OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

O Grutião do Esperança

“Viver só carece coragem,
esperança que a paz reine na floresta (...)
O meu pensamento vai, chega primeiro a minha voz
Cai nos meus braços, aperta os laços, desfaz os nós.
O grito dessas pessoas no fundo dos seringais
Precisa ser escutado em Belém e Manais”.
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Por esse velho Acre, aquele que os homens das cidades conhecem só muito imperfeitamente, ainda ecoam histórias de perseguições e de assassinatos frios e cruéis. São lendas contadas sobre o tempo dos coronéis de barrancos, donos das terras, das arvores e das leis. Esses contos populares vêm sendo repetidos através dos tempos, nas conversas na cozinha, no pé da fogueira, no alpendre de paxiúba, na lavagem de roupa no igarapé, na cachaça do fim de semana. Contam-se assim histórias compridas do seringueiro trabalhador que sob os maus tratos do patrão virou santo milagreiro e de seringueiros bons de saldo sendo tocaiados nas curvas dos rios. Pois eu ouvi uma dessas histórias e sempre que a repito vem alguém e me diz: “Eu já ouvi falar desse tal grutião”.

Foi Seu Chico Limão, nascido nos Campos do Palmares, quem me contou essa história pela primeira vez quando estava no Quinari recolhendo informações sobre os varadouros que há séculos cortam os rios Aquiri, Iquiri e Abunã. Segundo ele, na época em que a borracha valia muito dinheiro, o transporte das pelas, do gado e das mercadorias em geral entre os seringais Esperança e Capatará era feito por um longo varadouro bastante conhecido de todos. E era no meio desse varadouro que ficava aquele grutião, profundeza pavorosa, engolidora de animais e gentes, sempre com uma boca aberta a espreitar.

Quando um seringueiro que trabalhava nos seringais de centro (aqueles que ficavam longe das margens dos rios) conseguia fazer saldo suficiente para se libertar do jugo do seringalista e se dispunha a voltar para casa era esse varadouro que ele percorria até chegar ao porto onde compraria sua passagem de volta ao torrão natal.

Porém, os poderosos coronéis de barranco, donos da borracha e das gentes dessa terra, não gostavam de deixar partir seringueiros que levassem os bolsos cheios de dinheiro e o jamaxi carregado de esperanças de uma vida melhor. Por isso mandaram instalar ao longo do varadouro uma linha telegráfica que servia para avisar quando algum seringueiro de saldo havia partido do Esperança em direção ao Capatará. Imediatamente saiam os jagunços que os seringalistas costumavam manter sob suas ordens, para esperar o “saldista” a meio caminho. E o local escolhido para a emboscada era invariavelmente a beira daquele grutião.

Completando o cenário, havia naquele ponto do varadouro uma grande arvore que, para suportar tamanho peso e comprimento, tinha formado enormes sapupembas que quando recebiam batidas projetavam seus sons graves muito longe mata a dentro. Pois foi exatamente numa dessas sapupembas que, em uma demonstração da engenhosidade macabra que só o ser humano é capaz de exercer, os jagunços encarregados da emboscada fizeram um buraco por onde passavam o cano do papo amarelo e espreitavam a aproximação do seringueiro que pensava estar caminhando em direção à liberdade. Ai, era só esperar e matar...

Recuperado o saldo que o seringalista havia entregue muito a contragosto para aquele seringueiro trabalhador, bastava jogar o corpo no interior do Grutião para fazer desaparecer definitivamente todos os vestígios de mais um dos muitos crimes que já se cometeram nessa terra.

Mas, como não existe crime perfeito, restava ainda a memória que os outros seringueiros tinham do finado que havia lutado tanto para obter aquele maldito saldo que acabara por leva-lo a morte.

Surgia assim mais uma história que alimentava a fama maldita do varadouro que possuía até linha telegráfica entre os poderosos Seringais Esperança e Capatará.

Quantas gerações de acreanos nascidos e criados por essas terras interiores cresceram escutando contar a história do velho grutião? São preparados assim os futuros homens e mulheres da floresta, sabendo que em patrão não se confia e que atrás de cada sapupemba pode estar a morte. Criou-se assim a escola da resistência popular, onde a diferença entre os bons e maus alunos pode custar a vida. (Texto publicado na revista Outras Palavras, n. 10, dezembro de 2000.)


Desenho de Danilo de S´Acre para o texto “Euclidianas (I)”,
Revista Outraspalavras, 1999

Lembranças do presente

Esta semana, meio que por acaso, me peguei andando pelas ruas do bairro onde cresci já fazem mais de trinta anos. Nossa! Tanto assim??!! Como o tempo passa ligeiro! E devo confessar: fiquei muito surpreso. As paisagens da minha infância e adolescência não mudaram quase nada.

Diante de meu olhar atônito, que buscava e esperava mais as mudanças que as permanências, vi passar diversos ônibus que ainda carregam os mesmos números que me acostumei a conhecer de “cór e salteado” pra saber pra onde ir: 184, 597, 492, 583. Linhas que pegávamos, eu e a turma, só pra dar uma volta pela cidade, sem nenhum outro objetivo senão o de ver a paisagem, encontrar as meninas, possibilitar aventuras. É claro que naquela época era relativamente seguro andar de ônibus. Não tínhamos medo, portanto. Gostávamos especialmente dos ônibus “circulares”, aqueles que partiam de um determinado lugar e depois de passar por vários bairros da cidade voltavam pro mesmo ponto final de onde haviam partido.

Logo minha atenção foi atraída pelos prédios e edifícios alinhados em cada rua. Quem quer que ande pelas ruas do Catete, Flamengo, Largo do Machado, pode constatar a enorme riqueza arquitetônica e estética dos pequenos prédios de três ou quatro andares, ou dos enormes edifícios de dez, doze ou mais andares. Confesso que havia esquecido, mas aqui os prédios tem nome. Edifício Presidente Vargas, grande e imponente, como conviria ao velho político que tanto marcou a história da Republica brasileira. Mas existem outros também em que as referencias são menos explicitas ou até mesmo enigmáticas como edifício Palomar, ou Rio Azul. Não importam os motivos e os nomes, mas era pelos nomes que nós nos referíamos ao lugar onde morava aquela menina bonita que tinha se mudado recentemente para o bairro.

Aliás, esta era uma das nossas principais diversões naqueles tempos tão inocentes. Invadir prédios em que os porteiros estivessem distraídos e subir ao ultimo andar para depois sair em desabalada carreira descendo as escadas e tocando as campainhas de todos os apartamentos de perturbados moradores que vinham abrir suas portas pra ninguém. É claro que naquela época (anos 70) quase nenhum prédio tinha grades nas portarias e nenhum tinha interfone (uma tecnologia muito cara pra época). Muito diferente de hoje em que os edifícios parecem fortalezas onde só se entra depois de muita espera e confirmação do morador que vai ser visitado. Por isso tínhamos livre acesso a quase todos os prédios do bairro que invadíamos regularmente apenas pra misturar os tapetes das portas dos apartamentos e perturbar a vida dos moradores de um bairro onde ainda pudemos crescer inocentes e felizes como só as crianças sabem ser.

Além disso, nosso bairro era uma grande mistura de estilos arquitetônicos muito diferentes. Aos primeiros prédios ultra-modernos com fachadas inteiramente de vidro, se mesclavam edifícios com fachadas de pastilhas que formavam mosaicos de gosto duvidoso, intercalados por pequenos prédios de um precioso estilo art-decô (que eu nem sabia o que era naquela época), bem como por casarões e palacetes de arquitetura clássica - remanescentes de um período em que o chic era ser aristocrata e não burguês - que se pareciam com pequenos castelos repletos de colunas e frisos que incendiavam nossa imaginação infantil com histórias de famílias já desaparecidas no pó dos tempos, mas que ainda assombravam o famoso castelinho da Dois de Dezembro (a “minha” rua).

Nada disso eu percebia naquela época. Mas tenho que admitir que essas características marcaram definitivamente meu olhar. Até hoje sou fascinado por conjuntos de prédios, fachadas, janelas, varandas e sacadas de época. Não me canso de admirar e imaginar histórias vividas por personagens reais ou apenas intuídas através dessas criações da engenhosidade humana.

E foi assim que, nesta tarde apressada de cidade grande, por alguns momentos, voltei no tempo. Revivi cenas da tomada do prédio da UNE, nos tristes dias da Ditadura Militar e fiquei feliz ao ver um grande numero de jovens estudantes em frente ao muro (agora todo pichado e colorido) que existe no lugar do velho prédio que foi demolido porque não podia mais existir/resistir à força do autoritarismo. Recordei as tardes de catecismo e da minha primeira comunhão na igreja do Largo do Machado. Lamentei a ausência do velho Cinema São Luis que enchia meus olhos infantis com sua triunfal entrada de mármore e espelhos, bem como do Cine Politheama, nosso velho cinema “poeirinha” decadente, mas novamente movimentado depois que o sucesso estrondoso de Bruce Lee multiplicou os filmes de Kung Fu nos quais o “poeirinha” se especializou. E ao entrar na Praça São Salvador me rejubilei porque durante muitos anos não pude passar por aqui, já que a turma dessa praça era inimiga da turma da Dois e se eu aparecesse nessa área era humilhação na certa. Pude então andar despreocupado graças à certeza de que a poeira do tempo se encarregou de transformar aqueles meninos em senhores mais preocupados com o trabalho e as contas do fim do mês, como eu mesmo.

Entretanto, nem tudo foi felicidade neste fim de tarde. Havia explodido em toda a cidade a trágica notícia do menino de seis anos que foi arrastado do lado de fora do carro até a morte por animais transfigurados em homens durante um assalto na Zona Norte. As ruas e calçadas do meu velho e querido bairro da infância estavam cheias de gente como nunca tinha visto antes, provocando-me a impressão de que ali a população havia sido multiplicada por dez. E havia uma quantidade impressionante de homens, mulheres e crianças vivendo nas ruas. Os mendigos e os pivetes da minha época agora são definitivamente coisas do passado. Agora a população de rua é tão grande quanto a população que mora nos prédios. Uma população violenta porque violentada, composta por crianças sem futuro, mulheres sem esperança, homens sem motivos pra buscar qualquer coisa que não seja a próxima refeição, custe o que custar. Não pude evitar um sentimento de agressão, exclusão e decadência que pesou em meu coração que até há poucos momentos tinha sido apenas de encantamento.

Lembrei então das ultimas notícias do aquecimento global e das mudanças climáticas do planeta e pensar no mundo que vou deixar para os meus filhos. Bem como não pude deixar de lembrar das palavras daquela velhinha sábia que conheci um dia aqui no bairro São Francisco (o “meu” bairro) - e que atendia pelo codinome de “mãezinha” - dando conta de que nossa história está dividida entre o tempo da “Tribo dos índios do A”, do qual ela fazia parte, e da “Tribo dos índios do Ó”, do qual somos nós os integrantes. Uma divisão que deixa claro que estamos próximos e é nosso o fim dos tempos.

Ainda bem que de volta pra casa, ao sair pelo portão pra dura labuta cotidiana, olhei pra trás e vi os hibiscos da porta de minha casa carregados com flores rosa e brancas como há muito tempo não via e tive a sensação que nem tudo está perdido enfim...

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de fevereiro de 2007
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