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| ALMANACRE | ||
| Elson Martins | ||
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Dona Maria Ninfa (Regina Casé) é uma homenagem às parteiras e rezadeiras que correm os rios aparando crianças e dizendo rezas para curar quebranto, mau-olhado, espinhela caída e toda a sorte de males que atingem as pessoas. Dona Maria Ninfa é um nome real |
Mulheres guerreiras A minissérie “Amazônia” agrada e muito. A fase iniciada esta semana, na qual o gaúcho Plácido de Castro levou o exército de seringueiros a derrotar as forças bolivianas foi fiel à história. A autora seguiu como pôde os apontamentos de guerra do militar que se tornou “pai do Acre”. E nós, acreanos, ficamos orgulhosos de ver que o país e boa parte do mundo está vendo que descendemos de um povo heróico. Acredito que a acreana Glória Peres não deixará por menos a terceira e última fase, durante a qual enfocará a vida, luta e morte de Chico Mendes. Assumo a apreciação favorável, até para acalmar o Abrahim Farhat, nosso “Lhe”, que andou resmungando contra a Glória Perez a ponto de transgredir sua habitual ternura no trato com as pessoas. Fazia até pouco caso da autora global, referindo-se a ela como “essa menina”. O que o aborrecia era a profusão de “quengas” enfiadas num tema tão sério. Ele me telefonou para desabafar, repetindo um dia após outro: “Essa menina estará querendo dizer que eu sou bisneto de uma quenga”? |
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DelzuÍte (Geovana Antonelli), uma filha de seringueiro sonhadora que conseguiu fugir do seringal e viver muitas venturas e desventuras na cidade grande! | |
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Nos primeiros tempos, a população dos seringais era quase exclusivamente masculina. Amelinha (Betty Goffman) chega num barco de mulheres que o coronel manda trazer de Manaus para vender aos seringueiros. Danada, Amelinha preferiu escolher e comprar um deles! | |
Bom, é difícil saber quando Abrahim está zangado de verdade! Pelo sim, pelo não, na semana em que se mostrava mais indignado, entrou em cena o libanês Nassif, que fugiu com Delzuite para Manaus e a formoseou com roupas e jóias bonitas, até receber de volta um par de chifres. A cena doeu no coração do velho Lhe e ele se rendeu, conformado: “Veio, não tem jeito! Nós somos mesmos netos e bisnetos das quengas”! Claro que o acalmei: “Que mal há nisso?”- provoquei, acrescentando que até me orgulho dessa descendência, seja real ou não, pois a sociedade que herdamos é original e criativa. Aliás, aproveito para dizer que a atriz Giovana Antonelli tem feito uma Delzuite pra ninguém botar defeito: seu personagem é uma quenga, nascida no seringal, com coração e mente que brilham de afeto e curiosidade. A vergonha e caipirice dela produz um sentimento faceiro, uma alma de olhar medroso mas cintilante, que nos leva às lagrimas. Meu Deus! Giovana poderia permanecer na vida real como Delzuite, porque o papel lhe coube tão bem e ela ficou tão linda assim! Será que uma atriz não pode incorporar, para sempre, um personagem que valha a pena, com cheiro e cor de flor selvagem? Nos capítulos exibidos esta semana, meus estímulos ideológicos ficaram aguçados. Lembrei até do tempo em que estudava em Belo Horizonte, em meados dos anos sessenta, e fazia parte da platéia do Cine Metrópole que aplaudia no escuro - para provocar a ditadura militar brasileira - o filme “Os Companheiros”, de Mário Monicelli. Aplaudia com a força de quem dispararasse um fuzil contra alvo hostil. Pensei então: Caramba, se não acontecesse do Plácido de Castro e nossos seringueiros terem feito bater em retirada o tal Bolivian Syndicate, um cambalacho norte-americano interessado nas riquezas do Acre e de toda Amazônia, que seríamos hoje? Uma Guiana Americana? É uma pena que estas reflexões estejam tão fora de moda! Daí, percebo que a minissérie “Amazônia” pode não ser apenas um produto de entretenimento da poderosa Rede Globo de Televisão, mas algo melhor, como um ato de amor da acreana Glória Perez por sua terra. E talvez o reconhecimento de uma equipe de profissionais competentes que se entregou de corpo e alma ao deslumbramento da floresta e, de joelhos, referencia nossa história. Logo, logo, a mini –série vai entrar nos capítulos sobre Chico Mendes e toda luta acreana mais recente. Graças a Deus, não vamos assistir a nenhuma tese de mestrado ou doutorado, pois em televisão não cabe isso. Basta sua linguagem eletrônica e colorida para entendermos como os podres poderes e as elites nacionais e locais se empenharam em ignorar a tradição, a cultura e os sonhos acreanos, para plantar capim e vacas onde sempre existiu floresta e gente. Foi só um pesadelo, ou teria sido uma tragédia se os netos e bisnetos das quengas do passado não resistissem? Isso mesmo: foram os mais excluídos e pouco alfabetizados empregaram sua força, união e sabedoria para salvar a honra histórica do Acre. A cueca justa do general Leila Jalul Esse fato aconteceu nos tempos da Dona Dita. Tempos em que os Generais ocupavam ministérios e, na quase totalidade, faziam plantão nas universidades, nos órgãos federais, estaduais e municipais. Pelo que sei,no ninho de cobras, de tudo teve um pouco. General dando chute em portas de gabinete, fechando geladeiras com a bunda, litros de uísque nas mesas de despacho, governador chamando chefe de gabinete de corno, enfim, um esculacho total. O negócio da reforma agrária, esse sim, tinha de ter um general para acabar de vez com a cambada de comunistas que defendia esse povinho safado, como eram julgados os trabalhadores rurais. “Quem quiser nascer viçoso, bote estrume no cu da mãe, esses vagabundos não fizeram nada e agora querem terra!”, assim dizia o general. Era o “cara”! Ou melhor, pensava que era. O vale do Baliá, mais explicitamente falando, a classe política, queria, fosse de que jeito fosse, mandar o general para a reserva. Para seu lugar, tinha na agulha, um oficial de patente mais baixa. Mas como, se quem pode mais, pode mais? Não interessa. Vamos arquitetar um plano, assim concluíram a reunião os políticos e militares presentes. O serviço de inteligência ficou incumbido de armar estratégias, apresentar o projeto, custos, cronograma de desembolso, objetivos gerais e específicos. Tudo como manda a inteligência. Data e hora marcada, projetor de slides, começa a apresentação. O projeto era cifrado. Tinha um nome esquisito, que me lembrava uma música cantada pelo Noite Ilustrada: Algodão por Veludo. Alguém lembra? “Camelô, na conversa, ele vende algodão por veludo. Tá provado porque nesse mundo tem bobo pra tudo... tem alguém que é bobo de alguém, apesar dos estudos, não tem bronca, porque nesse mundo tem bobo pra tudo”... mais ou menos assim. Os custos do esquema eram pequenos, quase irrisórios, considerando-se os resultados. Uma passagem de ida e volta, uns poucos litros de uísque, gelo de água de côco e a contratação de meia dúzia de beldades locais para o grande evento, às margens da Lagoa Negra. Já no aeroporto, o vovô cinco estrelas bem poderia ter começado a desconfiar. Mas foi, foi, impelido pela vaidade e amparado pela patente. Hospedou-se no melhor hotel, onde banhou-se e emperiquitou-se, passou Lancaster até debaixo dos sovacos. Deve ter pensado, antes de sair para a festa: é hoje!!!! No salão grená do clube da Lagoa Negra, luzes pelo ar, mulheres (inclusive as do comitê de recepção) bem vestidas, que nem no tempo do rococó, ofereciam muito uísque ao General. Muiiiiiiiiiiito uísque com gelo de água de côco, em copos apropriados, de fino cristal comprado em Arica. Rodadas de Pitu que mais parecim lagostins eram servidos como delicatesses. Coisa de primeiro mundo. Aí é que entra a segunda fase. A hora da dança. O mestre de cerimônia coordena tudo, exemplarmente, como mandava o figurino. Cinturas finas e bundas de Tanajura dançavam freneticamente, quase se encostando nos pertencidos do Doutor General. Tava na hora da fase três. Hora de tirar a roupinha. - Nosso homem já está trêbado. - Meninas, tirem a roupa dele. Aos poucos. Fiquem sem mostrar o rosto de vocês, já estou fotografando... assim... assim... Só se via o pipocar dos flashs. - Tá bom, chega! General de cueca samba-canção,engatinhando,língua de fora, com cara de gu-gu-dá-dá... No outro dia cedo, dor de cabeça lascada do Ballantines 12 anos, um envelope com as fotos e um bilhete. General, go home! Não demorou nada, o Coró foi empossado,sob aplausos e muitos discursos, com a presença de muita gente, inclusive as beldades do comitê de recepção. |
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