| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
||
História nativa do Acre Novo sítio arqueológico encontrado Esta semana tivemos a importante notícia da localização de um novo sítio arqueológico próximo de Sena Madureira. Ao que tudo indica, trata-se de mais um sítio cemitério constituído por urnas funerárias que caracterizam a Fase Iaco, ligada à Tradição Quinari, de povos ceramistas que habitaram o Acre há mais de mil anos. Segundo as primeiras informações, a grande novidade deste sítio em relação aos outros sítios cemitérios encontrados sempre no entorno de Sena Madureira (ver artigo “Terra Sagrada”, publicado há três semanas nesta coluna), é que neste a urna funerária localizada ainda continha dentes humanos e fragmentos dos ossos dos indivíduos que ali foram enterrados. Além do fato de que, pelas informações, a forma dessa urna também é muito rara. Trata-se de uma descoberta muito rara uma vez que a umidade do solo acreano não permite a conservação de restos ósseos e outros vestígios perecíveis. Por isso normalmente só encontramos cacos de cerâmica e artefatos de pedra nos sítios arqueológicos até aqui conhecidos. E como esses sítios cemitérios sempre eram compostos por várias urnas funerárias podemos supor que existam outras ainda intactas que podem ser importantes fontes de pesquisa para a arqueologia acreana. Acerca desse novo sítio e de sua importância traremos maiores informações após pesquisa de campo que deve ser realizada urgentemente para retirar do solo a urna encontrada. De todo jeito cabe louvar a atitude do proprietário da Fazenda onde se encontra este sítio que tão logo encontrou o material arqueológico entrou em contato e se dispôs a colaborar com as pesquisas. Uma atitude que deve ser imitada por todos os acreanos. Assim todo o material recolhido será incorporado a uma instituição pública e poderá servir de fonte de informações para todos os pesquisadores que se dedicarem a este tema. Parabéns, Fernando e Lais! Tomara que seu exemplo leve muitas outras pessoas a colaborar para o fortalecimento da arqueologia no Acre e para o conhecimento de nossa pré-história, ainda tão pouco difundida! E para iniciar o leitor na compreensão de nossa pré-história e sua importância para a história indígena acreana, que no fundo é parte imprescindível da própria história acreana, a seguir transcrevo trecho de um artigo que publiquei em 2002 na Revista “Povos do Acre”, editada pela Fundação Elias Mansour e pelo CIMI, como parte das atividades de difusão e fortalecimento dos povos indígenas do Acre. Tempo de antigamente - A longa história do povoamento humano do Acre provavelmente começa entre 20.000 e 12.000 anos atrás, quando os primeiros grupos humanos provenientes da Ásia chegaram de sua longa migração até a América do Sul. Esses grupos humanos perseguiam as grandes manadas de animais gregários que durante a idade do gelo se espalhavam pelas vastas savanas do mundo. A Amazônia era então uma ampla extensão dessas savanas, com apenas algumas manchas de floresta ao longo dos rios que cortavam as terras baixas. Era o tempo dos grandes animais como o mastodonte, a preguiça gigante (megatherium), o toxodonte e diversos outros exemplares de megafauna que serviam de base alimentar para aqueles bandos de caçadores nômades. Esses animais se extinguiram com o fim do pleistoceno, a ultima das grandes idades do gelo, e seus fósseis são localizados ainda hoje nos barrancos de muitos dos rios acreanos. Apesar de ainda não terem sido encontrados vestígios concretos da presença humana na região durante esse mesmo período, podemos imaginar que o homem aqui já estivesse junto com os animais que caçava. Com o passar do tempo, a partir de 12 mil anos atrás, o clima do planeta começou a esquentar. Isso ocasionou um aumento da umidade e expansão dos sistemas florestais. Enquanto os últimos remanescentes da megafauna desapareciam por causa da retração das áreas de pastagem, a floresta se expandia. Isso favoreceu a proliferação de uma fauna terrestre de pequeno porte e da fauna aquática através do crescimento dos cursos d’água que ficaram cada vez mais caudalosos. Esse tempo de profundas mudanças climáticas e ambientais deu oportunidade para o surgimento de novas formas de organização social. Os grupos humanos pré-históricos da América passaram a contar com recursos alimentares mais diversificados, graças ao ambiente de florestas tropicais e, lentamente, começaram a desenvolver as primeiras experiências de domesticação de plantas e animais. Enquanto na América Central e nos Andes teve inicio o cultivo do milho e de outras sementes, nas terras baixas da Amazônia ocorriam as primeiras experiências do plantio de raízes - especialmente da mandioca - que se tornariam a base alimentar desses grupos. Isso marcou o surgimento, por volta de cinco mil anos atrás, do que os pesquisadores chamam de Cultura de Floresta Tropical, caracterizada por grupos que praticavam uma agricultura ainda insipiente, complementada pela caça, pesca e coleta de frutos e sementes da floresta. A partir dessa nova organização social os grupos pré-históricos amazônicos passaram também a fabricar cerâmica e a ocupar certos locais por períodos mais prolongados. Com isso deixaram grandes sítios arqueológicos que testemunham seu florescimento por toda a Amazônia. No Acre, as pesquisas realizadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira nas décadas de 70 a 90 revelaram a presença de duas grandes tradições ceramistas no estado. A primeira foi identificada nos vales dos rios Purus e Acre e denominada “Tradição Quinari”, enquanto que a segunda está situada nos vales dos rios Juruá, Tarauacá e Muru e recebeu o nome de “Tradição Acuriá”. A presença de duas distintas tradições ceramistas nos dois maiores vales acreanos parece indicar que a diferenciação histórica e cultural da população dos vales do Juruá e Purus é mais antiga do que se pensava. Entretanto, nem todos os sítios arqueológicos já localizados no Acre estão classificados numa dessas duas tradições ceramistas, podendo ser identificadas ainda outras tradições pré-históricas na região. É o caso, por exemplo, dos misteriosos círculos de terra que aguçam a curiosidade dos que sobrevoam a área onde são mais comuns. Os geoglifos, como vêm sendo erroneamente chamados, são grandes sítios com formas geométricas - círculos, quadrados, hexágonos e diversas outras composições - que variam entre 350 e 150 metros de diâmetro. Aparecem principalmente em duas áreas: no divisor de águas entre os rios Acre e Xipamanu e no divisor de águas entre os rios Acre e Iquiri. Essa localização revela que os povos que construíram essas misteriosas figuras com terra local, tinham preferência pela ocupação da terra firme em vez de habitarem ao longo das margens dos principais rios da região. Quanto à razão que levava esses grupos pré-históricos a construir as grandes estruturas de terra - que tanto poderiam servir para defesa, como para a agricultura, ou mesmo para a realização de festas e ritos - ainda não se pode afirmar nada. Porém, uma coisa é certa: não se tratam de sinais deixados por extraterrestres no solo acreano, na linha do “eram os deuses astronautas”. A maioria desses sítios apresenta cerâmica arqueológica, comprovando que foram construídos, utilizados e provavelmente habitados por grupos indígenas pré-históricos. Apesar de ainda não possuirmos dados resultantes da análise do material arqueológico desses sítios, as primeiras informações mostram que os sítios geométricos parecem guardar algumas relações com ocorrências arqueológicas do Llano de Mojos. Uma região alagável e muito fértil ao norte da Bolívia, onde foram construídos grandes aterros para agricultura durante a pré-história. O que reforça os indícios de contatos prolongados entre as civilizações andinas e os povos da Amazônia ocidental desde muito antes do que se imagina. Mas só a realização de novas pesquisas arqueológicas será capaz de responder essas e outras questões sobre nosso mais distante passado. Para ler mais sobre o assunto Observação imprescindível - Não poderia deixar de chamar a atenção para uma feliz coincidência. Este é o quinto artigo publicado nesta coluna. Ou seja, faz um mês que inauguramos a coluna “Miolo de Pote” e desde então não se passou uma semana em que não houvesse notícias de novos sítios arqueológicos localizados no Acre, sejam eles históricos, geométricos ou funerários. Isso mostra a enorme riqueza de nossa arqueologia e revela, espero, um avanço significativo da consciência dos acreanos acerca da importância do registro e da pesquisa desses sítios em proveito de toda a sociedade, que é a grande beneficiada. Mas a descoberta dessa semana comprova também a tese inicial dessa coluna, que o miolo do pote nem sempre é só vento ou água (de acordo com o gosto do freguês), mas que - no caso da arqueologia - o miolo de pote é sempre fonte de conhecimento. |
||
|
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |