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| Continua a luta para a erradicação da hanseníase Tião Viana anuncia liberação de mais de R$ 1 milhão para melhorar a vida de internos em colônias e casas de ajuda de Rio Branco e de Cruzeiro do Sul |
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O médico e senador Tião Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado, anunciou ontem, em Rio Branco, que o Ministério da Saúde liberou R$ 1,1 milhão para investimentos nas duas maiores colônias e casas de ajuda a portadores de hanseníase existentes no Acre - a Souza Araújo, em Rio Branco, e a Ernani Agrícola, em Cruzeiro do Sul - e para investimentos em campanhas que visam a erradicação da doença no Estado e no país até o fim de 2006. O anúncio foi feito durante visita do senador à colônia Souza Araújo, acompanhado do cantor e compositor Ney Matogrosso, que trabalha desde o ano 2000 na promoção do conhecimento de que a hanseníase tem cura, com uma série de campanhas de combate e esclarecimento sobre a doença. O artista revelou que seu contato coma doença começou na época em que ele morou em Brasília, muito antes de integrar o grupo Secos e Molhados, na década de 70, quando trabalhou na área de saúde. Também veio a Rio Branco a coordenadora nacional do Ministério da Saúde para o Programa de Eliminação da Hanseníase, Rosa Castalia, além do presidente nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Arthur Custódio. Castalia revelou que os recursos para humanização das casas de ajuda aos hansenianos que estão sendo liberados fazem parte de um projeto apresentado ao Ministério da Saúde pelo senador Tião Viana. O valor do projeto é da ordem de R$ 800 mil. Os R$ 600 mil, que já estão na conta do governo do Estado, fazem parte da primeira parcela.
Sala de Memória preserva a memória do fundador do Morhan No fim da tarde de ontem, antigos companheiros de lutas e de infortúnios por conta da doença, além dos familiares e amigos do fundador do Morhan no Acre, Francisco Augusto Vieira Nunes, o "Bacurau", reuniram-se para homenageá-lo no dia em que ele completaria 66 anos de vida. As homenagens foram feitas com a abertura à visitação pública da Sala de Memória Bacurau, uma exposição permanente no lugar onde ele viveu, no Conjunto Castelo Branco, Quadra 3, Casa 30. Entre os amigos do ativista estavam, por exemplo, o governador Jorge Viana, o senador Tião Viana Viana, o padre Leôncio Asfury e a ex-vereadora Francisca Marinheiro. Tião Viana acompanhou, como médico, os últimos momentos do ativista. "Ele era um gigante na luta por um mundo melhor", disse Tião Viana ao homenagear o amigo. "Quando já estava desenganado, em São Paulo, ele disse que queria vir para o Acre, morrer em casa, porque aqui poderia ouvir, pelas manhãs, o canto dos sabiás num mamoeiro no fundo de sua casa. Isso dá o exemplo do tamanho da sensibilidade de um homem que passou pelas piores agonias que pode passar um ser humano", lembrou o senador. O governador Jorge Viana disse que participou, ao lado de "Bacurau", de muitas lutas na área política. "Apesar de todas as mutilações, apesar de todo o sofrimento, ele demonstrava pressa em ver as mudanças que hoje estamos vivenciando no Acre. Quando a gente ainda não estava no Ggoverno, ele cobrava pressa para chegarmos ao Governo para realizar as mudanças que ele julgava necessário. O que está acontecendo neste Estado, fruto da luta de tanta gente, é também um pouco da realização dos sonhos do Bacurau, uma das pessoas mais extraordinárias que já conheci", disse o governador Jorge Viana ao cantor Ney Matogrosso, que também se emocionou com as histórias do ativista. "É incrível como a gente aprende tanto com essa gente. Saio do Acre cada vez mais convencido de que precisamos lutar cada vez mais para acabar com essa chaga que é a Hanseníase. Este era o maior sonho do Bacurau e nós precisamos realizá-lo", disse Matogrosso. "Bacurau" fundou o Morhan em 1981, passando de ex-paciente para ativista de combate à doença. Ele morreu em 12 de janeiro de 1997, aos 57 anos, de câncer no pulmão, deixando o Morhan como legado de sua luta. O movimento hoje tem representações em 24 Estados do país, por meio de seus núcleos, e atinge mais de 100 comunidades. É a primeira organização formada no mundo por pessoas que tinham hanseníase e voluntários mobilizados em busca da eliminação da doença e em combate ao preconceito em torno dessa enfermidade. Entre os voluntários, destacam-se anônimos e artistas como Ney Matogrosso, Ney Latorraca, Solange Couto, Lino Vilaventura, Siron Franco, Targino Gondim, Karla Karenina e Elke Maravilha. "Quando contraímos a doença, contraímos também uma nova identidade" A Casa que visa preservar a memória de "Bacurau" é uma iniciativa do acadêmico de História Daniel da Silva Klein, financiada com recursos da Lei de Incentivo à Cultura da Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour, cujo objetivo é resgatar a história das pessoas envolvidas com o movimento popular, como foi o caso do ativista. "Contrair a hanseníase não é apenas contrair uma doença que agride os nervos periféricos, contraímos também uma nova identidade que, não raro, é muito pior do que a doença em si. Até porque quando se diz 'fulano é leproso', está-se atribuindo a ele um estado permanente. Não se compara com 'fulano está com hanseníase'", disse o ativista certa vez em referência ao principal estigma da doença contagiosa que leva à deformidade. Amazonense de Manicoré, ele morreu em 1997. Passou 21 anos internado em três hospitais-colônia - em Rondônia, no Acre e em São Paulo. Tinha cicatrizes e mutilações de duma doença que deixa marcas físicas e pisicológicas em suas vítimas, mas isso não o impediu lutar pela eliminação do enorme preconceito criado em torno de um mal que remonta os tempos bíblicos - o Antigo Testamento tratou a lepra (nome original da hanseníase) como castigo divino e o Novo Testamento, ao testemunhar os milagres de Jesus Cristo, faz referência ao fato de que um deles foi a cura de um portador da doença. "O nosso desafio é acabar com essa doença até o fim do ano que vem", diz senador De acordo com o senador Tião Viana, com os recursos assegurados e com os trabalhos de melhorias nas duas colônias prestes a ser iniciados, as autoridades estaduais de Saúde terão os próximos anos de tranqüilidade em relação à doença porque serão oferecidas condições de dignidade satisfatórias em relação às pessoas que habitam esses lugares. Em Cruzeiro do Sul, a colônia local abriga nove pessoas internadas e em Rio Branco o número é de 45. "A liberação desses recursos foi um ato de contribuição do Ministério da Saúde, atendendo um pleito nosso e do próprio Estado. Também é importante ressaltar a liberação de R$ 460 mil para ações que visam a eliminação da doença no país até o ano que vem", disse Tião Viana. "Esse é um momento de desafio para a equipe de dermatologia sanitária do Estado e nós vamos ter, no ano que vem, se Deus quiser,a proclamação de que o Acre eliminou a hanseníase", acrescentou o senador. Para a eliminação da Hanseníase no país como problema de saúde pública, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), é necessário reduzir a prevalência da doença para menos de um caso a cada grupo de 10 mil habitantes. Hoje, o Brasil apresenta taxa de 3,88/10 mil. Em alguns estados, este número chega à cerca de 20. Com relação à detecção da hanseníase, o país tem registrado, em média, 42 mil novos casos anualmente. No ano passado, foram registrados 45 mil novos casos. A hanseníase já foi eliminada no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Já São Paulo, Rio Grande do Norte e Distrito Federal estão próximos da eliminação. Há 20 anos o Acre era campeão em hanseníase no país. Na época havia registro de 110 pacientes para cada grupo de 10 mil habitantes. De lá para cá houve uma diminuição de 95% dos casos e a proporção baixou para 5,1 casos para 10 mil habitantes. Os grandes eixos do plano para eliminação da doença são identificar novos casos e garantir o acesso ao tratamento para todos os pacientes. Além disso, todas as pessoas que já têm hanseníase deverão ser curadas. O tratamento é feito gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e dura de seis a doze meses. A principal estratégia do Ministério da Saúde é a integração das ações de diagnóstico e tratamento da doença na atenção básica. Isto significa que as equipes do Programa Saúde da Família (PSF), Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e todas as unidades do SUS passam a integrar a rede de atendimento ao paciente, facilitando o acesso universal ao diagnóstico e tratamento. De acordo com Rosa Castalia, também integra a estratégia do Plano a organização das redes hospitalares de alta e média complexidade para atenção aos pacientes portadores de incapacidades ou deformidades físicas decorrentes da doença. Isto viabilizará o acesso dos pacientes aos procedimentos de reabilitação, como cirurgias reparadoras e próteses. O Ministério da Saúde está trabalhando ainda para reestruturar os 36 hospitais colônias que abrigam pacientes com hanseníase no país, incluindo os dois do Acre. A situação de cada um é diferente e peculiar. Alguns ainda são hospitais e podem se transformar em hospitais gerais, que atendam, inclusive, os pacientes com hanseníase. Outros são asilos, que dão abrigo a pacientes que perderam seus laços sociais e familiares após o diagnóstico da doença, como é o caso de Maria de Fátima da Silva, de 55 a nos, que vive na Souza Araújo há mais de duas décadas. Ela sonhava em ser freira, mas ao descobrir-se portadora da doença, em Tarauacá, foi logo enviada para Rio Branco e passou a ser mantida na Souza Araújo. "Vivo aqui há muito tempo e, apesar de tudo, eu posso dizer que sou feliz. Tenho Deus no coração e trabalho, lavo minhas roupas, faço meus crochês;. Meu único vício é jogar baralho", disse, rindo. William Woods, um missionário na luta contra a doença O Ministério da Saúde voltou a homenagear o sanitarista William John Woods, irlandês que se formou médico no Brasil e que trabalha no Acre há pelo menos duas 35 anos em combate à doença. Seu trabalho consiste implementação de ações de diagnóstico, tratamento e reabilitação física e social dos portadores de hanseníase em áreas de difícil acesso. Em homenagens anteriores, o Ministério da Saúde lembrou de personalidades como o médico Diltor Vladimir Opromolla, respeitado no Brasil e no exterior por sua contribuição para a descoberta da cura da cura da hanseníase, do cantor Ney Matogrosso, que trabalha para promover o conhecimento de que hanseníase tem cura, contribuindo decisivamente para a eliminação desta doença no Brasil, e de Arthur Custódio de Sousa, o presidente nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (MORHAN). A homenagem a Willian John Woods foi prestada no último dia primeiro de dezembro, durante a 5ª Mostra Nacional de Experiências Bem Sucedidas em Epidemiologia para Controle de Doenças (Expoepi), uma ação do Ministério da Saúde. William Woods chegou ao Brasil em 1960 e desde 1965 atua no combate à hanseníase, cujo trabalho foi iniciado em Lábrea e Canutama, no interior do Amazonas. Desde janeiro de 1979 ele trabalha em Rio Branco e é a maior referência estadual no combate à doença. Por seu trabalho dedicado no Brasil, William Woods foi condecorado pela rainha Elizabeth, da Inglaterra, como Cavaleiro da Ordem do Império Britânico. A condecoração ocorreu há sete anos. |
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