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“Como é bom saber tocar um instrumento” Acre ganha sua primeira fábrica de instrumentos musicais produzidos artesanalmente com madeiras nobres encontradas só na Amazônia |
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Dizem as más ou boas línguas (no meio artístico as definições nunca são exatas) que a música “Tigresa” (Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel/Uma mulher, uma beleza que me aconteceu/Esfregando sua pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu/Me falou que o mal é bom e o bem cruel...) foi feita por Caetano Veloso para ninguém menos que a atriz Sônia Braga, hoje uma bela balzaquiana que à época, nos anos 70, início dos anos 80, explodia em formas, beleza e talento a ponto de povoar a imaginação até de quem, também dizem, não seria exatamente do ramo. Depois de esgrimir versos belíssimos, Caetano encerra a letra contando que correu para o violão e, mesmo num lamento, “a manhã nasceu azul” - aliás, de forma definitiva, afirma aquilo que todos nós, desafinados inclusive, sempre soubemos: “Como é bom saber tocar um instrumento”. É de Caetano e sua frase que, mesmo quem é capaz de desafinar até ao bater palmas, se lembra ao ouvir o som de cavaquinhos, bandolins e violões docemente criados e tocados por mãos de meninos os quais descobriram que a floresta amazônica, além de seus encantos, também é habitat da madeira ideal para a sonorização de instrumentos tão delicados. “Se é bom tocar um instrumento, como diz Caetano, imagine poder fabricá-lo e saber que ele vai ganhar o mundo, levando alegria e emoção às pessoas”, filosofa, do alto dos seus 22 anos, o amazonense Francimar Meireles, com cara e jeito de menino, mas já um experimentado lutier. Ele vem a ser um dos principais articuladores da Luteria Nativoz da Amazônia, que funciona faz cinco meses em sistema de parceria com a Rede Acreana de Jovens em Ação (Reaja), situada na rua Vitória, número 60, bairro da Conquista, em Rio Branco. Meireles, aliás, é fruto de um ousado projeto do músico e lutier amapaense Rubens Gomes, o “Rubão”, que viveu no Acre nos anos 80. Depois de conhecer aqui o gosto amargo do insucesso em várias atividades, como barman, professor de música e empresário, mudou-se para Manaus (AM) e lá fundou, há oito anos, a Oficina Escola Lutheria da Amazônia (Oela), atuando com jovens e adolescentes em parceria com a Secretaria de Florestas do Governo do Acre e com a ONG ambientalista WWF. O sucesso desta vez foi tamanho que permitiu a Francimar Meireles, mesmo não sendo pioneiro na descoberta, fazer o caminho inverso de seu mestre em busca de matéria prima de qualidade para a fabricação dos instrumentos. Não se arrependeu. “O Acre detém uma variedade de roxinho, macacauba, canela, amarelão, murapiranga, ipê e outras espécies que são fundamentais para a confecção do tampão, do fundo, braço e laterais de violões, bandolins, cavaquinhos e até de guitarras”, disse o lutier. “Nossa dificuldade aqui seria para a aquisição das peças de metais necessárias a todos os instrumentos de cordas. Mas como está se instalando aqui a empresa Hering, essa dificuldade vai acabar”, diz Meireles. Músico atesta que produtos são de excelente qualidade Francimar Meireles, a propósito, não é músico. No máximo afina e “arranha”‘ alguma coisa nos instrumentos esteticamente irrepreensíveis que fabrica com a ajuda de seus “discípulos”. Por isso, na hora de testá-los, recorre à experiência e ao talento do carioca Antônio Carlos Nascimento, de 57 anos, que vive no Acre desde o ano 2000, que se define como músico “desde quando estava na barriga da minha mãe”. A definição não é nenhum exagero. O xará de Tom Jobim, um dos maiores maestros brasileiros em todos os tempos, é filho e neto de músicos. Seu avô materno é ninguém menos que Ladário Teixeira, uma autêntica lenda da música instrumental brasileira. Cego de origem, inteligente e inspirado, sentiu, desde cedo, a vocação para a música. Um velho saxofone encontrado no porão da casa onde residia com os pais, na Uberlândia (MG) do início do século passado, dedilhado dia e noite, foi seu companheiro até que, pelo tato, conseguiu se assenhorear da anatomia do instrumento e tirar dele o som próximo da perfeição. A partir daí empreendeu excursão por diversas cidades e centros de cultura artística, onde pudesse demonstrar o instrumento considerado obsoleto com o aparecimento do jazz. Em São Paulo, solicitou exame no Conservatório. Quando anunciou seu repertório, um dos futuros professores teria lhe dito: “Mas este programa é clássico e de violino! Será que você não sabe que um sax não pode tocar essas músicas?” “Pode sim, professor, vou tirar uma extensão muito maior do que qualquer outro músico”, redargüiu Ladário, segundo conta, orgulhoso, o seu neto Antônio Carlos. “Depois de ouvi-lo, o diretor do conservatório disse-lhe: Teremos prazer em admiti-lo no Conservatório, para aprender qualquer outro instrumento, pois, para o sax, não temos professor que possa ensinar mais do que já sabe”. Em virtude disso, Ladário matriculou-se e fez o curso de violino. Depois de maravilhar São Paulo, embarcou para a Europa. Em Barcelona, após notável triunfo, o filho de Adolph Sax (inventou do instrumento) beijou-lhe as mãos dizendo: “Meu pai inventou o saxofone, mas o senhor fez dele um instrumento digno da admiração do mundo inteiro”. Para fugir do analfabetismo imposto pela cegueira, Ladário aprendeu a ler e escrever em Braile, passando a ensinar seus colegas. Em 1923, de novo na Europa, apresentou-se em concerto no Salão Pleyel, interpretando Boellman, Galkine, Anderson, Liszt, Berliot e Rimsky Korsakov, executando o que somente ele podia em sax. “Ele teve os impostos cobrados devolvidos em mãos pelo prefeito de Paris, com a justificativa de que um instrumentista de tal valor deveria, inclusive, receber uma pensão dada pelo povo e não pagar impostos”, acrescenta Antônio Carlos, com base na biografia do avô. Nos Estados Unidos, Ladário Teixeira é considerado um dos maiores saxofonistas do mundo. Ladário Teixeira faleceu aos 68 anos de idade no dia 3 de agosto de 1964, em Belo Horizonte. Deixou viúva Lúcia Dias Teixeira - uma exímia pianista que ele conhecera num concerto - e os filhos Lúcia, Hebe, Aída, Celso, César e Ladário Júnior. Aída, a filha, que tocava piano assim como sua mãe, é a mãe de Antônio Carlos, cujo pai - Antônio Carvalho do Nascimento, também tocava violão tenor. Portanto, Antonio Carlos é o que pode se dizer de um homem que cresceu ao som de saraus e de música clássica. Com mais de 40 anos de atuação profissional, Antônio Carlos tocou com os grandes musicistas do país e em 2000, depois de passar por Manaus como sócio de uma loja de instrumentos musicais em busca da madeira ideal para a fabricação do bandolim, o que ele mais prefere tocar, acabou por vir parar em Rio Branco, por sugestão do lutier Rubão. “Não sei o que é, mas alguma coisa mais forte do que eu me empurrou para cá. E também me faz ficar. Vim para ficar três meses e estou aqui há mais de seis anos. Toda vez que penso e me apronto para ir embora, surge um novo projeto e eu vou ficando”, diz Antônio Carlos. Exportadora catarinense também se instala no Acre Sediada em Blumenau, Santa Catarina, a Hering Indústria Comércio e Exportação Ltda, fundada em 1923 pelo imigrante alemão Alfred Hering, é a mais tradicional empresa brasileira na fabricação de instrumentos musicais de alta qualidade, como guitarras, gaitas e contrabaixos, que exporta para todo o mundo e está em fase de instalação no Acre, no novo Distrito Industrial de Rio Branco. Trata-se de um investimento da ordem de RS 6,6 milhões, com geração de pelo menos 120 empregos diretos na fabricação de peças sofisticadas que requerem investimento tecnológico e madeira de primeira qualidade, de fato muito abundante no Acre. A empresa iniciou suas atividades no país fabricando as chamadas harmônicas (gaitas de boca) e hoje sua linha de produção inclui mesa para piano, “paquetas” para baterias, base de partituras, bongô, guitarras e baixos Walker. A padronização do timbre musical requer que a madeira utilizada seja da melhor qualidade possível. “As madeiras utilizadas em nossos instrumentos são, para o corpo da guitarra ou do baixo, o Marupá ou Cedro, o Marfim Imperial para o Braço e Marfim ou Nectandra Negra para as escalas. Mas não basta que a madeira seja de boa qualidade. Ela tem que ser certificada, originárias de áreas que não agridam o meio ambiente. Afinal, são instrumentos que vão tocar o coração das pessoas com a música e a poesia. Então, esses instrumentos não podem ser fabricados com madeiras retiradas de forma ilegal ou que agridam a natureza”, afirmou Alberto Bertolazzi, diretor da empresa. Todas as madeiras citadas pelo fabricante estão ameaçadas de extinção e daí a necessidade de alternativas na Amazônia. “Quando passamos a produzir essas novas linhas de produção, passamos a nos preocupar com a utilização de produtos adequados, com a madeira certificada. Já que a arte é uma coisa sensível, é preciso que os fabricantes de instrumentos musicais acordem e deixem de destruir a natureza. Eu proponho que todos os fabricantes sigam o nosso exemplo. Foi neste sentido que o Acre entrou em nossas vidas”, afirmou. “Quando fizemos uma pesquisa para saber onde teríamos madeira de qualidade e certificada, o Acre foi-nos apresentado como o local ideal, seja pela seriedade com que o Governo atua na atração de empresas e indústrias, seja pelo respeito ao meio ambiente”, disse Bertolazzi. Com uma concorrente de tamanha tradição, tecnologia de ponta e muitos recursos financeiros, não seria pretensão demasiada que um grupo de meninos ousasse qualquer concorrência a partir de uma oficina de fundo de quintal num bairro de periferia? – a pergunta soa inevitável. Meireles não se impacienta: “Pelo contrário. Nós inclusive já fizemos contato com a direção da empresa e sei que será possível trabalharmos em conjunto porque a Hering trabalha com grande produção. Nós vamos trabalhar mais a estética, com algo mais apurado, que também tem espaço no mercado” – diz o lutier, confiante. “Um bandolim nosso vai chegar ao mercado em torno de 800 a mil dólares, porque será algo fino, artesanalmente bem acabado”, acrescenta. Os primeiros protótipos já saíram e estão em fase de testes. A Luteria já envolve oito pessoas, além de Meireles. “Nós trabalhamos com o que chamamos de discipulado. Cada lutier que melhor se sobressai, pode convidar dois discípulos para acompanhar sua técnica”, revela Meireles. Clube do Choro a caminho de se tornar escola de música No Acre, um dos primeiros projetos de Antonio Carlos foi fundar o conjunto “Som da Madeira”, formado essencialmente por jovens da periferia de Rio Branco. O conjunto ganhou a simpatia de Jorge Viana, então governador do Acre, que convidou o grupo a acompanhá-lo em suas andanças pelo interior do Estado durante a prestação de contas das ações de seu primeiro mandato. “O fato é que o bom resultado que alcançamos, com a revelação de músicos e artistas de primeira grandeza, nós devemos muito, entre ouras pessoas, ao governador Jorge Viana, cuja sensibilidade deu oportunidade a vários garotos e garotas que hoje estão na estrada, tocando e cantando como profissionais”, conta Antônio Carlos. Entre os jovens, o músico cita Renata Dourado, intérprete; Mateus Dantas, violão, que parou de tocar por problemas na coluna; Paulinho Baterista, entre outros. O grupo também ganhou num padrinho forte, o economista Gilvandro Soares de Assis, então subsecretário de Segurança Pública, que o adotou como parte do programa “Polícia da Família”. “Nós íamos aos bairros mais pobres, tocar e apresentar os instrumentos para crianças e jovens pobres que, sem aquele programa, não teriam contato nenhum com a música. Era um programa muito bonito, que não sei por que parou”, disse Antônio Carlos, visivelmente emocionado. Agora, além de testar os instrumentos fabricados pela Luteria Nativoz da Amazônia, Antonio Carlos se dedica ao Clube do Choro, fundado em maio de 2005, cujos sócios fundadores são, além do músico, o jornalista que assina a presente reportagem, a vereadora Maria Antônia (PT), seu filho Gilvandro Assis, o prefeito Raimundo Angelim, o sociólogo Marcos Inácio Fernandes, o artista plástico Dalmir Ferreira, entre outros. “A idéia é dar ao Clube do Choro do Acre a mesma visibilidade do Clube de Brasília, o mais famoso do país”, diz Antônio Carlos. “Assim, vamos botar o Acre no circuito internacional da Música Popular Brasileira. Há clubes de choro em Tokyo, em Nova York, em Paris e nós estamos nos preparando para que o nosso, graças ao talento dos músicos acreanos, também entre neste circuito”, acrescentou. Ao que tudo indica, apesar de pretensiosa, a proposta não é irrealizável. Com a ajuda do senador Tião Viana, o Clube acaba de conseguir a aprovação, via Ministério da Cultura, de projetos cujos recursos serão suficientes para promover o programa “Rio Branco Musical”. O projeto já trouxe a Rio Branco músicos como Mozart Melo, Celso Pixinga, Giba Faveri e outros. Para este ano, a programação prevê cursos e apresentações de medalhões como Sidnei Carvalho, Armandinho, ex-gruitarrista do grupo “A Cor do Som”, o filho de Dodô, parceiro de Osmar, inventores do trio elétrico baiano, além do gaúcho Yamandu Costa, um gênio do violão, Altamiro Carrilho, Amilton de Holanda e outros. “Além de se apresentarem para o público acreano com música de qualidade, esses artistas vão passar seus conhecimentos para os artistas acreanos”, revela Antonio Carlos. Paralelo a isso, o Clube do Choro desenvolve ainda o projeto “Jeito de Tocar Música Brasileira”, sempre às sexta-feiras, no Bar do Grácil, na Gameleira. “Esses projetos estão sendo tocados com o patrocínio do Basa e agora estamos contando com a ajuda do senador Tião Viana, que tem se envolvido, como cidadão, com uma coisa que será legal para o Acre. O que pretendemos, daqui por diante, é criarmos uma escola de música local que possa percorrer o interior e as periferias das cidades, incentivando e buscando novos talentos. A vereadora Maria Antônia e o senador Tião Viana vêm sendo importantes neste projeto. A Luteria que está sendo fundada aqui é parte disso”, afirma Antonio Carlos. Quanto à qualidade dos instrumentos produzidos pelo lutier Francimar Meireles, Antônio Carlos afirma, com a experiência de quem já ouvia música antes mesmo de nascer, que são de excelente qualidade. “A Amazônia não é rica só em biodiversidade. É em sonoridade também”, atesta. Para quem, claro, sabe o quão é bom tocar um instrumento. |
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