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Sandra Starling * |
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Impressionada com incêndios criminosos que destruíram abrigos de asilados em Rostock, na Alemanha, em 1992, resolvi estudar um pouco o tema da emigração. Assim, há aproximadamente dez anos, acabei lendo a edição brasileira de “O Império e os Novos Bárbaros”, escrito por Jean-Christophe Rufin, um especialista naquilo em que, nas ciências políticas, convencionou-se chamar relações “Norte-Sul”. Embora o texto possa ser criticado em algumas passagens, ajuda-nos a entender os atentados do 11 de Setembro nos EUA, bem como os conflitos que ocorrem, no momento, na França. Aliás, enquanto escrevo, ouço que os quebra-quebras já atingem algumas cidades da Bélgica e da Alemanha. Poucos meses atrás, atentados contra a comunidade islâmica sacudiram a sempre liberal Holanda. Ainda que a União Européia venha se esforçando em conter as ondas de imigrantes vindos da região do Magreb (Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia), da África sub-saariana, da Turquia ou do Leste Europeu, a situação parece ter chegado a um ponto insustentável, no que diz respeito aos conflitos étnicos, religiosos e culturais. Mas, afinal, quem são esses manifestantes? São, via de regra, jovens nascidos no continente europeu, filhos de imigrantes, aos quais são negadas oportunidades de emprego por motivações discriminatórias. Seria difícil imaginar que os impérios coloniais, depois de promoverem o seu padrão “civilizatório”, em termos sócio-econômicos, não viessem a se converter em pontos de atração para populações que tiveram suas tradições destroçadas, suas riquezas dilapidadas, suas organizações políticas substituídas por modelos institucionais artificiais. O fato é que para o Norte, o Sul só interessa, enquanto fonte de suprimento de matérias-primas de que não dispõe, daí a posição estratégica do Oriente Médio como fornecedor de petróleo; mercado de armas para guerras fratricidas, como bem retrata o filme “O Senhor das Armas”, estrelado por Nicolas Cage; ou, ainda, como zona de experimentações suspeitas, como, a propósito, nos conduz à reflexão “O Jardineiro Fiel”, obra de John Le Carré, levada às telas pela direção competente de Fernando Meirelles. No caso específico da Alemanha, que fracassou em suas aventuras imperialistas, em 1918 e em 1945, o problema se repete. Durante o chamado milagre econômico da década de 60, enormes contingentes de turcos foram atraídos para trabalhar como “Gastarbeiter”, isto é “trabalhadores convidados”, auxiliando a suprir a demanda por mão-de-obra necessária para impulsionar o desenvolvimento que se verificava. Apenas no ano 2000 veio a ser reconhecida a cidadania alemã, com base no princípio jurídico do jus soli, aos filhos e netos desses e outros imigrantes, nascidos em território alemão e educados em língua alemã. Curioso, é que, embora rejeitem os “novos bárbaros”, os europeus deles precisam para sustentar atuarialmente os seus sistemas previdenciários. Isso para não falar no encantamento que latino-americanos e africanos levam aos gramados de futebol, a ponto de provocar o pronunciamento da Corte de Justiça Européia, em Luxemburgo, sobre o grau de “nacionalização” das escalações que as equipes devem observar! É questão que dá o que pensar. Esses entreveros fazem emergir o que de menos civilizatório a Europa Ocidental já ofereceu ao mundo: racismo, fascismo e nazismo. Jean-Marie Le Pen, o líder da ultra-direita francesa, já colocou a boca no trombone. Para os que amam a liberdade, a igualdade a fraternidade, está na hora de agir: sem uma política de efetiva integração e tolerância o pior ainda estará por vir. * Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC) |
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