OPINIÃO
   VARAL DE IDÉIAS

Marcos Afonso

 

PARA O JOÃO SENA…

Dizem que eu estou ficando a cara do meu pai.

Deve ser elogio ou saudade mesmo.

Fico garimpando a mente em busca das lembranças mais antigas e a primeira coisa que me vem é a velha casa com duas águas, de madeira e telhas de barro, a longa varanda virada para as tardes e a rua que dava para o aeroporto.

A rua me encantava. Nem tanto pelos aero wiles, rural e jeeps que passavam. Mas pelos tufos de capim verde-amarelados que cresciam nela, desafiando os pneus.

O quintal era uma imensidão ainda por ser explorada. Da cozinha, ficava vendo as árvores escondendo as luzes do sol, criando zonas de mistérios distantes.

Era daquelas casas com janelão na frente, com quartos e cozinha interligados e duas portas laterais.

Dizem, também, que quando eu era bebê chorava feito um desesperado sintonizando, com grilos e rãs, homéricas noites atormentadas.

A cadeira de embalo, com madeira e fibra vegetal era alvo de disputa febril entre minha irmã e eu. Ela tinha majestade. Mesmo puída e com os arcos desgastados, transformava-se num trono de onde se via o mundo quando nossos pés ainda nem tocavam o assoalho.

Eu adorava aquela cadeira. Principalmente depois de saber que nela meu pai havia atravessado as noites, na luz da lamparina ou do Aladim a querosene, movendo sombras dançantes pelas paredes, tentando conter meus choros infindáveis. Que rosto eu via?...

Meu pai aprendeu a fazer comércio (soube que ele arrendou um ponto famoso de Rio Branco, o “Bar Xapuri”), o que justificava a existência de um botequim do lado da casa, de vida tão efêmera que hoje para mim não passa de um pálido lampejo.

Minha infância foi a casa. Tanto, que uma das maiores emoções da minha vida foi a de ter tido “coragem” de atravessar a rua, e isso só aos sete anos, e de tê-la contemplado tão de longe pela primeira vez. Linda! Sem pintura, mas meio azulada, como ficam as tábuas cansadas do sol. Sem adereços importantes, mas devidamente guardada por duas espadas de São Jorge nas extremidades das biqueiras. Linda, por ser tão simples.

Quando meus ombros já duelavam com os joelhos do meu pai, ele pegava minha mão e conduzia-me ao passeio encantado dos domingos. Eu, calção azul de elástico, blusa de murim com botões brancos e sandalinhas japonesas. Descíamos a ladeira e mais na frente apertava a sua mão, nervoso, porque passaríamos na frente do “abrigo” das crianças pobres (eu tinha medo de ir para lá). Aí, vinha o prédio da Saúde, do Hospital de madeira e logo depois do Instituto São José, subíamos um barranquinho que dava acesso à lateral da Catedral, para assistirmos à missa de incenso e coisas ininteligíveis, mágicas e fantasmagóricas para mim.

Depois da missa, quando as pessoas se espalhavam, íamos ao mercado velho, tomando cuidado para desviar das lacerdinhas dos benjamins que ficavam na frente do Palácio. Na rua das Catraias, passávamos por uma casa verde-escuro especial: “A Normalista”, papelaria e livraria que tinha uma atendente que eu admirava muito: uma moça morena, alta, de sobrancelhas preocupadas e, por vezes, sorrisos francos.

No porto, depois de descer a longa escada, eu ficava torcendo para que o meu tio-avô Otávio, que veio do seringal Maranguape, fosse o catraieiro da vez. Ele remava com leveza, poder e domínio. Adorava o som dos remos mergulhando nas águas esverdeadas do rio estreito e quase seco, além do balançar do toldo branco sobre as nossas cabeças (que parecia uma vela de barcos sem ventanias e virgens de mar). Aí, subíamos a escadaria “do outro lado”, passávamos pelo tacacá do Chicute (que só abriria pela tarde) e entrávamos no Paraíso: o sítio dos meus avós (onde hoje é o Parque Capitão Ciríaco), de árvores encantadas, seringueiras, cacau, cupuaçu, e almoço na casa altíssima, sentindo o tempero da lenha no arroz e vendo a copa das árvores à altura das nossas mãos... E meu pai rindo em uma das cabeceiras da mesa.

Conheci o olhar do Orgulho quando estava com um “corte raso”, recruta, tufinho de cabelo na cabeça, porque foi ali que senti a mão dele me acariciando, enquanto falava para os amigos, na frente da Casa Zeque, que eu já iria estudar, com seis anos! Conheci o olhar da Satisfação quando, andando pelas ruas do comércio de Guajará Mirim, consegui ler, ao seu lado, o primeiro nome da minha vida: “bazar”. Conheci o olhar de Riso, quando por mim mesmo decifrei para ele o enigma do Papai Noel, descendo a ladeirinha do Cine Biriba, no Papoco, entre os mistérios da pobreza e tristeza humanas daqueles casebres. Conheci o olhar de Dor quando ficamos, eu e minha irmã, quase sem os presentes de um Natal distante, e o olhar da Apreensão quando ele nos colocou, aos nove, dez anos, para trabalhar, cuidar, de um comércio que havia montado.

Conheci olhares e silêncios, porque conversávamos pouco.

E conversamos menos ainda depois que ganhei consciência e entrei na militância política contra a Ditadura Militar. Como a minha mãe, ele receava em perder a autoridade e, com isso, oferecer menos proteção. Ele temia que eu fosse preso, ficasse “marcado”, arruinasse a vida. Reclamou quando desisti do curso de Direito e entrei de cabeça no mundo da política. Mas foi me acompanhando discretamente enquanto eu ia me tornando uma liderança estudantil, as pessoas falando, comentando, saindo nos noticiários.

Difícil foi quando me declarei comunista. Lembro da testa enrugada, olhos baixos, o coçar nos cabelos, do “mas, rapaz, tu vai te meter logo nessa?...” Acho que para ele era o fim do caminho, enquanto para mim, o começo da estrada.

Com o passar dos anos ele constituiu nova família, sentiu os ares da democracia que chegava ao Brasil e, com isso, ampliou sua tolerância e compreensão.

Um dos maiores orgulhos que ele me deu foi quando saí candidato a Vereador pelo Partido Comunista do Brasil, em 1988. Mesmo sem nenhuma, absolutamente nenhuma, chance de vitória, ele se dispôs a me acompanhar no dia da eleição. E fomos juntos. Mesmo com sua discrição e timidez, ele me acompanhou nas sessões, fez boca de urna, distribuiu santinhos e cédulas. Ele sabia que eu não ganharia, mas quis ficar do meu lado, me fazendo vitorioso. E isso era o que importava para nós dois...

Dez anos depois, em 1998, quando ele já estava “Jorge Viana”, se entusiasmou muito com a possibilidade de eu me eleger deputado federal.
Eu já tinha sido eleito vereador (1992), candidato a Federal em 1994 (perdi por 14 votos de legenda), e vinha de uma derrota para a Prefeitura de Rio Branco por uma diferença ridícula de 3%.

Ele estava entusiasmado. E eu todo alegre por poder dar para ele uma grande vitória.

Mas aí, o câncer se instalou em uma de suas pernas.

Em plena campanha, com a compreensão dele e de meus irmãos, eu só podia passar os domingos ao seu lado. Podia haver o melhor comício, a maior atividade, eu cancelava, não participava, ficava com ele... E foi assim que voltamos a conversar naquelas tardes quentes e tristes...

Perto de dois meses antes das eleições, meu pai partiu num entardecer, enquanto eu dava uma palestra para estudantes.

Eu o havia visitado minutos antes no hospital.

No meu íntimo, sentia que ele tinha pouquíssimo tempo.

Aquela palestra eu dei para ele, com um nó imenso na garganta. Queria que ele partisse me vendo falando para os estudantes...

Fui eleito o Deputado Federal mais votado da história do Acre, até então. E o Jorge Viana ganhou o Governo. E a nossa geração começou a fazer história.

Mas quando, pela primeira vez entrei no Plenário da Câmara, já como Deputado Federal eleito, foi para o meu pai que meu pensamento se dirigiu. E eu o senti ao meu lado enquanto caminhava aos microfones, do mesmo modo, do mesmo jeito, como naqueles domingos em que ele me conduzia à missa e ao almoço nas alturas...

Meu pai se chamava João de Sena Souza. Ele nasceu no Seringal Pirapora, Amazonas. Foi funcionário público da Secretaria de Educação e do MOBRAL. Teve sete filhos: Eu, Sônia, Neuma, Alessandra, Fabrício, Rafael (in memoriam) e Larissa. Todos com saúde.
 

 

Esta é a resposta à CARTA-DESAFIO que fiz para a Leila Jalul para que ela escrevesse um romance sobre a Macondo riobranquense. Respondo dizendo que fui convencido, querida amiga, especialmente depois que o Elson Martins propôs a publicação de um livro teu com crônicas que se interliguem. Genial idéia!
Beijos meus e da Patrycia.

PS: o site do escritor Lima Coelho (excelente por sinal) é este, basta escrever o nome Leila Jalul e lá estarão suas crônicas e comentários: www.limacoelho.jor.br

 

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Rio Branco-AC, 10 de agosto de 2008
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