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Retratos da Vida

Américo de Melo: o fotógrafo que retratou a metade da história do Acre por meio de suas lentes

 


Cleber Borges

O início de 2007 será um marco importante na vida do cearense-acreano Antonio Américo de Melo, um dos maiores baluartes da imprensa acreana. Em junho ele vai comemorar seus 80 anos e, antes disso, no dia 1º de janeiro, 52 anos de vivência no Acre. Entre uma data e outra - ainda a ser definida -, ele irá promover uma mostra de todo o rico acervo fotográfico, composto por cerca de 500 filmes, que colecionou ao longo de sua vida profissional.

Com este histórico e com suas inúmeras e infalíveis lentes, ele captou cenas que revelam as transformações sociais, políticas e econômicas de mais da metade do período que será mostrado, a partir do próximo dia 2, pela minissérie da Rede Globo Amazônia - de Galvez a Chico Mendes. Da República implantada pelo espanhol Luis Galvez em terras acreanas, em 1889, até o prematuro desaparecimento do ambientalista Chico Mendes, em 1988, transcorreram-se 99 anos.

Américo de Melo clicou não apenas as personalidades e fatos ocorridos no Acre, como em diversos outros lugares do país. Como fotógrafo, começou nos anos 50, mas sua ascensão profissional se dá a partir da transformação do Acre em Estado. Aliás, sua história se confunde com a do Estado do Acre, ou seja, a partir da elevação do ex-Território a essa condição, em 15 de junho de 1962.

O primeiro governador eleito foi José Augusto, do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), com apoio da UDN (União Democrática Nacional), partido do qual Américo de Melo fazia parte. Na véspera da posse do governador, ele já compunha a comitiva de políticos e de empresários que esteve em visita ao jornalista Júlio de Mesquita, dono do jornal o Estado de S. Paulo e todo-poderoso da imprensa brasileira de então. Naquela época, Américo de Melo tinha apenas sete anos de Acre. Isso mostra a competência e a habilidade de alguém que naquele momento já se definia como autonomista e que mais tarde viria a ser um grande anfitrião do Estado ao “cobrir” as visitas de presidentes e outras grandes personalidades, e um excelente publicitário ao “vender” muito bem a imagem do Acre lá fora, no momento em que passou a ser correspondente da Veja e de outras revistas não menos famosas como Realidade e Placar.

Além de todos os presidentes da era do regime militar aos dias atuais (com exceção de Sarney, Collor e Itamar Franco) e dos governadores acreanos dos últimos 44 anos, Américo de Melo esteve também com importantes figuras do mundo artístico-esportivo nacional como Roberto Carlos (vários encontros), Pelé, Zagallo e Garrincha, e presenciou acontecimentos importantes como a construção das duas primeiras pontes sobre o rio Acre, a aula inaugural do curso de Letras da Ufac, primeiro júri simulado da faculdade de Direito do Acre, reunião da Ata Rio Branco, em 1969: primeiro tratado internacional de integração da América do Sul, que viria a se tornar o embrião do Mercosul.

Américo de Melo nutre carinho e uma admiração profunda pelo saudoso jornalista Zé Leite, mas, segundo suas próprias palavras, “a estrela maior” no Acre para ele foi o também jornalista, advogado e assessor de comunicação de vários governos, Garibaldi Brasil, primeira pessoa a estender-lhe verdadeiramente a mão nos difíceis dias em que estava recém-chegado às terras de Galvez.

A difícil e rica trajetória até chegar ao Acre

Américo de Melo se considera acreano, mas nasceu no município de Independência, Ceará, onde viveu, com muita dificuldade sua primeira infância. De lá, foi para Crateús prestar o extinto exame de admissão ao ginásio. Mais tarde, sem conhecer ninguém, rumou para Fortaleza. Lá, deu a sorte de encontrar o primo Luis Amado Bezerra, que era capitão do Corpo de Bombeiros. De maneira solidária, o parente o levou para a corporação onde dias depois passou a trabalhar no Hospital Militar. A competência e a simpatia conquistada levaram-no a prestar assistência também a Escola de Cadetes e ao serviço médico da penitenciária, que era dirigido pelo médico-coronel Raimundo Bezerra Ferreira, da Polícia Militar.

Um ano e oito meses depois, Américo de Melo recebeu uma proposta irrecusável do também médico Fernando Leite para dirigir o posto médico instalado às margens da estrada central do Ceará, que naquele momento iniciava a ligação de Fortaleza com o município de Orós. O vínculo era com o também extinto DNOS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca).

Na época, conseguiu reduzir as licenças médicas diárias de 100 para 10 ao clorar a água potável e ao dividir o grande barracão com cobertura de palha para moradia de, no máximo, dez pessoas. Uma micro cirurgia feita às pressas num operário acidentado, deu experiência e habilitou Américo de Melo a continuar atuando na região. Para não ter que fazer parte da corrupção, para não ter que participar do esquema de venda de remédios, ele deixou o DNOS e voltou para Fortaleza, onde conheceu Auristela, a enfermeira que depois viria ser sua mulher. Na época, passou a trabalhar em domicílio e não conseguia atender a metade das pessoas que o procuravam.

Em 1954, por causa de confusão política na UDN, sugeriu à mulher que fossem para o Acre, terra onde o pai dela morava. Auristela já tinha Auriene e Olga e estava grávida da Olívia. Pegaram o navio Raul Soares em setembro de 1954, desembarcaram em Belém, oito dias depois seguiram para Manaus. De lá foram até Boca do Acre, onde chegaram em outubro. Por lá ficaram alguns dias receitando e vendendo alguns remédios que haviam trazido. Ele era enfermeiro, vivia daquilo.

Ao chegar a Rio Branco, sem conhecer ninguém, ele se perguntou: “E agora?”

Ao desembarcar em Rio Branco no dia 1º de janeiro de 1955, Américo ficou meio desnorteado, mas logo começou a se enfronhar com os nativos. Como agora, havia muitos conterrâneos seus no Acre. Logo ele conheceu o jornalista Garibaldi Brasil, o governador do Território, Francisco de Oliveira Conde e o diretor da maternidade Bárbara Heliodora, médico Ari Rodrigues, que o ajudou a registrar seu ambulatório na Praça Plácido de Castro. O crescimento foi rápido porque não havia ambulatórios, laboratórios e nem médicos. Aliás, ele foi o primeiro dono de consultório do Estado.

A política foi também uma seara inevitável. A identificação imediata foi com os autonomistas, que por acaso eram da UDN, sua antiga legenda. O médico Mário Maia articulou o apoio da UDN ao PTB, contra Guiomard Santos, que era do PSD. A eleição aconteceu em 1962. José Augusto ganhou o pleito e assumiu em 1963. Segundo Américo de Melo o PTB ganhou a eleição, mas o Acre perdeu. “Se Guiomard Santos tivesse sido eleito não teria havido problema após a ‘Revolução de 1964’. José Augusto perdeu porque era considerado comunista” diz.

Com a destituição do governo, ele volta para a iniciativa privada e sua esposa, por ser enfermeira, começa a trabalhar na maternidade. Depois de gerenciar várias casas, dentre elas o Bazar do Povo e a Casa Cardoso, passa a se interessar pela venda de máquinas fotográficas e pela profissão de fotógrafo. A especialização veio depois com um curso na área, feito em São Paulo.

Com esse poderoso instrumento nas mãos, ele fotografou quase todos os presidentes daquela época pra cá, todos os governadores e artistas famosos como Agnaldo Timóteo, Caubi Peixoto e Roberto Carlos, de quem se considera íntimo. Luis Gonzaga, o “rei do baião” também conheceu o Acre antes da BR-364 e disse que voltaria aqui só pela estrada. Assim como o saudoso Campos Pereira, Américo também teve um ótimo relacionamento com o cantor Zezé de Camargo. A projeção profissional se deu com a parceria firmada com o saudoso jornalista José Leite, com quem começou trabalhando para a revistinha A Bola e depois no jornal O Rio Branco, que seria fundado por Tourinho com o apoio de José Leite. Com nome, passou a pertencer a Associação dos Repórteres Fotográficos de São Paulo, foi delegado da Associação dos Repórteres Cinematográficos do Brasil no Acre, acompanhou a Seleção Brasileira na inauguração do estádio Vivaldo Lima, em Manaus na despedida do Brasil para a Copa de 1970 no México. Depois de fotografar Pelé e aquele timão todo ele distribuiu para os jogadores uma flâmula do Acre que fez com dinheiro do próprio bolso.

A proximidade com o poder se deu através do ex-governador Wanderlei Dantas, quem Américo de Melo considera, ao lado de Jorge Kalume, o primeiro governador a desbravar o Acre. “Mas quem desenvolveu mesmo isso aqui foi Jorge Viana”, diz.

A.de Melo também foi correspondente da revista Placar, Realidade e Momento, do RGS, que mais tarde passou a se chamar Integração.

Além de ter promovido as corridas Cel. Sebastião Dantas e Archer Pinto, em Manaus, ele participou, no governo Wanderlei Dantas, de um fracassado filme sobre a vida de Plácido de Castro. “Sucesso mesmo vai ser essa mini série da Glória Perez”, diz, lembrando que a população vai ter que se preparar para receber os turistas depois dela.

Mitos, histórias e intrigas

Uma das inúmeras histórias interessantes guardadas por Américo de Melo é a da cobra de 5 t que D. Julio Mattioli teria fotografado em Tabatinga, Amazonas. Ele diz que o bispo contava que para matá-la foi preciso usar uma metralhadora. Outro fato marcante na vida do nosso renomado fotógrafo foi a contenda mantida com o também bispo, Dom Moacir Grecchi. Ele nunca perdoou o religioso por ele ter destruído a igrejinha de São Sebastião, construída em 1917, e por ter “aposentado” os padres José e Peregrino. “Ele era político. Era da Igreja da Libertação. Eles queriam incluir o texto de Lênin na bíblia. Uma besteira. Uma medida mesquinha”, afirma.

O esporte local, de Manaus e até de São Paulo recebe a “cobertura” de A. de Melo desde 1957. Vários atletas foram “descobertos” por ele, inclusive o famoso Aírton Rosas, que jogou no Independência e depois no Juventus. Ele conhece a fundo as histórias do Internacional, Floresta e o Andirá, que levou o nome do seringal do ex-governador Wandelei Dantas. Recentemente ele contou a história do Rio Branco F.C. buscando dados de antes da fundação do clube. Apesar de ser um fiel torcedor do Independência, ajudou a fundar o Juventus tendo, inclusive, sido homenageado por isso.

Américo de Melo também conta que apresentou o poeta e jornalista dos Diários do Brasil, Rogaciano Leite ao governador interino do extinto Território, cel. Fontenelle de Castro e este foi logo dizendo: “Quanto o senhor precisa?”. O jornalista rodou sobre os pés e foi embora sem dar resposta. Amaral Neto, outro famoso jornalista do tempo dos governos militares também se avistou com A. Melo que, por exigência da revista Placar, acabou se tornando o primeiro jornalista profissional com registro no MTb do Acre.

Com quase 80 anos, sua agenda ainda anda cheia. Dia desses uma “socialitezinha” o esnobou, dizendo que a grandiosa festa de sua amiga deveria ser fotografada por um profissional famoso. Ele ouviu e retrucou: “O famoso aqui sou eu meu bem”.

Américo de Melo é um homem moderno. Tem computador e se mantém “antenado” com o mundo moderno. Sabe tudo o que está acontecendo. Sobre George Bush, por exemplo, diz que é um homem que faz tanto mal a humanidade quanto o comunismo um dia fez. Sobre a era da digitação, ele afirma que “Com máquina fotográfica todo mundo pode ser fotógrafo. Basta dominar bem o equipamento. Vamos continuar sendo profissionais que vamos trabalhar com fotografia e dar os retoques necessários, utilizando a tecnologia da computação para apresentar um trabalho com alta resolução”.

A edição deste material foi possível graças ao apoio do jornal Página 20, da dona do Depósito de Madeira Itapuã, Marinete Soares de Araújo e filhos e também de João G. de Souza e José de Souza, donos da tradicional panificadora Nossa Senhora do Rosário.

 
 
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Rio Branco-AC, 10 de dezembro de 2006
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