração de mais uma batalha, está no Acre às custas de um projeto da Funarte ensinando menino a “mexer” com cinema possível e retratador da vida. Isso me tornou dele uma admiradora, e da sua companheira Marília. Tem altas preferências por mim, eu sei, mas é de Marília, antiga mulher e Gilda de Mário Carneiro, o grande parceiro de escrever a vida na horizontal, seja em P&B, seja em cinemascope colorébio. Ela decupa, ele a desculpa pelas falhas, numa harmonia matemática como a de quem dança como Fred Astaire e Ginger Rogers, nas chuvas, nas tempestades e nos palcos da ilusão. De alunos e astros amadores perdoa a ignorância do não saberem estar contaminando a platéia ávida e desesperada, exatamente por não terem vivido o tempo do bem bom de retratar, mas com a determinação de fazê-lo, ainda que às avessas. Cinema realidade. Cru. Nem sempre bem cheiroso. No meu último e não derradeiro encontro com Capovilla, estivemos no meu cine privê, o Cine Alcova, na rua do meu quarto. Ali assistimos, com direito à penumbra e palmas ao final, a “avantipremiérri” do grande sucesso que ainda vai ser o primeiro “curta” que retrata o começo de um Estado enjoado do nosso país, desde os primórdios de sua colonização – o Acre e sua população, formado na base da jabá (charque) e do quibe cru. Primeiro que tudo, a preleção. Disse-me, em tom paternal moderno, que o filme não estava nem bom nem ruim. Desenhou as vantagens e as desvantagens de ser o primeiro, mas, por ser verdade, destacou a minha atuação em ter unido passado e presente de forma realista e nem sempre carinhosa. Apenas o trilhar direito e sem sinuosidades do encontro entre os homens do Saara com os do sertão do Cariri, e a relação estreita da espiritualidade existente entre Maomé e o Padim Pade Cíço do Juazeiro. Alguma dificuldade em entender essa tola equação estranha e amorfa? Tudo tão simples! Tendo que terminar este texto, por dever de ofício, duas palavrinha sobre Marília, ditas pelo Maurice: “Marília tem sido minha sócia produtora, montadora, incentivadora do meu trabalho e, mais do que isso, minha querida companheira de tantos anos. Nunca me arrependi daquele gesto ousado de pedi-la ao Mário, numa demonstração do fraterno respeito que tinha pela amizade que os unia e que perdura até hoje. Tempos depois, fiz o mesmo com Paulo Alvim, seu pai, após 16 anos de vida em comum. Em 1998 resolvemos nos casar, com aliança e papel passado. Neste percurso de vida que se traçou até agora, creio que aprendi certas coisas importantes como ter consciência de minhas limitações, adequar minhas idéias aos meios disponíveis, viver sem ressentimentos, sem culpa ou nostalgia do passado, satisfeito com o tempo vivido e o trabalho realizado. Aprendi, principalmente, a considerar cada vez mais a amizade e a solidariedade como bens únicos e insubstituíveis. E também olhar o futuro como se a vida estivesse apenas começando”. Não ousaria colocar título num filme sobre Maurice Alberto Capovilla. Rendo-me.
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