Ayahuasca (II)
Por uma história política do Daime
O pedido de reconhecimento da Ayahuasca, pelo Ministério da Cultura como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira feito pelos centros tradicionais do Daime/Vegetal mexeu com imprensa brasileira nesta semana. Por todo o país sobraram matérias repletas de distorções típicas de um assunto sobre o qual ainda pesa imenso desconhecimento e discriminação. Por isso é necessário refletir sobre a difícil trajetória de comunidades amazônicas em busca do seu inalienável direito à liberdade e respeito. 
A infinita travessia
A milenar utilização da Ayahuasca por diversos povos indígenas amazônicos é relativamente bem aceita e não provoca qualquer tipo de contestação legal ou moral porque esse uso é mediado pela cultura de cada um desses povos. Mas quando os irmãos André e Antonio Costa criaram em Brasiléia o Circulo de Regeneração e Fé e promoveram as primeiras experiências de adaptação do uso ritual da Ayahuasca para a sociedade local abriram uma profunda fenda no tecido social acreano. Uma fenda que demoraria a fechar e que ainda aparece como cicatriz na trajetória de muitas comunidades daimistas.
Já ouvi diversas, e contraditórias, histórias sobre o impacto que o trabalho dos irmãos Costa, aos quais se juntou o também negro maranhense Raimundo Irineu Serra, teve em uma sociedade muito conservadora - com perfil predominantemente nordestino, oligárquico e católico - e que naquele início dos anos 20 passava por uma crise sem precedentes com a falência da economia extrativista da borracha. Entretanto essa parte da história da Ayahuasca ainda é muito pouco conhecida (seria muito importante que os descendentes dos irmãos Costa, que ainda vivem no Acre, contassem sua história) e é difícil avaliar com segurança o que se passou naquele período.
Uma das histórias mais recorrentes diz respeito ao fechamento do Circulo de Regeneração e Fé pelo valente delegado Odilon Pratagy. Embora exista também uma versão que diz que não ocorreu o fechamento porque o delegado ao conhecer o trabalho espiritual que ali se realizava autorizou seu funcionamento.
Do mesmo modo circulam inúmeras histórias de problemas, preconceitos e perseguições envolvendo os trabalhos de Raimundo Irineu Serra, Daniel Mattos e Gabriel Costa - respectivamente fundadores do Alto Santo, Barquinha e União do Vegetal – ao longo da consolidação de suas doutrinas e formação de suas comunidades. Mesmo sem entrar em grandes detalhes, a recorrência dessas histórias torna evidente que a trajetória do Daime e do Vegetal em busca de uma aceitação social satisfatória foi muito difícil.
No Acre, essa história começou a mudar quando - a partir da amizade estabelecida por Mestre Irineu e Cel. Fontenelle que foram companheiros na Guarda Territorial - o Governador Guiomard Santos indiretamente reconheceu a legitimidade do trabalho de Irineu doando-lhe a propriedade das terras do Alto Santo. Em contrapartida, o governador e seu partido (PSD) passaram a receber apoio político daquela comunidade. Assim, aos poucos, foram sendo vencidas as incompreensões e a comunidades organizadas em torno das doutrinas ayahuasqueiras se tornaram parte integrante e indissociável da sociedade acreana.
Mais recentemente, dos anos 70 para cá, a partir de uma grande difusão do uso da Ayashuaca para fora da Amazônia, começaram a surgir diversos grupos ecléticos de uso da Ayahuasca. Isso motivou um acirramento em relação aos aspectos legais do consumo do Daime, que passou a ser tratado como uma droga igual a tantas outras que assolam a sociedade pós-moderna. Novas formas de preconceito passaram então a ser impingidas sobre os ayahuasqueiros e na ausência dos fundadores, coube a segunda e terceira gerações de seguidores das doutrinas de Irineu, Daniel e Gabriel a missão de novamente defender suas culturas e sua fé.
Neste sentido, um passo muito importante foi dado em 1991 quando diversos centros tradicionais se reuniram e estabeleceram uma carta de princípios, onde se reafirmam os princípios éticos e sociais que sempre nortearam o uso religioso do Daime/Vegetal pelas comunidades amazônicas. Conforme lembrou Francisco Hipólito, em seu importante artigo, publicado no ultimo domingo no jornal O Rio Branco.
Ainda assim, uma rápida pesquisa na internet é capaz de revelar que a proliferação dos “ecléticos” por todo o mundo, ressaltando a necessidade de buscarmos novos mecanismos de legitimação e fortalecimento das comunidades tradicionais e assim diferencia-las das novas modalidades de usos da Ayahuasca.
É isso que os vários centros do Alto Santo, da Barquinha e da UDV estão fazendo quando abrem salas ou centros de memória onde organizam e revelam suas histórias. É isso que fazem a Prefeitura de Rio Branco e o Governo do Acre quando decretam o tombamento do Alto Santo e caminham na direção do tombamento da Vila Ivonete, como patrimônios culturais acreanos. E é isso que as comunidades tradicionais disseram ao Ministro da Cultura no ultimo dia 30 quando solicitaram o registro do uso tradicional amazônico da Ayahuasca como Patrimônio Imaterial de todo o povo brasileiro.
Mais do que meros reconhecimentos “oficiais” essas ações tem se afirmado como estratégicas na luta contra novas formas de preconceito e discriminação. Precisamos, portanto, mais que nunca contar essas histórias, reafirmar seu olhar local e abordar seus mais diferentes aspectos. Mesmo que isso signifique muitas vezes tratar de assuntos dolorosos ou difíceis de lidar.
A ascensão ao céu
Um homem que era um pajé poderoso foi matar curimatã: foi até o lago, fez um papiri, e lá ficou à beira d’água. De repente, viu bulir um monte de tracajá na frente dele. Aí ele se aterrorizou, porque ele mesmo tinha enfeitiçado muito tracajá para matar, e soube que eles também estavam enfeitiçando ele, e o queriam matar; e sob a forma do tracajá. Eram na verdade as nesaruwawó, umas cobras do fundo da água. Sentiu febre, correu para sua casa. Tinha lá duas mulheres, e pediu para que elas fizessem fogo:
- Estou com febre, estou morrendo, mas não é por nada; tracajá me enfeitiçou; eu vou embora mas vocês ficam.
E morreu no meio da noite. Daí a pouco, nasceu um cipó do umbigo dele. Seus parentes ficaram tristes, e aquela mesma noite começaram a tomar o cipó, e mandaram avisar os outros que não ficariam mais lá, que estavam indo pro céu, que viessem junto. O mensageiro foi, mas chegou cansado na casa dos outros: chegou, deitou numa rede e dormiu. Vendo que tinha chegado, o chefe mandou cozinhar uma perna de queixada pra ele; com tanto dormir e comer, o mensageiro esqueceu de dar a notícia.
E nessas, a turma do pajé morto bebia cipó e cantava, cantava:
“Bem que gostaríamos de ficar na terra,
Mas o nosso chefe morreu, e vamos atrás dele...”
E a casa ia subindo, ia subindo com todos e tudo que tinha dentro, e subindo chegou ao céu.
Quando o mensageiro lembrou do recado, a outra turma foi correndo para ver, e onde estava a casa só encontraram mato fechado, e ficaram com raiva do mau correio:
- Tu não avisaste, agora vamos ficar aqui pra sempre.
E ele chamava os que subiam, mas eles estavam já bem altos; e de tanto chamar ficou dizendo “co... co... co... co...!”, e agora é o bapode, um passarinho pequeno que canta assim.
Mito Yaminawa extraído do livro “O nome e o tempo dos Yaminawa” de Oscar Calavia Sáez (UNESP, ISA, NUTI, 2006)
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