ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Marcos Vicentti
Ingrid: antropóloga do olhar sensível

Que tal ensinar língua kaxinauá nas escolas dos brancos?

O txai Terri Aquino sempre me levou a conhecer pessoas especiais e com elas cultivar amizade. Isso desde 1975, quando fomos apresentados um ao outro pelo Porfírio de Carvalho, na estação do aeroporto velho, do tempo em que o Acre era Território Federal. O indigenista Porfírio, primeiro ajudante da Funai no Estado, aguardava sua chegada de Tarauacá num avião monomotor. Txai tinha ido fazer uma pesquisa sobre os kaxinauá do rio Jordão e voltava com várias cruzes de malária no corpo.

A lista de apresentações ficou enorme e permanece em aberto. Há cerca de 15 dias, ele me pressionou para que fosse à Comissão Pró-Índio e acrescentou nela um novo nome: Ingrid Weber. Trata-se da jovem antropóloga e pesquisadora da CPI que lançou o livro “Copo de Cultura” esta semana, resultado de uma dissertação de mestrado desenvolvida na aldeia kaxinauá do rio Humaitá, em Tarauacá.

Reprodução
Mapa da terra indígena Kaxinauá do rio Humaitá

O Terri me falara de sua competência, sensibilidade e beleza como pessoa, o que se confirmou com acréscimos. Ganhei um livro com dedicatória e conversamos, eu e Ingrid, sobre o seu e o meu trabalho no Acre. Como ela se confessou tímida, tanto ou mais que eu, ficamos à vontade para filosofar e viajar nas utopias da floresta. Eu me imaginei um índio partilhando das experiências que ela comenta em seu livro.

Por obra e graça do Txai, que também é antropólogo, cultivo um pouco de intimidade com a cultura dos kaxinauá. O velho Tuchaua Sueiro, já falecido, praticamente inaugurou a lista de amigos apresentados por Terri. Nos anos setenta ele visitava minha casa ou me procurava nas redações dos jornais, pedindo para divulgar as queixas e reivindicações de seu povo do rio Jordão. Em várias passagens por Rio Branco, apareceu acompanhado do filho Siâ, hoje uma liderança indígena prestigiada e bem formada, com domínio até da língua e modos dos brancos.

Creio que o Terri pode confirmar: como jornalista, até que dei uma mãozinha no trabalho de resgate das terras e da cultura Kaxinauá. O que Sueiro falava era para publicar com prioridade no jornal que eu dirigia (Gazeta do Acre). E intermediei junto ao governador Geraldo Mesquita (1975-1979) a franquia de um avião para transportar peças de artesanato que, durante algum tempo, deram dignidade a um espaço da Universidade Federal do Acre.

O pequeno, entretanto rico acervo se perdeu, por descuido e desinteresse do então reitor Aulio Gélio Alves de Souza, cúmplice da ditadura militar que inundou o país de violência contra as minorias. Lutar contra a violência e a ignorância concentradas em algumas autoridades, naqueles tempos, era como entregar a cabeça à forca. Por isso muita coisa boa se desfez nos escombros de nossa história.

Que bom viver agora uma nova realidade e poder encontrar pessoas como a Ingrid! Comecei a ler seu livro “Copo de Culltura”, confesso, sem imaginar que o faria com tanto gosto deixando outras coisas de lado. Mas foi assim que aconteceu! Seu texto atraente, delicado e respeitoso com aqueles de quem fala me conquistou. Há alguns anos, escrevi uma crônica sobre a Samaúma, a qual dei o título de “árvore que voa”, pensando na sua sementinha que flutua no ar envolvida num floco de algodão. Fiquei surpreso de ver no livro da Ingrid que, segundo os kaxinauá, a enorme árvore tem um espírito. Para se aproximar do seu tronco e apreciar sua copa imensa, só sendo pajé.

Após a conversa com Ingrid, sai com algumas indagações na cabeça:

- Como nós, carius (brancos), podemos defender a floresta amazônica sem conhecer seus mais instigantes segredos? Como reconhecer e decifrar esses segredos sem dominar (uma que seja) língua indígena? Por que não introduzir, por exemplo, a língua kaxinauá no ensino fundamental da rede pública do Estado?

Coincidentemente, esta semana o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, que visitou o Acre em janeiro, assinou uma Carta aos Governadores da Amazônia e lá está, entre as recomendações que faz como renomado cientista, uma que trata da importância do saber indígena. Diz ele:

- A existência de línguas indígenas e práticas tradicionais de manejo da natureza constitui valioso patrimônio que devemos conhecer e preservar. É preciso incentivar seu estudo e transmissão às novas gerações indígenas e caboclas. A formação de jovens indígenas e caboclos, tanto nas ciências modernas como nas línguas e nos conhecimentos tradicionais, não apenas permitirá a preservação dos antigos saberes como também, acreditamos, que seu resgate contribuirá para promover sereno convívio entre as diferentes culturas que lá encontramos.

Trechos do livro “Copo de Cultura”

“Como vimos através da trajetória dos Kaxinauá do Humaitá ao longo do último século, se houve a preocupação com a preservação de algo, foi a de reconstituir, sempre que possível, a vida junto aos parentes e à fartura, não importando de que formasse ideal se realizasse. Aparentemente, os kaxinauá nunca tiveram qualquer preocupação em preservar a “cultura”, nos termos em que, hoje, ela vem sendo definida. Se as festas tradicionais não eram mais realizadas, não havia motivos para que seus cantos fossem “preservados”; não existam mais os contextos para a sua prática e transmissão e, por isso, como afirmaram os professores, eles estavam acabando. Ecoando Cecília MacCallum no que parece ser um aspecto comum aos ameríndios:

É o presente e não o passado que domina o ethos huni kuin*.

A natureza amazônica e a rapidez de suas transformações são, para mim, a própria metáfora desse modo de ser. Nela, um local que permaneça por algum tempo desabitado, bem como as casas de palha e paxiúba abandonadas, são rapidamente tomados pela mata. Não sobra quase nenhum vestígio para contar a história que passou. Aqui, a manutenção de um local, com o intuito de mantê-lo domesticado, é algo que exige muita dedicação e seria absurdo preocupar-se em conserva-lo quando for perdida a sua função. Mesmo no interior das casas, não há tempo nem espaço para se guardar coisas sem utilidade; ou são jogadas fora, ou se tornam brinquedos de criança. Assim também acontece com a “cultura” – o que passou é passado e lugar de guardar o passado é a memória. Em meio a esse ambiente amazônico, a escola, geralmente a única construção da aldeia que não costuma ser de palha e paxiúba, é agora o espaço por excelência da “preservação”.

Ser feliz Kaxinauá

“Comecei a ouvir tiros, cumade Sirlene gritando daquele jeitinho deles, com voz fininha, `veado foi pra lá!’. Mataram. O cumpadre trouxe nas costas. Mas mataram também uma onça que o cachorro acuou e Jocenir trouxe a pata dela de troféu. Comi veado delicioso, temperadinho com alho e macaxeira nova, bem maciazinha. Comi que fiquei com o bucho cheio o dia todo! Entendi como é ser feliz kaxinauá. (Ingrid Weber)

* Huni Kuin é o nome original do povo Kaxinauá

 
 
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Rio Branco-AC, 11 de fevereiro de 2007