Ministro no Juruá
A visita que o ministro da cultura, Gilberto Gil, fará essa semana ao ashaninkas em Marechal Thaumaturgo deverá movimentar questões importantes da região. Algumas etnias indígenas, como os poyanawas e nukinis, por exemplo, têm se empenhado para retomar a cultura tradicional do seu povo. É claro, que estão se espelhando nas bem-sucedidas experiências dos ashaninkas e dos yawanawas. Nesse mundo conturbado vale mais a pena ser índio. Isso é muito bom para o Acre que pode mostrar ao mundo a diversidade cultural do seu povo. Além do fato, que se perder o conhecimento desses povos originais da floresta seria irreparável culturalmente para o país. O nosso ministro da cultura, talvez um dos maiores personagens da nossa história, certamente verá com seus próprios olhos a beleza das matas do Juruá. Sensível e inteligente, Gilberto Gil deverá ajudar ainda mais a manutenção de tanto conhecimento. Aliás, quando estive com Gil há dois anos no Festival de Cinema do Ceará, pude constatar que o compositor conseguiu transferir o seu carisma dos palcos para a política. A humildade do cara é impressionante. Vai demorar para se ter uma gestão de cultura tão bem-sucedida no Brasil novamente.
Patrimônio Cultural
Foi muito comemorado no Juruá o anúncio de que Gilberto Gil vai oficializar a ayauhasca como patrimônio cultural brasileiro. Além da presença da União do Vegetal e do Santo Daime, na região, praticamente todas as etnias indígenas do Juruá são ayahuasqueiras. É bonito ver o governo reconhecendo a importância cultural daquilo que algumas décadas atrás chegou até mesmo a ser motivo de perseguição policial. Toda nação ayauhasqueira do país agradece...Viva a Rainha da Floresta!
Integração regional
As festividades de aniversário de Tarauacá trouxeram algumas questões a tona. Primeiro que a abertura definitiva da BR 364 entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá está mudando o quadro social, político e econômico da região. O ex-governador Jorge Viana estava certo ao começar a pavimentar a estrada do interior para a Capital. As festividades na “Terra dos Abacaxis”levaram centenas de juruaenses para lá. Foi assunto a semana inteira na imprensa de Cruzeiro do Sul. Se via na cidade gente fazendo planos para viajar à Tarauacá. Uma maravilha que aumenta a auto-estima de toda a população. Cruzeiro e Tarauacá, como se viu, estão mesmo lado a lado.
Risca Faca
As eleições em todos os municípios do Juruá serão mesmo de arrepiar. Durante as festividades de Tarauacá não faltaram acusações entre a posição(atual administração) do município e a oposição.Teve político que acusou a oposição(em off) de ser a responsável pelas constantes faltas de energia elétrica durante as festividades. Menos minha gente...
Na verdade, o quadro político eleitoral em Tarauacá é um abacaxi gigante que a direção da FPA terá que descascar com muito cuidado.
Enquanto isso nas ladeiras de Cruzeiro do Sul...
O deputado federal, Ilderlei Cordeiro (PPS-AC) em recente entrevista na Juruá FM confirmou que é mesmo pré-candidato à sucessão da prefeita Zila Bezerra (PTB). O que se questiona nas ladeiras da cidade é se o deputado terá estrutura econômica para suportar o processo eleitoral. Mas não se iludam, Ilderlei Cordeiro é um forte candidato. Esperto, Ilderlei até sugeriu que se a FPA está mesmo com dificuldade de encontrar um candidato forte para concorrer às eleições ele poderia fazer esse papel. Conhecendo um pouco a política acreana acho isso praticamente impossível.
Nos ramais
O ex-deputado, Wagner Sales é outro que já está em plena campanha. Ele tem visitado constantemente os ramais e colocações do município de Cruzeiro do Sul fazendo reuniões. Parece que a zona rural será uma das prioridades do peemedebista para chegar a atual casa rosada da cidade. Um problema que o ex-deputado deverá enfrentar é a divisão do seu próprio partido. Tem ainda algumas peças chaves do PMDB que fazem parte da atual administração de Cruzeiro do Sul. Parece incrível, mas um assessor de Wagner me confidenciou que ele também não descarta a possibilidade de alguma parceria eleitoral com a FPA. Será?
Parcerias
Mas indiferente do resultado das eleições de Cruzeiro do Sul uma coisa é certa: o próximo prefeito (caso não vença a situação)vai querer fazer parcerias com o governo do Estado. Como já foi visto fica muito difícil governar e administrar sem apoio da máquina administrativa do Estado.
No páreo
Mas quem acha que a atual prefeita Zila Bezerra está fora do páreo está enganado. Ela anunciou, recentemente, a liberação de recursos no valor de quase três milhões de reais para Cruzeiro do Sul. Com isso um pacote de obras. A máquina está azeitada para trabalhar muito nesse verão, que coincide com as eleições. Mesmo com os vários problemas que a cidade enfrenta com muitas ruas em péssimo estado de conservação e falta de iluminação pública, a dupla Zila/Tota tem experiência política para reverter a atual situação.
Que bonito é....
O futebol no Juruá está em alta. O Nauás conquistou o coração da galera. Hoje é dia de Juventus no estádio de Mâncio Lima, o Totão. Se o Nauás ganhar assume o segundo lugar do campeonato acreano. O deputado Edvaldo Magalhães (PC do B), torcedor número um do Nauás anda eufórico. Ele não perde um jogo do time do Juruá...A presença de torcedores por aqui tem sido maciça. Vamos esperar pra ver...
Ayahuasca: Patrimônio da Cultura Brasileira
Perpétua Almeida
A Amazônia Brasileira tem particularidades que só entende com mais precisão quem nela mora ou quem, como muitos, resolvem adotá-la em seu coração. Dizem os mais antigos que aqueles que entram na floresta, que se banham nos igarapés ou ouvem o som dos pássaros da mata não se esquecem jamais. Nisso eu acredito.
Nessa vasta diversidade cultural, que é influenciada pelos costumes indígenas e pelas crenças trazidas pelos que chegaram para morar na Amazônia, nasce uma religião tipicamente brasileira. Falo do daime, ayahuasca, chá, vegetal. Dentre outras, são estes os nomes dados à união de duas plantas oriundas da floresta que num processo de infusão das folhas da Psychotria Viridis – rainha ou chacrona (um arbusto) e da Banisteriopsis Caapi - mariri ou jagube (um cipó) surge um chá que é usado em rituais culturais e religiosos. Temos ainda que considerar o uso milenar pelos indígenas nos seus rituais específicos, que vêm dos povos pré-colombianos da América do Sul. Mas é no contexto urbano, há cerca de 40 anos, que a expansão chegou a diversas cidades brasileiras e até no exterior.
O Conselho Nacional Anti-Drogas, publicou em novembro de 2006 um relatório produzido por um grupo interdisciplinar onde se fizeram presentes representantes das três linhas originárias: O Alto Santo - criado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra e aqui não abro um parêntese, mas meu coração para registrar o profundo respeito e carinho pela Madrinha Peregrina; a Barquinha – pelo Mestre Daniel Pereira Mattos, através do qual manifesto também a grande consideração por Francisco Araújo; e o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal pelo Mestre José Gabriel da Costa, segmento com o qual tenho profundas ligações emocionais através dos meus padrinhos de batismo Sr. Gaim e dona Amaríades que pertencem a União do Vegetal, e, que foram fundamentais no meu processo de construção como ser humano ensinando-me através de seu exemplo a convivência pacífica, democrática e engrandecedora com outras religiões. Destas três linhas, a União do Vegetal se origina em Rondônia e as demais no Acre.
O relatório, de um órgão ligado diretamente à Presidência da República, reitera a liberdade do uso religioso da ayahuasca, considerando a inviolabilidade de consciência e de crença, além da garantia de proteção do Estado às manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, com base na Constituição Federal. Aponta ainda que a liberdade religiosa e o poder familiar devem servir à paz social, à qual se submete a autonomia individual.
Há ainda os que confundem a bebida com droga, por conta das reações percebidas por cada pessoa. Pesquisas científicas nas modalidades da farmacologia, pscicologia, antropologia, direito, química, dentre outras áreas acadêmicas, apontam para a comprovação que o governo brasileiro já publicou: o chá não é droga.
Os adeptos desse sincretismo religioso somam milhares e milhares de famílias. Ligados umbilicalmente à preservação da natureza, porque dela precisam para o plantio do cipó e da folha, esses cidadãos contribuem para a busca de uma sociedade mais justa e pacífica, com respeito à legislação nacional.
Na Amazônia, com mais intensidade no sul do estado do Amazonas, nos estados do Acre e Rondônia o uso em rituais religiosos é comum e conhecido na sociedade. Faz parte da cultura, da vivência de homens e mulheres que convivem com a floresta.
No início de 2007 fizemos uma primeira reunião com um grupo de pessoas, com a proposta de garantir que o uso religioso do chá fosse reconhecido como patrimônio imaterial da cultura brasileira. Estudamos, pesquisamos, pedimos auxílio. Não tivemos pressa, mas também não esmorecemos. Preferimos não dar publicidade na mídia, porque essa não é uma bandeira política, é uma questão de reconhecimento e reflexão. Coloquei meu mandato à disposição e estamos chegando a um momento importante. Conseguimos excelentes contribuições de vários intelectuais, entre eles, Jair Facundes, Toinho Alves, Edson Lodi e do historiador Marcus Vinicius e toda a equipe da Fundação Garibaldi Brasil.
A atual legislação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional prevê que o reconhecimento deve ser dado à uma prática, uma representação social, à conhecimentos e técnicas que as comunidades ou grupos reconhecem como parte integrante da cultura, que seja transmitido de geração em geração e tenha sua interação com a natureza. Chegamos a conclusões e começamos a dar os encaminhamentos.
Estávamos marcando uma ida para Brasília, para fazermos no Ministério da Cultura, no IPHAN e no Congresso Nacional um grande ato. Mas os mistérios e as oportunidades se apresentam, como se orquestradas por um Grande Maestro. Nada mais importante e sublime que a simplicidade da nossa terra, dos nossos ares. Chegou a oportunidade.
Dia 30, na próxima quarta-feira, o Ministro Giberto Gil vem no Acre. Além de cumprir uma importante agenda com o nosso governador Binho Marques, conseguimos um espaço pra que ele receba um documento assinado pelos representantes das três linhas originárias. Um documento simples, sem pretensões acadêmicas, mas que traz no seu seio algo sublime e bonito de se ver: que o governo brasileiro reconheça essa cultura, essa manifestação religiosa que tem na sua matriz a floresta amazônica.
Deputada Federal no 2º mandato pelo PCdoB do Acre.
|