COTIDIANO

“Fui eu”

Jorge Dutra confessa participação na fraude do vestibular da Ufac e chora na saída do tribunal

Regiclay Saady
Dutra é considerado o líder da
quadrilha de fraudadores que
atuava no Acre e outros Estados


Val Sales

Durante quase três horas, Jorge Nascimento Dutra, 43, permaneceu sentado em frente ao juiz Jair Facundes, na sala de audiências da 3a Vara da Justiça Federal. O homem apontado como o líder da quadrilha que fraudou o vestibular da Universidade Federal do Acre (Ufac), em 2002, confessou ontem sua participação na empreitada e chorou copiosamente na saída do tribunal.

Sentindo-se sozinho e detido há 60 dias no Presídio Estadual de Rio Branco, Jorge Dutra pediu a antecipação da audiência que estava marcada para o dia 18 deste mês e compareceu ontem à 3a Vara da Justiça Federal acompanhado dos advogados Mauro Albano e Paulo Diógenas.

Falando baixo e pausadamente, Dutra disse que agiu na fraude do Acre em parceria com o dentista Divino Inácio Ferreira. Que o equipamento eletrônico seria seu, mas parte dos alunos contratantes do serviço teria sido agenciada por Divino, o que representava a divisão dos lucros.

Para driblar a freqüência da Anatel, a quadrilha usou um freqüencímetro. Na ocasião, segundo ele, os alunos ficaram assustados quando viram a segurança da empresa no pátio da universidade, mas logo foi percebido que o aparelho usado por eles estava fora do alcance de freqüência”, lembrou Dutra.

Em relação aos automóveis transferidos para o nome da mãe, Geralda Francisca Dutra, o acusado disse que estava com muitos pontos na carteira de habilitação e preferiu fazer a doação para a genitora. “Isso não foi feito na intenção de burlar a Receita Federal nem para esconder bens”, assegurou o réu.

Durante o depoimento surgiu o nome de outro possível empresário do ramo, o advogado goiano Ziziel Jonas da Silva, 48 anos. Ele havia sido apontado como sendo um dos agenciadores da organização. No entanto, Dutra lembrou que Ziziel era uma espécie de concorrente no serviço e que teria passado a fraude de 2002 da Ufac para o esquema dele através de Divino Inácio.

Pedido de liberdade pode ser aceito

Em face da colaboração prestada por Jorge Dutra para o total esclarecimento, passando a se caracterizar como réu colaborador, seus advogados pediram a liberdade provisória do acusado. Além disso, foi pedida também a liberação de seus bens, especialmente os financeiros, sua nomeação como depositário e autorização para retornar ao seu município de origem. Com fundamento nessa colaboração prestada ele pleiteou também o perdão judicial.

Diante disso, o juiz Jair Facundes determinou que o pedido seja visto pelo Ministério Público Federal (MPF) no prazo de 24 horas. Ainda diante do réu ele afirmou: “Você demorou muito a colaborar. Já poderia até estar solto”. Facundes disse que iria analisar os pedidos e se manifestar em breve. Já o procurador da república Marcos Vinícius de Aguiar se mostrava satisfeito com o andamento do processo. “Hoje, ele, que é o principal envolvido na fraude, disse o nome dos demais envolvidos e apontou os nomes de quem pagou pelo serviço.”

A defesa de Dutra espera sua liberação para os próximos dias. O outro participante confesso do esquema de fraude, Rosirley Lobo pode ser liberado do presídio ainda hoje, uma vez que o MPF se manifestou em favor do seu pedido de liberdade.

 

 
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Rio Branco-AC, 10 de novembro de 2004
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