ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins


Mutirão contra jagunços
entra na minissérie “Amazônia”

Foi uma corrida e tanto que 300 trabalhadores rurais do Acre deram ao bando de jagunços que atormentavam mais de 50 famílias de posseiros da BR-317, a 38 quilômetros da cidade amazonense de Boca do Acre. O fato aconteceu em meados de 1979 e foi um marco da organização e força da luta dos seringueiros e posseiros contra o desmatamento da floresta. A novelista acreana Glória Perez manifestou que o acontecimento não pode ficar de fora da minissérie “Amazônia - de Galvez a Chico Mendes”, da TV Globo, que começa a ser exibida em janeiro.

Glória Perez pediu aos seus auxiliares de pesquisa que busquem informações sobre o maior “empate” feito na década de setenta nesta região. Um registro amplo pode ser encontrado na edição número 16 do jornal alternativo Varadouro, de Rio Branco, que circulou em outubro de 1979. Está nas páginas centrais do jornal sob o título “O grande mutirão contra jagunçada”, que eu mesmo escrevi após acompanhar a organização e desfecho do “empate”. A matéria abre assim:

“Eram sete horas da manhã de domingo, 2 de setembro, quando foi dado o sinal de partida. O acampamento dos jagunços ficava a pouco mais de um quilômetro do local do mutirão com mais de 300 seringueiros e posseiros. Havia também o acampamento dos peões, mais próximo. Os trabalhadores se dividiram em dois grupos e marcharam decididos, enchendo o estirão da BR-317, a 38 quilômetros de Boca do Acre”.

“Contra as armas modernas dos jagunços, eles portavam apenas terçados e foices: ‘Não somos bandidos’, diziam como palavra de ordem. ‘Queremos paz e justiça. Queremos fazer valer nossos direitos’.”

Os chefes da jagunçada correram para o mato e foram socorridos pelo fazendeiro João Sorbile, conhecido por “Cabeça Branca”, que mantinha um avião monomotor pousado na estrada a alguns quilômetros dali. Mas outros não escaparam: os trabalhadores prenderam o apontador José Gonçalves Amorim, conhecido por Zezinho, o empreiteiro Manoel Adriano e seu auxiliar Gutemberg, que carregava uma valise cheia de dinheiro, além de 20 peões que trabalhavam no desmatamento da área dos posseiros.

Em poder de Zezinho foram encontradas cinco armas, entre rifles e espingardas, e um saco de munições. Segundo declarações do prefeito de Boca do Acre à época, Waldir Ávila, os jagunços usavam também armas mais pesadas: “À noite, o que mais se ouve são rajadas de metralhadoras, que eles dão para amedrontar os posseiros”, disse ele.

O conflito, que se arrastava há dois anos, foi criado pelo fazendeiro sul-matogrossense Elias Zarhan. Ele se dizia dono das terras ocupadas pelas famílias rurais, embora o Incra e o prefeito as considerassem devolutas, ou seja, públicas. O fazendeiro conseguiu junto à Justiça do Amazonas, por duas vezes, o despejo das famílias, que resistiram com apoio da Igreja e da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).

Indignado com a decisão judicial, em 1979, Zarhan resolveu contratar jagunços para expulsar as famílias à bala. “Eu ia plantar uns pés de laranja em volta do meu barraco quando apareceram cinco jagunços e disseram que o sujeito que plantasse um só pé de planta naquelas terras, eles arrancariam a cabeça com uma bala” – disse o posseiro Antônio Tomaz.

Num clima de violência e medo, sem lei e sem ordem em toda Boca do Acre, o técnico da Rede Amazônica de Televisão, Pedro Castillo, que trabalhava na repetidora da TV Globo na cidade, tomou para si as dores dos posseiros e fez um documento que enviou às autoridades do Acre denunciando o fazendeiro e pedindo proteção para as famílias ameaçadas. Por conta disso foi preso pelo juiz local e, quando foi solto no dia seguinte, trocou a TV pela luta sindical.

Castillo veio a Rio Branco, juntamente com outras lideranças sindicais, pedir ajuda dos sindicatos acreanos. O “empate” foi organizado sob o comando do sindicalista Wilson Pinheiro, de Brasiléia, após uma reunião realizada na Igreja Nossa senhora da Conceição, no segundo distrito de Rio Branco.

A ação na BR-317 foi uma demonstração de força dos trabalhadores rurais, tanto que Wilson Pinheiro se sentiu encorajado e mandou um recado para os fazendeiros da região: dali para frente não iam permitir que fosse derrubada uma única árvore no Acre. Como resposta, num encontro da Sudhevea promovido em Xapuri, um seringalista anunciou que então “haveria muitas viúvas”. Em julho de 1980 Wilson foi assassinado.

Pedro Castillo continuou como sindicalista tornando-se presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Boca do Acre e, posteriormente, do sindicato de Rio Branco. Nos anos oitenta tentou entrar para a política mas foi acusado de “pelego” amigo de fazendeiros.

Esta semana (sexta-feira, 8) eu que o entrevistei em 1979 durante o mutirão contra a jagunçada, o encontrei em Rio Branco e o entrevistei novamente. É agora um homem queixoso e descrente do poder que ajudou a construir. Sobrevive como parceleiro do Incra no projeto de assentamento Alcobrás. Perguntei qual sua opinião sobre a situação dos sindicatos nos dias de hoje e sua resposta foi seca e desesperançosa:

- Não existe mais nada como antes. Está tudo entupido!


CABOCHÁ

Leila Jalul*

Cada terra com seu fuso, cada povo com seu uso. Cada doido com sua mania. Disso eu sei. Minha mania era por banheiros, conhecer banheiros, com seus azulejos, pias de mármore, espelhos de cristal.

Quando pequena, se me colocassem em xeque entre Paris e um banheiro bonito, daria preferência ao banheiro. Um banheiro iluminado tinha mais magia que a cidade luz. Eu lá sabia onde estava Paris. Meu negócio eram os banheiros.

Os mais bonitos eram os com porte de toucador. Enchiam os olhos, davam orgasmos. Menina também tem êxtase. O meu era ver aquelas toalhas brancas, bicos de crochê, sabonetes Phebo, pretinhos, lisinhos, que espalhavam a pureza legítima dos aromas do Pará: patchouli, priprioca... Banheiros, berços de ninfas, paraíso das messalinas.

Agora, confesso a tara. Doida, doida mesmo eu ficava, era quando via aqueles vidros ofuscantes de Fleurs de Rocailles, Nuit de Noel, L’amant da Coty, Promessa, da Mirurgya, Madeira do Oriente, com aquele pauzinho dentro, Accua de Cologne Regina, com direito a catedral de Colônia impressa no rótulo, vidros de Água Velva etc.

O que tinha dentro deles, pouco importava. Não me agradavam no sentido do nariz. Eram fortes. Causavam ânsias indesejadas. Esperava, pacientemente, cada um deles ficar vazio para tê-los colecionados e expostos na minha penteadeira imaginária.

Me vali, não por uma única vez, de uma fórmula secreta para ajudar a esvaziá-los. Sem remorsos. Porém, minha alegria maior nunca foi atingida.

Lutei inutilmente, arquitetei mil e umas muitas malandragens para exibir aquele vidro que, além da forma, pela forma, além do continente pelo continente, além do conteúdo pelo conteúdo, tinha o mais belo nome que meus ouvidos já experimentaram ouvir: Cabochá!

Hum! Meus olhos deram voltas inteiras nas órbitas, mas o Cabochá nunca consegui...

* Leila Jalul é poeta, escritora e procuradora aposentada da universidade federal do Acre. Este e outros textos seus vêm sendo publicados no blog do jornalista Altino Machado

 
 
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Rio Branco-AC, 10 de dezembro de 2006