ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins


Em pé (da esquerda para a direita): Eucilene Lima, Edegard de Deus (coordenador da Biblioteca), Joaquim Maná (professor Huni Kuin), Marisa Fontana, Geovânia Barros, Ádamo de Souza, Elizelda Pinheiro, Aldenira Cunha, Janilse de Souza e Elson Martins. Agachadas: Aduzãndily da Cruz, Vera, Nilda Dantas, Mariana Pantoja, Silene Farias, Myully dos Santos e Daniela Marquese (professora auxiliar)

Hatxa Kuin: Língua perfeita

Essa turma (foto) comemorou, quinta feira à noite, a conclusão do curso de língua Kaxinawá promovido pela Biblioteca da Floresta em parceria com a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC) e a Organização dos Professores Indígenas (OPIAC). A festa em sala de aula teve bolo, torta de banana, frutas e salgadinhos.

O curso - inédito por ser oferecido a alunos não índios - teve a duração de três meses com duas aulas semanais em espaço da biblioteca. O professor Joaquim Maná, formado em educação indígena pela Universidade Federal do Mato Grosso, é líder Huni Kuin (Kaxinawa) da aldeia Carapanã, no rio Tarauacá. Ele é sábio, e ainda contou com a ajuda da antropóloga Daniela Marquese para aplicar uma didática nova e construir uma gramática de iniciação ao curso.

Os 22 alunos inscritos receberam apostilas contendo pequeno dicionário na língua Hatxa Kuin, gramática simplificada, diálogos e expressões comuns das comunidades indígenas. Joaquim Maná exibiu vídeos feitos por jovens índios que trabalham com o resgatar da cultura e tradição de seu povo. Alguns deles são professores indígenas e participaram de conversação com os alunos em sala de aula.

No encerramento, cada aluno escreveu uma avaliação sobre o curso. De um modo geral, eles admitem a dificuldade de falar o Hatxa Kuin em tão curto tempo, mas mostram-se animados com a experiência e querem prosseguir estudando a língua.

O lingüista Aldir Santos de Paula, professor do Núcleo de Estudos Indigenistas (UFAL) deu uma aula no início do curso sobre a fonologia e aspectos gerais de uma língua. Para ele, Hatxa Kuin “é uma língua perfeita”.
A Biblioteca da Floresta pretende produzir uma versão online do curso dado por Joaquim Maná e disponibiliza-lo em seu site. Maná faria uma leitura das apostilas do curso com registro de áudio e imagem, acrescentando comentários sobre a cultura dos Huni Kuin (Kaxinawá).

Como disse o professor Aldir Santos: “A gente não aprende só a língua, mas também um modo de viver”.

Veja a seguir, trechos de um texto escrito pela aluna de Hatxa Kuin Mariana Pantoja, antropóloga e escritora. O texto bem escrito fala das dificuldades e ao mesmo tempo do interesse despertado pelo curso.

Hãtxa Kuin Menia continua

Mariana Pantoja Quarta-feira, 9 de Abril

Não é fácil aprender hãtxa kuin! É difícil. A pronúncia do “e” em especial, que com ou sem acento (til) não é pronunciada como no português. As vogais do alfabeto huni kuin não tem o “o”. Há ainda coisas como “xt”, “tx”, “sh”, entre outros.

Bom, mas isso a gente aprende, vai se acostumando. É interessante, pois a grafia do hãtxa kuin é recente, dos anos 80, ao menos aqui no Acre. No Peru existe uma gramática mais antiga um pouco, por iniciativa de linguístas missionários. Aqui no Acre é uma iniciativa da Comissão Pró-Índio com professores indígenas e consultoria de linguístas, como o Aldir Santos de Paula, de Alagoas e especialista nas línguas Pano.

Então, tem coisas que ainda estão se firmando, regras de escrita ainda não consolidadas, há discrepâncias e coisas ainda não bem definidas. Isso no que diz respeito ao hãtxa kuin escrito, pois o falado vai bem obrigado. Quer dizer, há Terras Indígenas aqui no estado que a língua está bem ameaçada, que só os velhos a falam.

Aí estão (na foto menor) o Joaquim e suas alunas Silene Farias e Marisa Fontana. A Silene é do Jabuti Bumbá, e quer levar o hãtxa kuin para os folguedos do bicho de casco, e a Marisa é historiadora e trabalha na Biblioteca. Na foto, estavam lendo um diálogo em hãtxa kuin, no qual dois amigos se visitam e bebem caiçuma (“mabesh”). Fizemos muito isso num momento inicial do curso, para nos familiarizarmos com a pronúncia da língua.

Nesse dia, recebemos a visita de uma turma do Jordão: Itsairu , Shane e sua irmã Aiani. Foi um dia animado. Eles vieram nos auxiliar em exercícios de pronúncia e escrita. Temos recebido várias visitas durante o curso, de huni kuins que estão pela cidade e aparecem.

O Itsairu, um professor com vocação para filósofo, trabalhou bastante com o grupo em que eu estava (a Geovânia, professora de sociologia da UFAC, a Janilse, cientista social quase formada pela UFAC e agora concentrada no bebê que está para nascer, e a Verinha, da Comissão Pró-Índio, que mora em Brasília mas vem sempre pra cá e aí vem pra aula). Eram vários grupos, divididos com os Huni Kuin presentes. Num deles estava a inesquecível Nilda Dantas, artista e locutora de rádio na Difusora Acreana.
(O texto completo e com fotos está no blog da Mariana: www.aflora,blogspot.com)

CORREIO

Almanacre no Sul

Mestre Elson Martins:

Lemos o Almanacre. Gostei de ver sua foto com um grupo de mulheres, uma delas ao seu lado, grávida. Achamos que você parece muito bem, inclusive gordinho, legal mesmo seu rejuvenescimento. Outra coisa, a história dos amigos índios que se surram com vara verde. Antes de você falar da sua vontade em surrar dois políticos, me veio o mesmo pensamento. Claro, na minha vez eu colocaria uma pedrinha na ponta. Seria um manguá, daqueles de vaqueiros nordestinos. A história do João Barbeiro e o Chê é deverasmente curiosa. João Barbeiro era também meu pai (ver: www.saitica.blogspot.com), aquele com as calças rasgadas, tri pank com seu facão. Ele tinha barbearia, era fiscal da prefeitura, enfim, um cidadão com várias profissões.
Daniel de Andrade e Estela - Porto Alegre

Personagens fortes

Elson, caro amigo:

Li nos jornais de Rio Branco que a senhora Quizarubina Leitão tinha morrido.

Acredito que como eu, você reconhece nessas pessoas personagens fortes da constituição das comunidades acreanas. Essa senhora, por exemplo, não é possível falar de Rio Branco sem determinar sua presença com seus espaços políticos, sociais e históricos. Como Quizarubina, existiram e existem outros. Diante da inexorabilidade do tempo esses personagens marcantes estão sendo transferidos, e correndo o risco de serem mergulhados nas brumas do esquecimento, apagados da história. Um a um estão partindo, por vezes, sem nenhum sinal de despedida.

Creio ser necessário evitar que se afirme uma tendência recente e muitíssimo forte de soterrarem momentos importantes do que denominamos acreanidade, por essa avalanche de temas florestais. Tenho acompanhado com temor a forma como se tem deslocado temas e personagens relevantes em benefício de novos heróis. O mais grave é que isso se dá por um desvio da história, da compreensão de fatos e personagens, da visão de mundo. O que se deve evitar, repito, é a tendência do abandono de personagens urbanos. A nossa história urbana é rica e determinante nos rumos das condições atuais. Há a necessidade de uma ampla varredura pelo estado e mesmo mundo afora na buca dessas pessoas. Um grande abraço
Mário Lima – Campinas (SP)

 
 
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Rio Branco-AC, 11 de maio de 2008
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