OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes *

 

Há algumas semanas, minha crônica intitulada Este Rio é Meu (Ciúme), dirigida a Armando Nogueira (es
critor, poeta, cronista, intelectual), foi publicada neste espaço.
O brilhante Armando sobre ela escreveu na sua renomada coluna “Na Grande Área”, publicada em jornais de todo o Brasil, com data de 31/12/2003.

Na mesma ocasião, o Armando fez reproduzir aquela minha crônica, que foi amplamente lida em todo o Brasil.

Foi um gesto de distinta cortesia e de elogiável grandeza. Em agradecimento ao Armando, assim escrevi:

Estimado Armando,

Só pessoas com sua grandeza e sensibilidade são capazes de tamanho gesto. Fiquei emocionado e muito honrado. Você fez divulgar meu texto em todo o Brasil ( e no mundo: a internet não tem fronteiras).

Recebi ligações de vários lugares, de amigos distantes, recebi carinho.

Ainda tímido, estou meio sem jeito para agradecer.

Fui presenteado com ampla divulgação das minhas despretenciosas linhas e tal presente jamais esquecerei. É um presente embrulhado em uma lição de grandeza.

Quis transmitir um pouco do carinho que o Acre tem por você (e que nós temos pelas coisas do Acre), e recebi uma correnteza de afagos, gerando emoção que não sei reproduzir em palavras.

Muito obrigado.

Abaixo, encaminho recente texto cuja leitura pode interessar.

Saudações.

José Augusto Fontes

Saudades do Rio

Acordei com saudades do Rio de Janeiro. Caminhei com as pessoas apressadas de Copacabana, andei pelo movimento constante do centro de todos os sons e cores e o filme em exibição era uma super-produção inesquecível, alegre e vibrante. Viajo, sigo e já estou contornando a curva perfeita que engana os olhos, passa do gol de placa, corre às margens do Maracanã e acaricia as pernas de louça da moça que passa e finge não notar, finge não saber que tem um jeitinho próprio, ela é carioca e embala sonhos, mesmo de quem está de olhos bem abertos à frente do verde cheio de ondas, do azul inquieto, do céu sereno. O Rio é paixão, pulsação, emoção.

Esfrego os olhos, organizo as idéias e salto em Botafogo, meu antigo endereço ainda está ali, passando entre o Rio Sul e o Canecão, de onde vejo o português colocando a carne assada no pão. Agora estou em saudades, sou passante ligeiro, sou personagem passageiro e tenho olhos antigos. Sigo para a Urca, faço a volta à beira dos momentos passados e percorro a contramão do presente. Mais à frente, me distraio com a claridade de um chope, rabisco os guardanapos de papel, torno a registrar o momento que me deixa sem palavras, lembro que o Rio é para guardar e viver.

Há tempos não caminho pelo Méier, não vejo a vida simples do Cachambi, não olho a Suburbana pela janela. Uns batuques chegam de Madureira, de Cascadura, da Serrinha. Despertam lembranças que desfilam num compasso bem enfeitado. É um bom enredo. O pensamento é rápido, fui a Caio Martins e já estou chegando em São Januário, à bordo de um longo passe cujo efeito fez cirandas e saiu do esquecimento. Minhas lembranças lotam arquibancadas. Faço uma ponte e atravesso o dia com saudades, tenho planos de embarcar para o Rio o quanto antes, devia ter pensado nisso desde ontem. O pensamento embriaga e quase esqueço meu medo de avião. Na euforia da expectativa, no apressado da ilusão, faço a coragem da bagagem, carregada de poesia.

Baixou um santo num bonde lá de Santa Teresa e o Baixo Gávea carregou meus sentidos para a música envolvente da Lapa, sob a alegoria de algumas sirenes. A Lapa não é brincadeira, é a gema da sonoridade que não acabou. Sua música sobe de escadas rolantes para os braços do Redentor. Continua tudo Amarelinho na Cinelândia. Deslizo pelo dia como se vivesse todas as horas. Mudo de ritmo e ouço um jazz no Leblon, já pensando em ver as luzes da Lagoa, em cujas águas a noite afunda e só as luzes ficam de fora, para dar uma pista a quem circunda por ali. Fui. No Largo do Machado corto o caminho de uma história que me atrai em várias direções, o Rio é desenvolto, cheio de estações, lembrei da Mangueira.

Como se estivesse num novo dia, estaciono no Nove. Respiro ares renovados e bons, respiro o ar das mulheres em doce balanço, ponho pés descalços na areia e vejo o pensamento vestido de quentes paixões, abraçando as belas cores de Ipanema, que a gente quer pegar e sentir, cores que não param de atrair, se elas soubessem... São cores meio nuas mas muito vivas, agradáveis, cores que se dão à luz. Há um movimento cadenciado e impulsivo, pernas e cores acolhem muitos desejos, cores femininas e apaixonantes em que crescem longas vontades. Será que estou sonhando?

Na vastidão da Barra sinto a plenitude das Américas. Há um mar sem fim. O bairro das ruas de areia virou cidade, com rapidez de autódromo. Ao descer do sonho, chegarei ao Santos Dummont, os caminhos de amarelo e de vermelho são compridos demais para minha vontade de chegar logo ao meu melhor destino. O Rio é movimento que embala, é cor que apaixona, é som que emociona. Sinto fome de Rio e vou ao Leme, tenho saudades da Fiorentina, mas outro prazer me sacia. O Rio não perde tempo.

Todo este mar me acaricia. Passei o dia com tantas saudades que entardeci e quase não percebi. Preciso de férias, preciso embarcar, o Rio não pode ficar lá, sem mim. Preciso passear os olhos pelo Rio, preciso de um bilhete para perder a saudade, preciso manter o sonho bem acordado. Agora, estou bem encontrado na minha aldeia, ela e eu temos jura de amor eterno, uma grande floresta me vigia. Por enquanto, vou ficando por aqui. Hoje não dá mais, amanhã não posso, depois não sei. Peço ao Rio que espere mais um pouco, mando muitas lembranças, escrevo algumas saudades.

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de janeiro de 2004
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