| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Crônica de uma morte anunciada Acompanhando o desenrolar da Minissérie “Amazônia” vimos na semana passada alguns episódios da guerra comandada por Plácido de Castro e veremos nesta semana os momentos finais de sua vida. Por isso, trazemos hoje à coluna dois textos escritos por motivos distintos. O primeiro, publicado na coluna “O Acre é cem”, contextualiza seu envolvimento na questão acreana e o segundo - ainda inédito, é ficcional e retrata os dias que antecederam seu assassinato - foi escrito na forma de representação teatral para compor a cerimônia de entronização de Plácido no Panteão dos Heróis da Pátria em Brasília há alguns anos atrás. Estes textos talvez reflitam mais como Plácido de Castro via a si próprio do que aquilo que ele efetivamente foi, afinal não são poucos os historiadores que querem rever a participação deste personagem na história do Acre. Entretanto, são simbólicos da trajetória que marcou a formação da sociedade acreana que infelizmente conheceu muitas mortes anunciadas ao longo de sua história. O destino de um homem comum A grande maioria dos milhares de imigrantes que começaram a chegar às terras acreanas em fins do século XIX era de homens comuns que não possuíam mais do que coragem e uma enorme vontade de prosperar. A imensidão amazônica, as agruras da vida solitária no interior da floresta e a ameaça constante da malária e do beribéri não eram obstáculos suficientes para impedir aqueles homens, que não traziam na bagagem nada além de seus dramas pessoais, de buscar seus sonhos de fama e fortuna. Ele tinha 26 anos de idade quando chegou à Amazônia, em 1899. Vinha seduzido pela ótima remuneração que a agrimensura obtinha naquela região. No início se associou a alguns engenheiros que trabalhavam na demarcação de terras e em pouco tempo já reunia condições para trabalhar por conta própria. Logo, como era de se esperar, contraiu o impaludismo (nome que a malária recebia na época) e teve sua vida transformada numa luta permanente contra essa moléstia. Mas seus infortúnios não cessaram por aí. Apesar de toda a determinação com que esse rapaz costumava encarar os desafios que se colocavam à sua frente, parecia que algo conspirava contra ele, tantos eram os sofrimentos com que se deparava a todo instante. Como quando, durante uma demarcação, inadvertidamente tomou água envenenada pela folhagem do Açacu e ficou à beira da morte. A floresta cobrava caros tributos daqueles que não conheciam seus segredos. Em outra ocasião, durante uma de suas peregrinações profissionais, a lancha que o conduzia naufragou no Baixo-Purús e teria arrastado consigo a alvarenga com todos os passageiros se o jovem agrimensor não tivesse cortado os cabos que ligavam as duas embarcações. Mas como a sorte costuma aparecer tão inesperadamente quanto o infortúnio, foi exatamente por causa desse naufrágio que o jovem conheceu o padre Manoel Laurindo, que regressava de sua terceira expedição fracassada a procura de uns campos que diziam existir naquelas paragens. Depois de algum tempo de conversa, o padre lhe mostrou um roteiro indicando a existência dos campos que procurava e lhe propôs sociedade na procura daquelas cobiçadas terras. A proposta foi aceita imediatamente. Partiram na manhã seguinte e no segundo dia encontraram aqueles campos tão valiosos para a engorda do gado proveniente da Bolívia. Na partilha, tocaram-lhe 21 km2 de terras, que requereu ao Governo Amazonense com o nome de Carioacanga. Algum tempo depois, em meados de 1902, o jovem agrimensor trabalhava no Alto-Acre demarcando o seringal Vitória de José Galdino, quando interrompeu o serviço para receber um inesperado convite dos mais poderosos seringalistas da região. Como soubessem da experiência militar que teve no Rio Grande do Sul, sua terra natal, durante a Revolução Federalista, os Coronéis de Barranco chamaram-no para comandar um exército de seringueiros contra a Bolívia e proclamar novamente o Estado Independente do Acre. * Ao aceitar, o jovem de apenas 29 anos chamado Plácido de Castro, começava a mudar seu destino e a escrever seu nome na história do Brasil. * Informações extraídas do livro de Genesco de Castro Monólogo Ao longe: Som de tiros, homens correndo, canhões. Vozes que gritam em meio à balburdia da batalha: - Corram homens, ocupem aquela trincheira! - Ali! Ali! Os bolivianos estão se reagrupando no flanco esquerdo. A gritaria e os sons de tiros de metralhas e canhões se intensificam em meio a gritos e passos de homens que correm. - Força agora! Eles estão recuando - Coragem homens! A vitória é nossa! O Acre será livre! O som vai abaixando e ficando distante como uma memória que fica no passado... A luz vai se acendendo em cima do homem que, além de sua roupa, usa uma manta como se tivesse frio, apesar de suar. O homem que olhava para frente vendo as imagens do passado se reclina sobre uma folha de papel e pegando a pena começa a escrever... Voz em Off: AHHH!!!! A lembrança da vitória na guerra não é doce como a recordação da mulher amada, mas é a mais quente de todas as saudades. E como me conforta lembrar do memorável dia em que tomamos Porto Acre. É o único remédio que me ajuda a enfrentar o frio atroz provocado pela malária. Mas mesmo em meio às minhas melhores lembranças, hoje me sinto tão estranho?!?! E não é só pela febre da malária porque essa já é uma antiga companheira com a qual estou acostumado depois de dez anos de Amazônia. Por um lado estou feliz porque faz seis anos desde que começamos nossa vitoriosa Revolução em Xapuri. Mas um peso amargo me oprime o coração. Sinto entre meus lábios o gosto da morte próxima. Um gosto que me é tão familiar depois de tantas guerras de que participei, mas que nunca havia sentido tão perto de mim antes. Nem mesmo nas trincheiras de Porto Acre onde as balas sibilavam em meus ouvidos sua musica macabra de metal e sangue. Será minha morte que se aproxima ???!!!! Não é difícil! Os sicários do tal Gabino Bezouro me seguem, me vigiam, estudam meus passos. Eu finjo que não estou vendo, mas sei de seus planos para me pegar em emboscada. É a sina de pelear que me persegue... Não queria mais lutar. Hoje só queria tocar minha própria vida, meu seringal e um dia trazer minha doce Moreninha para viver aqui comigo. Ah!! Sonho distante e tão longamente acalentado. Que saudades... de ti Morena e de minha mãe. As duas únicas pessoas que me fazem falta nessa vida de sacrifícios e renuncias. Mas... Como conviver com tantas injustiças impostas pelo governo brasileiro a nós acreanos... Como aceitar calado que eles, que sempre recusaram o Acre, venham agora impor um governo autoritário e sem a nossa participação. Logo nós, que lutamos para tornar essa terra brasileira, agora somos excluídos de participar das decisões e do destino do Acre. Não!!! É Impossível aceitar calado! Não está na minha natureza. É certo que não mais voltarei a pegar em armas. Não contra o governo de meu próprio país. Apesar de todas as suas injustiças. Sei que os governos são feitos por homens que imprimem suas paixões e defeitos no país que dirigem. Mas essa terra farta e generosa não tem culpa das imperfeições humanas. Amo esse país onde nasci. Foi essa a única herança que recebi de meu pai. Ele acreditava firmemente na força e importância de nosso Brasil e com essa fé nos educou. Não posso trair sua memória e sua esperança. Sua alma sabe que mesmo quando lutei entre os maragatos do Sul, não era contra meu país, mas contra o centralismo de Floriano que queria sujeitar o sul sob suas botas acabando com nossa dignidade. Um povo valente como o nosso não se submete tão vergonhosamente assim. Mas de que adiantou? O governo atual não é tão centralista e autoritário como aquele outro? Não será o que estão fazendo no Acre uma injúria ao sangue derramado em nossa luta pela libertação do domínio estrangeiro? De que valeu lutarmos para sermos brasileiros e agora sermos oprimidos por nosso próprio governo a quem só interessa a fortuna dos impostos sobre a borracha? Quanto aos acreanos... que se lixem! Engulam essa terrível invenção de Território Federal do Acre. Não! Não me calarei jamais diante dessas injustiças. É por isso que sinto que neste momento estão tramando minha morte. Irão me matar, mais cedo ou mais tarde. Talvez amanhã, daqui a três dias, uma semana, ou um ano. Não importa. Irão me matar porque não posso me calar. Aqui no Acre conquistei mais do que uma terra. Compartilhei com muitos outros homens o sublime sabor da luta pela liberdade e experimentei sacrifícios extremos para conquista-la! Vi homens morrendo sob as balas estrangeiras e vi em seus olhos o misto de medo e de coragem que toma conta dos soldados em guerra. Conheci o terror dos enforcamentos e fuzilamentos, a dor dos feridos nas trincheiras alagadas pela chuva interminável de nossas florestas, aprendi a infinita determinação dos que nada mais tem a perder e lutam por seu país como quem defende a própria vida. Por todos eles não posso mais me calar, mesmo que deseje profundamente não mais lutar, tampouco poderei silenciar. Por isso vou morrer, porque minha voz será sempre a voz dos meus soldados, homens e mulheres simples que apenas desejaram ser acreanos e brasileiros. Devo isso a eles. Então que seja... morrerei... e regarei a terra acreana com meu sangue para que nunca possam nos tomar o Acre. Sangue que será a marca desse jovem povo amazônico e a garantia de que essas terras não serão de ninguém senão dos acreanos porque essa é, e para sempre será, nossa causa e nossa honra! Villa Rio Branco, 06 de agosto de 1908. |
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