OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


Driblando a saudade

Veloz, partindo do meio para o fundo, tangenciando para o gol, vai o Bico-Bico. Corre com a bola dando-lhe pancadinhas que não a deixam cair, até que venha o chute ou o passe. Depois do Bico-Bico, nunca mais vi um jogador correr com a bola dominada, no alto, com as pancadinhas cadenciadas, sem deixá-la cair, em velocidade, até chutá-la para o gol ou passá-la adiante. Para ele não era só um jogo, era uma festa, para a qual ele começava a servir-se cedo. Dentro do campo, vários craques a abastecê-lo: Nostradamus, Aldemir, Escapulário. Para resguardar, na defesa estava o Deca. Quando muito, passaria a bola.

Outros tantos craques das extremas fizeram sacudir o Stadium, cada um com seu estilo, com virtudes diferenciadas, o ligeirinho Elísio, hábil e produtivo, os baixinhos Nílson, Evandro, Nirval e Paulinho. Não esquecer o balanço do Julião, a volúpia do João Carneiro, as peripécias do Manoelzinho.O Nílson faz lembrar o jogo entre Juventus e São Cristóvão (do Rio) aqui no José de Melo, da dupla Jorge Demolidor e Ivo Sodré, este fazendo gol de letra, meio caído, a bola entrou forte, na “trave da jaqueira”. O baixinho também deixou o dele.

Ainda nas redes balança, o filme passa nos olhos, igual ao gol do Jorge Jacaré, batendo do centro do campo, feito na trave da piscina, que só ficou gravado nas nossas emoções, e são tantas. A quarta partida, o pênalti com a bola por cima da trave, apesar de chutada pelo Mustafa, exemplo de atleta, em várias modalidades. O Palheta, que teria sido seqüestrado, o primeiro seqüestro (fantasma) do Acre, jogou um bolão.

Fico imaginando como seria o Touca. Os que o viram jogar afirmam que o velho Clóter foi o maior de todos, um verdadeiro fenômeno, ágil, elegante e goleador. Falando em artilheiro, a lembrança escala o grandalhão Airton, que vi fazer belos gols de cabeça; o amigo Eliésio, o Nêgo Mansour, dono da bomba atômica, que amedrontava os goleiros, no campo e no salão. Lembro do gol na trave da piscina, no Agrícola, e do gol na trave do Bar da Adélia, no Café. Muitos diziam que a bola iria na jaqueira, mas foi no gol, violenta: “pega, puto”. Não deu, apesar das habilidades do goleiro da Fazendinha. Agora, saudades de El Negro.

Seguindo a ordem natural das coisas (como narrava o Delmiro Xavier, com classe e categoria) o único gol que vi do Jangito foi na trave da entrada do Stadium, da avenida Ceará, a da antiga quadra, a trave do Bar da Adélia. O gol foi de cabeça, de costas para a trave. A mesma trave em que vi o Ico, jogador mais recente do Juventus, fazer um gol por cobertura no Dida, goleiro da Seleção Brasileira, que ali então jogava pelo Cruzeiro, junto com o Beletti. O jogo foi 1x1. Naquele antigo gol do Jangito, não lembro quem era o goleiro (nem o time) adversário. Talvez fosse o Pop. Ou o Zé Augusto. Esses foram dois dos grandes expoentes da posição, como foram o Tinôco (que não vi, e dizem que foi o melhor), o Milton, o Carlos Alberto (Xepa), o Normando, nosso Dasaev, o versátil Joneudes, o valoroso Pituba, o valente Tidal, o gringo Illimani, o grande Espanhol - este, o melhor que vi no gramado. No salão, é claro, o melhor foi o Lauro, que fazia a trave parecer menor, que irritava os atacantes adversários mandando-os chutar mais forte, que intimidava a bola, sacudindo-a, para saber se estava choca.

Falando em salão, quem esquece o time do Caxias, o do Colégio dos Padres, e depois, os timaços da Contag, do Juventus, do Rio Branco, do Vasco e do Amapá. Craques como os ágeis goleiros Nanito, Alzemir, Tinda e Braña. Como o Hermínio, que chutava a bola pela orelha, em meia altura, e ela saía retinho, sem subir. A dupla Nêgo e Elísio, fabulosa. Ainda vi o Nêgo jogando na quadra do Palácio, um craque. O Pereira, que foi o mais talentoso depois do Dadão. O Airton, nosso Pombo, com seu peteleco mortal; o Adrian, imprevisível; o rápido Fugiwara; o Marcos Almeida, pensante e combativo; o artilheiro Cirênio, simples e objetivo na direção do gol. O Didi, o craque mais velho da turma. O Jorge Tijolo, elegância e precisão, com aquele gol no Lauro, na quadra da PM, um leve toque por baixo da bola, que caiu dentro do gol, fazendo a rede soltar um chiado, quem sabe, um gemido. Bem depois, vieram outros bons jogadores, como o Casquinha, o Léo, o Artêmio, o Jamerson e até o Rei Arthur, que antes de definir-se pelo campo foi destaque e grande craque no salão. De todos, mais uma vez, o Dadão foi melhor, hoje só comparável ao Fininho. Quem viu sabe, confirma, tem saudades.

Voltando aos gramados, avançando pelas laterais, o Amarelo foi o craque da esquerda, na disciplina, no jogo de equipe, defendendo e distribuindo, incansável. Ainda hoje bate peladas, nosso Antônio Maria. Na direita, o Mauro foi insuperável, adiante do seu tempo, jogador de seleção, só comparável ao Leandro (nos bons tempos). Foi o primeiro lateral a avançar, apoiar, distribuir e armar o jogo. Além de fazer isso tudo, era um maestro, ritmo, cadência, tranqüilidade, habilidade. Também grandes craques das alas foram o Sabino, grande apoiador e o Duda, com um chute incrível, também no salão, que parecia o Nelinho. Bem antes, tivemos o Carlos Mendes, o baixinho 19, o amigo Zezé, o Pintão, o Chico Alab. O futebol os reverencia.

O time do Juventus teve gerações fantásticas. Ainda no juvenil, quem esquece o meio-campo formado por Bina (o Sebastião José, também craque de dominó), Artur e Carlitinho? O Charles abastecia o Álvaro, o Curú, para ser artilheiro nas vezes que jogasse. O time principal com o Emílson, o magro Jabuti, que botaria no bolso qualquer dos selecionáveis da posição, com seu futebol alegre e eficiente; o Tubarão Mariceudo, partindo com a bola dominada, rápido, pra frente, vigoroso, decidido, incomparável nessa característica; o habilidoso Carlinho, o Bonamigo, chute forte, drible simples e vistoso, a criação repentina. À parte, especial e único, está o Eduardo, nosso Dadão, o maior de todos, o drible rápido em Z, um elástico próprio, mesmo conhecido, infalível. Pedia constantemente a bola, queria a bola, queria o gol, a jogada, a arte. Sempre conseguia. Comparável a Zico, a Maradona. Para nós, muito melhor. Depois, o Rei Arthur, craque exportação e ídolo brasileiro. No Copão da Amazônia, os gols feitos pelo Independência, contra o Paysandu, o de placa, na trave da entrada, passando por todo o Azulão, chutando de canto, meio alto, deixando paraenses e acreanos nas nuvens daquela tarde em que eu estava no Vietnã.

E assim muitos times de fazer inveja, times que já não são possíveis. O Rio Branco, com Vale, Fernandinho e Padreco. O Estrelão também teve Said, Mário Veira, Bruno, o Couro Velho. Que teve seus Pedros, o Pedro Louro, que era moreno; o Pedro Feitosa (pensaram que eu ia dizer da Burra, né?), até hoje craque de sinuca e grande simpatia (que não o vi jogar, mas soube que era brilhante). E teve o Tião Lustosa, que também não vi, mas me confidenciou haver dado um “banho de cuia” no Carlinhos, jogador e depois técnico do Flamengo, durante um jugo aqui no Stadium. O Atlético teve Eusébio, Hélio Pinho, depois Paulão e Pitico, no auge, com Márcio Tadeu, estilo Falcão, à frente da zaga; com o grandioso Guedes na cadência, talvez, o melhor jogador “importado” que pisou no José de Melo, jogando por time acreano. O Independência, com o esquadrão do Bico-Bico. E há muitos grandes craques que não vi, como o xapuriense Curica, o Mozarino, o Humberto, o Boá e, como disse, o estimado Touca.

O futebol profissionalizou-se. Até demais. Jamais terá aquelas feições. Por isso as melhores referências são os craques mais antigos. O nosso futebol não será mais o mesmo. Nem no Acre nem na China, que agora disputa Copa do Mundo. Fica a lembrança, ficam os registros, ficam as imagens dos craques. Nem é tão fácil encontrá-los nas ruas, apesar de nenhum deles ter ficado rico com o futebol, ou sequer ter ainda algum ganho dele (exceto o Arthur). E só temos a recordação, alguns velhos jornais, o eco da voz do Marte Rocha, a terna voz do companheiro Anselmo Sobrinho, a vibrante voz do colega Natal de Brito. Mais perto, as lembranças do Delmiro Xavier e do Etevaldo Gouveia. Para nós, no Acre, foi tudo mais difícil. A televisão só chegou em 1974. As gravações de jogos demoraram mais uma goleada de anos. As películas são as retinas. Os arquivos são os neurônios. O futebol amador era mais brilhante. Como o nome parece sugerir, era por amor à camisa. Ficou a emoção, ficou o impagável prazer recebido da arte do futebol, prazer em não esquecer do que foi visto. A peculiaridade simpática de ter visto bom futebol no velho José de Melo lotado e contagiante, com o Papagaio torcendo pelo Rio Branco. A boa lembrança de ter tido tantos craques ali, pertinho, reais, mesmo sem replay (haveria outro domingo, as jogadas se repetiriam...). O prazer de poder relembrar, de lançar palavras e arrematar sentimentos, tabelando com as recordações, inclusive, as desses e de tantos outros craques. Craques que hoje matam a saudade no peito e driblam a emoção.

jafontes@osite.com.br

 

 
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Rio Branco-AC, 10 de dezembro de 2006
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