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Resgatando Vidas Voluntários atuam com moradores de rua usuários de droga e álcool trabalhando pela recuperação de sua dignidade |
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Protegidos pelos voluntários do grupo Resgatando Vidas, uma organização não-governamental e de caráter religioso interdenominacional, aquele grupo encontra força uns nos outros para lutar contra o vício do álcool e das drogas que durante anos os arrastou até o ponto mais baixo a que um ser humano pode chegar. “Nunca fumei maconha nem usei cocaína, mas caí com a pior droga do mundo, a cachaça, que a gente encontra em todo canto”, reconhece o baiano João Lopes da Silva, 72, que aos 16 fugiu de casa depois de levar uma surra por ter desobedecido a uma ordem da mãe. Saga baiana Entrou num caminhão pau-de-arara e em 1961 desembarcava em Brasília a tempo de ainda trabalhar nas obras de construção da capital federal. De lá partiu para Goiânia, onde comprou um rádio e numa noite ouviu pela primeira vez a Rádio Difusora Acreana, onde patrões procuravam empregados e mulheres pediam um marido. “Me animei. Saí de carona para Barra do Garça, depois Cuiabá, sempre trabalhando em obras e fazendas sem tirar o Acre do pensamento. Trabalhei no asfaltamento da BR-364 de Cuiabá a Porto Velho, a empresa queria me levar para o Paraná, mas eu não quis, meu destino era pra cima, não pra baixo”, lembra. Morando em diversos municípios de Goiás,
Mato Grosso e Rondônia, onde chegou a possuir dois lotes de terra,
casa e família, anos depois chegava a Porto Velho e dali pegava
um ônibus para chegar a Rio Branco 25 anos atrás. “Pelejei
para conseguir um emprego, não deu, fui então cortar borracha
no Guanabara, depois no São Pedro, Cachoeira, São José,
São Miguel até se aposentar em Brasiléia. Daí
virei vagabundo, né? Sempre bebi um pouco, mas agora não
tinha mais o que fazer e me danei na cachaça.” Do trabalho ao roubo Leonelso dos Santos Águia, 48 anos, pai de dois filhos, recorda o primeiro porre tomado aos 11 anos de idade, ainda em Manaus. “Bebia cachaça, álcool misturado com água e Ki-Suco, qualquer coisa que desse porre. Até que aos 13 anos um colega me apresentou a maconha. Achei bom demais. Gostei tanto que gastava com isso todo o lucro que tirava como camelô”, diz. A freada aconteceu em Porto Velho, quando, com tuberculose e início de cirrose, teve hepatite e precisou ser operado com urgência. “Eu tinha forçado a barra, mas a essa altura já não conseguia mais parar. Mudei para Rio Branco, onde o ‘rapa’ prendeu as minhas coisas. Decidi que não ia mais na prefeitura atrás delas, entrei num ônibus e bati a carteira de um sujeito. Dentro dela havia R$ 300, pequei o dinheiro e devolvi a carteira na Rádio Difusora durante o programa do Estevão Bimbi. Gastei tudo com a droga.” Amasiou-se, parou de roubar, separou-se e foi trabalhar nas fazendas. Pegava o dinheiro e vinha para a rodoviária gastar tudo com cachaça e drogas, dormia em cima dos pedaços de papelão. “Um dia conheci o irmão Gerson e a Irmã Alice que vinham com o pastor Gilberto cortar nosso cabelo e fazer a barba. Eles pagavam pra gente poder tomar banho na rodoviária, depois oravam com a gente e distribuíam uma sopa. A gente orava com eles na esperança de que conseguissem um lugar pra gente ficar. Até que apareceu esse empresário, o seu Clóvis, que cedeu esta casa. A gente ora por ele todo dia”, diz Leonelso. Há quatro meses na casa sem beber nem se drogar, ele já faz planos para o futuro. “Quero sair daqui como obreiro a fim de ajudar outros que estiverem tão perdidos quanto eu estive, ou como pastor, em nome de Jesus”. Tudo por nada A vida já não estava lá essas coisas quando Gilciclea Araújo de Almeida, 26 anos, mãe de três filhas perdeu a filha mais nova aos três meses de idade. Segurou-se ainda casada por mais dois meses, mas depois largou tudo para mergulhar de cabeça no alcoolismo até ser arrastada para a “esmolância” entre os moradores de rua da rodoviária. “Pedia esmolas, implorava por um prato de comida, só ganhava bebida, três vezes o resgate me levou por morta ao pronto-socorro, saía de lá e não tinha para onde ir”. Envergonhada e sem rumo, Gilcilea não queria voltar ao convívio da família. “Vendi por R$ 50 a casa que eu tinha lá no bairro São Francisco, dei 20 para o pai comprar alguma coisa para as minhas filhas e tomei o resto de cachaça”. Protegida na Resgatando Vidas ela quer ter a chance de corrigir os erros do passado e até faz planos para o futuro. “Quando a gente ia tomar sopa no quarteirão em que moravam o irmão Gerson e a Irmã Alice, os vizinhos não gostavam de ver aquele monte de doidos por lá. A gente também é filho de Deus. Ainda bem que seu Clóvis entendeu isso, a gente agradece e pede a Deus que lhe dê muita saúde por isso”. Neste momento tudo o que Gilcicléa quer é afastar-se do álcool e voltar para a família. “Meu pai ainda não veio aqui, nem as meninas. Não posso mudar o passado, mas quero sair daqui, me empregar, topo qualquer serviço para poder cuidar das minhas filhas”. Voluntários na fé Gerson Souza Santos, 39, a esposa Alice e o ator Hudson são os voluntários que, mesmo sem salário, dedicam suas vidas ao trabalho da Resgatando Vidas, entidade que ainda está em processo de legalização, mas que já recebe apoio de vários empresários e pessoas físicas pelo trabalho que vem prestando à sociedade. Mas essa comunidade ainda carece de camas, beliches, materiais para artesanato, instrutores de terapia ocupacional, atendimento médico, odontológico e psicológico necessários àqueles que atende. Suas ações foram iniciadas em junho do ano passado, já em 16 de agosto se firmava como entidade dedicada ao atendimento dos moradores de rua, drogados e embriagados da Rodoviária. Hoje colaboram com essa obra o Supermercado Araújo, a padaria Petuti, as lojas Espaço Fino, o Varejão dos Cereais e também diversos outros profissionais liberais. “Estamos em busca de parcerias para garantir o atendimento e os serviços básicos de que essas pessoas necessitam para poder se recuperar e reintegrar-se à sociedade de maneira produtiva”, explicou Gerson. Desistindo da vida Com uma bicheira na perna, Anízio Silva dos Santos, 34 anos, natural de Senador Guiomard, foi encontrado por Gerson e Alice que começaram a cuidar de seus ferimentos, cortaram os cabelos, fizeram a barba e devolver-lhe a auto-estima perdida. “Nunca gostei de estudar nem de trabalhar, quando meus pais morreram não me dei com os parentes então fiquei jogado na rua, vivia bêbado, pedia dinheiro para beber, isso davam, mas não um prato de comida. Passei uns dez anos jogado nessa lama”. Recorda ele antes de confessar: “Na verdade eu sentia vontade de deixar aquela vida, mas não tinha força nem sabia o que fazer. O pessoal do posto de saúde se recusava a tratar minhas feridas, nem as igrejas me aceitavam. O Gerson limpou minhas feridas, tirou os bichos, curou meu pé e está ajudando a curar minha alma”. Analisando sua própria vida, ele declara: “Já não olho para trás, não vale a pena, aprendi com os erros, agora só olho para frente, cada dia uma alegria em Jesus”. Três casamentos e uma ressaca O policial civil Sílvio Sabóia de Almeida, 49, internou-se na Resgatando Vidas a pedido da mãe, amigos e do delegado Alex. “Eles acharam que eu devia me tratar porque quando bebia perdia a consciência. Um policial precisa ser um exemplo. Estou gostando daqui, cheguei aqui há um mês com 52 quilos, já estou 61 e nem sinto falta da bebida”. Os porres levaram Sabóia a desfazer três casamentos, agora com a quarta esposa ele reconhece: “Esta última não me abandonou apesar de todo o sofrimento que dei a ela. Quero me recuperar. Dentro de dois anos me aposento, daí vou fazer o que gosto, cuidar de minha colônia”. Mas ele revelou um sonho surpresa. “Como policiais, temos sido muito bem tratados pelo governador Jorge Viana, que além de melhorar os salários nos dá boas condições para trabalhar. Eu tenho fé de que ele ainda chegue a presidente do Brasil, ele merece.” |
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