OPINIÃO
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Tião Vitor *

 

 

O petróleo e a questão da água

O Acre se vê hoje em meio a uma discussão sobre a existência ou não de petróleo em seu subsolo. Essa parece ser uma discussão contraditória para um Estado que tem como lema a florestania e como meta principal o desenvolvimento sustentável e a defesa do meio ambiente. O petróleo é um combustível fóssil extremamente poluente. A queima de seus derivados, como o óleo diesel ou a gasolina, é responsável por grande parte do efeito estufa, que eleva a temperatura da terra e pode provocar grandes mudanças climáticas no mundo e até a extinção da vida humana na terra.

A questão que o Acre vive hoje é um paradoxo difícil de entender. É claro que a extração do petróleo trará benefícios para o Estado em curto prazo. Esses benefícios dificilmente serão alcançados se a economia acreana se mantiver baseada no extrativismo, na agricultura ou até mesmo na pecuária. Também está claro que, se há petróleo no Acre, cedo ou tarde ele será explorado, seja por brasileiros, seja por estrangeiros. Então que seja agora. E por brasileiros!

Na sociedade capitalista atual, a geração de energia é fundamental, mas em pouco tempo a tônica das discussões comerciais deverá mudar de foco, voltando-se para bens fundamentais para a conservação da vida. A água é um desses bens.

O paradoxo se dá porque essa era a hora em que o Acre, como o Estado da florestania, deveria estar travando discussões em torno de questões que envolvam verdadeiramente a conservação desses bens e a garantia dos direitos dos brasileiros sobre eles.

O agravante nessa questão se dá pela constatação de que as reservas mundiais de água estão se esgotando. O resultado do efeito estufa e do aquecimento da terra já é notado facilmente quando se observa que mananciais estão secando e que a desertificação avança sobre locais onde antes predominam as florestas. O que os acreanos viveram em 2005 foi também um exemplo. Naquele ano aconteceu uma das maiores secas que a história moderna do Estado já registrou. As previsões futuras apontam para um quadro ainda mais caótico.

A crescente demanda da indústria e a poluição de córregos, rios e aqüíferos também reforçam as preocupações quanto à escassez da água.

E o que o Acre ou a Amazônia tem com isso tudo? Ora, tem tudo a ver. É na Amazônia que está uma das maiores concentrações de água doce do mundo. Também é na Amazônia e no próprio Acre que se encontra a maior floresta do planeta, floresta que pode contribuir para a purificação da atmosfera e eliminação dos gases que provocam o efeito estufa.

Mas é com relação à água que os interesses comerciais serão baseados num futuro próximo. É com eles que teremos que nos preocupar, cedo ou tarde.

O petróleo que hoje se anseia tanto encontrar nas terras acreanas deve ser substituído nas disputas territoriais e econômicas por um produto formado por uma combinação simples de hidrogênio e oxigênio, produto existente na Terra desde a sua formação geológica, ou seja, a própria água.

Quem duvida de que a recente invasão do Iraque tenha se dado por questões econômicas e não humanitárias? Quem ainda acredita que os interesses dos Estados Unidos não tenham sido outro que não o petróleo? E quem duvidará de que o Iraque de hoje venha ser o Brasil de amanhã, não por causa do petróleo, e sim por causa da água?

Quanto custará um litro de água daqui a cinqüenta anos? Ou mesmo um copo? Nos dias de hoje perguntas como essas não são tão fáceis de responder. Quanto poderio militar poderá ser utilizado para garantir a uma nação o controle sobre as reservas de água? Essa pergunta é bem fácil de visualizar uma resposta. Afinal, os exemplos que se têm nos dão uma visão do que se pode fazer quando interesses comerciais estão em jogo. Comerciais porque, como já foi relatado acima, a água, que para nós é um bem natural dos mais essenciais, vai se tornar um produto valorizado e negociado em bolsas de valores. É estranho falar assim, mas essa é uma realidade que teremos de enfrentar num futuro bem próximo e por isso devemos nos preocupar já, a partir de agora.

Diante desse quadro, o que se deve fazer? Como nós, brasileiros, devemos nos portar frente a uma situação como essa?

Em primeiro lugar, deve-se ter consciência de que a questão não é apenas ecológica, ou preservacionista, mas fundamentalmente econômica. Os invasores não virão aqui pensando garantir a vida dos colibris, das seringueiras ou defender a melhoria da qualidade de vida dos povos da floresta, mas, fundamentalmente, no quanto poderão ganhar com o comércio de água.

Em segundo lugar, é preciso ter consciência da soberania dos brasileiros sobre seus recursos naturais. Mais do que isso, deve-se ter a consciência de que é necessário lutar para garantir essa soberania. As ações efetivas nesse sentido devem começar a partir de agora. Não se pode esperar que o Brasil seja invadido para só depois dizer: “a água é nossa”, como na década de 1940 bradavam os estudantes nas ruas dos grandes centros do país referindo-se à defesa da soberania brasileira sobre as reservas de petróleo.

Por último, tão fundamental quanto às mediadas anteriores, é a efetiva ação de preservação. Todos são responsáveis pela vida e pelos bens naturais comuns. Não adianta afirmar que vamos lutar pela soberania brasileira sobre esses bens quando no momento nada fazemos para evitar que as matas sejam derrubadas ou que a soja avance cada vez mais sobre a floresta.

É importante enfatizar aqui a necessidade de provocar discussões como essa na ordem do dia e buscar soluções para um problema que se avizinha. Isso, sim, é imperativo para o bem da vida.

* Jornalista

 
 
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Rio Branco-AC, 11 de março de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
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Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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