ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Renato Antonio Gavazzi *

Entrevista com o sertanista Meirelles (parte II)




















Na segunda parte da entrevista-depoimento, Meirelles continua falando de suas primeiras experiências indigenistas no Maranhão. As lições que aprendeu por lá trouxe como ensinamentos para o seu trabalho com os índios aqui no estado, especialmente a partir de 1976, quando se incorporou à Ajudância da Funai no Acre (AJACRE), à época chefiada pelo indigenista José Porfírio Carvalho.

Meirelles diz que foram basicamente duas as lições maranhenses. A primeira é a de que não se deve precipitadamente estabelecer contatos com índios isolados, a não ser em situações limites de resgate, como aconteceu com um pequeno grupo Guajá isolado em um pântano nas proximidades da Estrada de Ferro Carajás.

Não se deve ter pressa em realizar os primeiros contatos com índios isolados. Para ele, estes povos têm o direito de continuarem voluntariamente isolados. Antes do contato, que deve ser uma decisão dos próprios índios, o importante é garantir as terras por eles tradicionalmente ocupadas. E estabelecer uma estratégia de vigilância e fiscalização para que elas não sejam invadidas por madeireiros, caçadores profissionais e grileiros. Os índios isolados que tomem a decisão de amansar os brancos. E não o contrário, assevera o sertanista.

A segunda lição maranhense diz respeito a grandes projetos, com muito dinheiro, que afetam negativamente a vida dos índios. Como aconteceu com os índios Guajajara lá no Maranhão. Diz que não é contra que se programem projetos para os índios. Mas os projetos devem ser bem planejados e amplamente discutidos com os próprios interessados. Só não concorda com projetos elaborados em gabinete, mal planejados e sem conhecimento de realidades localizadas. Porque, senão, podem constituir “um verdadeiro desastre para os índios”. E até mesmo para as populações regionais do entorno de terras indígenas.

Destaca como modelo de projeto exitoso aquele que vem sendo implementado há anos junto aos Waimiri Atroari, financiado pela Eletronorte e dirigido, desde o início, pelo Carvalho. Para que um projeto possa ser bem sucedido, tem que necessariamente ser sustentável. E ter continuidade, mesmo depois que acabe o dinheiro do projeto, destaca o sertanista.
Para finalizar essa breve introdução, quero dizer que foi muito trabalhoso transcrever manualmente quatro fitas, de uma hora cada, de conversas com o Meirelles. E agradecer a Elizanilde, da Casa Txai, por estar digitalizando essa longa entrevista.

Vamos então às conversas do nosso sertanista na Biblioteca da Floresta Ministra Marina Silva, que ocupará ainda os próximos papos. Continua com a palavra, o “velho do rio”. E dá-lhe Meirelles! (Txai Terri Aquino) As lições maranhenses do sertanista

Elson: Quando você foi trabalhar no Maranhão, no início da década de 70, você tinha idéia da quantidade de índios Guajá isolados?
Meirelles: Naquele tempo, a gente trabalhou apenas com esse grupo Awa Guajá do Tamataiwa, com quase 100 pessoas entre homens, mulheres e crianças. Os Awa Guajá estavam espalhados numa região muito grande. Aí eu fiquei por lá até 1976, quando vim trabalhar no Acre. A gente tinha feito contatos iniciais com Awa Guajá ali da região do Alto Turiaçú. Outros sertanistas fizeram contatos com outros grupos Guajá nos rios Gurupi, Carú e Pindaré. Hoje, os Guajá são mais de 300 índios. Se bem que no início dos primeiros contatos ocorreram epidemias e outros problemas de saúde, morrendo muitos deles.

Elson: A Funai já conseguiu demarcar a terra dos Guajá?
Meirelles: A área Awa Guajá, hoje em dia, está demarcada. Mas não do tamanho que ela deveria ter sido, porque ali houve problema com a Vale do Rio Doce, com exploração de cassiterita e bauxita em partes de seus antigos territórios. Então, a terra Awa Guajá foi uma área bastante complicada para ser demarcada e regularizada, porque estava muito invadida. Pouco antes de o antropólogo Mércio Gomes ser nomeado presidente da Funai, ele me convidou para assessorá-lo no Projeto Awa Guajá da Funai, bancado pela Vale do Rio Doce, porque eu tinha feito os primeiros contatos com um grupo Guajá no alto rio Turiaçú. E ele também tinha feito contato com outros grupos Guajá. Aliás, o Mércio é um dos poucos brancos que conheço que fala a língua Awa Guajá corretamente. Então, nós fomos visitar os Awa Guajá há uns seis anos atrás. Levei um susto. No início dos anos 70, a gente demorava quatro, cinco dias para ir de São Luiz à beira do rio Turiaçú, numa picada que hoje é a BR 214. De lá, demorava ainda 15 dias a remo para chegar a Cocal Grande. Na última viagem que fiz com o Mércio, em 2002, saímos de São Luis às 8 horas da manha e às 15 horas da tarde desse mesmo dia estávamos no Cocal Grande, onde fiz os primeiros contatos com uma turma de Awa Guajá. E as matas, que tinham naquela região, ficaram só um bocadinho. Fomos de L-200 pela BR 314. A terra deles continua sendo muito invadida por madeireiros. E a Paragominas continua invadindo aquela região, devastando todo o entorno da Terra Indígena Awa Guajá. A terra Guajá deve ter uns 300 mil hectares, mas está toda invadida. Na última vez que estive lá, dormi escutando zoada dos caminhões lá por trás da serra.

Txai: Apesar da semelhança de nomes, Guajá e Guajajara são povos bem diferentes, não é mesmo?
Meirelles: Não tem relação de parentesco nenhuma, Txai. Aliás, as línguas faladas por ambos os povos são bem diferentes. Awa Guajá é um povo Tupi, mas um Tupi estranho. Tupi é plantador de mandioca, comedor de farinha, beiju e um povo agricultor por excelência. O Mércio tem uma teoria a respeito disso. Ele diz que os Awa Guajá já foram agricultores e mais sedentários. Viraram nômades por perseguição de brancos e de outros grupos indígenas. Porque os Awa Guajá têm nome para mandioca e outros produtos agrícolas cultivados nos roçados.

Txai: Você acha que suas experiências com Urubu Kaapor e Awa Guajá, índios ainda isolados no início da década de 70, lhe ajudaram no trabalho com os “brabos” aqui no Acre a partir de fins da década de 80?
Meirelles: Olha compadre Terri, eu acho o seguinte. O que vi lá no Maranhão, a gente deve sempre tirar lições, não é mesmo? Se a gente não aprende a fazer a coisa certa, pelo menos aprende como não se deve fazer. O Maranhão me ensinou muito isso. Primeiro, a experiência de contato com os Guajá. O que é que representa na vida de um índio isolado, de uma hora para outra, entrar nesse mundo nosso assim de cabeça? Fazer contato com um povo isolado é coisa complicada. Por mais cuidado que você tenha, um bando de Guajá chega ao teu acampamento e tem um monte de coisa ali, coisas que pra eles são até mágicas. Tem terçado, tem machado, tem isqueiro bic, tem rádio falando. Enfim, tem motor e um bocado de bugiganga. Isso é uma doideira.

Isso na cabeça de índios isolados é um negócio complicado. E o que acontece depois dessa aproximação com a gente e com outros índios já contatados? Com os Guajajara, por exemplo, querendo que os Awa Guajá de repente ficassem iguais a eles, tá entendendo? Foi um processo duro. E o que aconteceu? Isso foi uma coisa que vi lá no Maranhão. Esse negócio de contato tem que ser uma coisa muito lenta. O problema só é de tempo. Se a gente tiver tempo, o contato interétnico é menos dramático. Esses índios daqui da cabeceira do Envira não vão ficar isolados para o resto da vida, Txai! Um dia eles vão sair em algum lugar. O que a gente precisa descobrir é um jeito de segurar as doenças decorrentes dos primeiros contatos. Até já se tem experiência disso. É importante ter uma boa equipe de saúde para não deixar o micróbio, a doença, o vírus matá-los. Mesmo assim isso é complicado em se tratando de índios isolados.

Elson: É uma verdadeira guerra biológica, não é?
Meirelles: É, mas dá até para resolver esse problema. Se tiver uma boa equipe de saúde, você consegue resolver a grave situação de saúde decorrente dos primeiros contatos com índios isolados. Isso é uma coisa. Agora, a outra coisa que acho que tem que ver, é que você tem que ter pelo menos um tempo. Tem que ter um tempo para os índios isolados absorverem esse monte de coisa, Élson. Dá pelo menos uns três, quatro, cinco anos para eles ir se acostumando com o nosso mundo. Antes de pegar eles, três meses depois de contato e levar para Feijó, não é mesmo? Vamos com calma. Vamos levá-los para Feijó só depois de uns bons anos, quando eles já estarão mais acostumados com a nossa dita “civilização”. Tem que ter esse tempo, porque senão os índios isolados enlouquecem. Você não mata de doenças viróticas, mas eles morrem mentalmente, ficam doidos, entendeu? O que é outra forma de doença. E a pior delas. Eles ficam meio lesos, meio abestados, meio perdidos. É o que normalmente acontece com índios isolados nos primeiros contatos. Isso é uma coisa que eu aprendi lá no Maranhão. E a outra é o que um grande projeto, com muito dinheiro e mal planejado, pode fazer com índios e brancos. Esses grandes projetos são geralmente pensados nos gabinetes da burocracia. E provocam graves conseqüências negativas para os índios. No início dos anos 70, quando conheci os Guajajara no Maranhão, eles viviam tranqüilos em suas aldeias.

Quando a gente chegava numa aldeia, encontrava os Guajajara fumando a maconha deles numa boa, tudo tranqüilo, porque tinham os roçados deles garantidos, levando a vidinha deles. Quando passou a Estrada de Ferro Carajás pelas terras deles, e por aquela região do Maranhão, foi feito um grande projeto financiado pela Vale do Rio Doce. Então, a Vale repassou não sei quantos milhões de dólares para a Funai fazer um grande projeto para os Guajajara. Rapaz, aquilo virou um samba de crioulo doido. Pois bem, aquele Projeto Guajajara virou um “samba de caboclo doido”, como se dizia à época por lá. Tinha aldeia Guajajara com 10, 15 Toyotas e os índios Guajajara tiravam carteira de motorista. Era Toyota pra tudo quanto é lado. Era Toyota indo pra São Luis, cheia de Guajajara. E tudo para a praia do Calhau. E os Guajajara com dinheiro no bolso. Batendo no bolso assim e dizendo: “Aqui é dólar da Vala” (Vale do Rio Doce). O João Madrugada, famoso chefe Guajajara, fechava o puteiro de Santa Inês só para os índios. E fechava a semana inteira. Doutor João Madrugada, como ele era tratado em Santa Inês e no puteiro de lá. Doutor João Madrugada! Casamento com mulheres brancas virou moda. Ou seja, de uma hora para outra, virou fartura demais, sabe? Quem é que não gosta de festa? Todo mundo gosta! Só que quando acabou o Projeto da Vale, quando acabou a grana, os Guajajara ficaram com aquele monte de carro, com um monte de voadeira, com um monte de troços nas aldeias, aqueles entulhos, sem dinheiro pra trocar um pneu, pra botar um litro de óleo diesel, entendeu? E ainda com a terra indígena toda invadida, Élson! Invadida de brancos, entendeu? Brancos já casados com filhas e filhos de Guajajara, só pra poderem morar dentro da terra Guajajara e usufruir do dinheiro fácil do projeto. Aquilo ali virou uma coisa infernal. Esses Índios Guajajara sofreram muito quando se acabou o dinheiro do Projeto da Vale do Rio Doce. E que benefício realmente ficou? Não ficou quase nada, Élson! Você não pode dizer que aquele projeto foi legal para os índios. Não foi não, compadre Terri! Ficou um negócio maluco.

Elson: Quer dizer que aquele Projeto da Vale do Rio Doce para os Guajajara foi um verdadeiro desastre para os índios?
Meirelles: Quando escuto esses políticos falarem em muita grana de projetos para os índios, fico pensando no que aconteceu com os Guajajara lá no Maranhão. Não estou dizendo que dinheiro seja ruim para os índios, nem que ter grana para fazer as coisas seja ruim, Elson. “Com dinheiro também se faz coisas belas”, como cantam os poetas. Mas tem que saber fazer! Eu fui agora à Terra Indígena Waimiri-Atroari, matar a minha curiosidade. O Carvalho me convidou, eu passei dois dias conhecendo o projeto Waimiri-Atroari...

Elson: O projeto da Vale do Rio Doce para os Guajajara não se baseava no conceito de sustentabilidade. Para ser sustentável o projeto tinha que ser elaborado e implementado de outra maneira, não é mesmo?
Meirelles: Quando o dinheiro do Projeto da Vale se acabou, os Guajajara se lascaram. Foi o que aconteceu lá no Maranhão. Você tem razão, Élson. O projeto não era sustentável. Conhecendo agora o projeto Waimiri-Atroari, vi uma outra coisa bem diferente. Não estou dizendo que seja a coisa perfeita. Em se tratando de um grande projeto, o melhor projeto que vi na minha vida é esse que o Carvalho tá fazendo lá nos Waimiri-Atroari. Quando começou esse projeto, eles eram trezentos e poucos índios, tudo mendigando na beira da estrada, ali na estrada Manaus-Caracaraí. Em 2003, tem até uma camiseta comemorando o milésimo nascimento de um índio Waimiri-Atroari. Agora, em 2008, eles já são 1.300 índios. O Carvalho montou um esquema de saúde fantástico na área. Os índios pouco adoecem. Não morre quase ninguém. Do tempo do início do projeto, que já são mais de vinte anos pra cá, desde o dia que o índio nasceu até hoje tem a história de saúde dele lá no computador. Você aperta lá uma tecla e aparece a fotografia do cara e lá tem tudo que apareceu na vida dele. Todas as vacinas e remédios, que ele tomou na vida, estão lá registrados.

Elson: O Carvalho tem uma relação afetiva com os Waimiri-Atroari...
Meirelles: Tem e os índios gostam muito dele. O Carvalho, como um bom economista que é, criou, não entendo bem, mas devo dizer o seguinte, ele pegou o dinheiro todinho do projeto e investiu por lá mesmo. Tudo que tem hoje lá é dos Waimiri-Atroari. A Eletronorte paga aluguel para os Waimiri-Atroari. Todas as coisas, escritórios, tudo é dos Waimiri-Atroari. Tem uma ONG dos Waimiri-Atroari para quem a Eletronorte paga aluguel das coisas que têm por lá. Ele montou um esquema que, se não fizerem nenhuma sacanagem e os índios aprenderem a tocar pra frente depois que o Carvalho morrer, nunca mais vai acabar o dinheiro do Projeto Waimiri-Atroari, entendeu? Outra coisa que eu achei legal é que os Waimiri-Atroari fazem tudo lá. Fazem o controle do minério que sai pelas terras deles. Eles ganham uma porcentagem por caminhão de minério que passa pela estrada dentro da terra deles. A estrada, às seis horas da tarde, fecha. Eles fazem a limpeza da estrada. Todo dia sai um carro deles limpando sujeira e lixo que o pessoal joga na estrada. Todo mundo trabalha, mas não tem um índio que receba salário. Tem professor e agente de saúde que trabalham para a comunidade sem receber salário. Não tá trabalhando pra comunidade? Não tem esse negócio de salário, não!

Elson: Eles saíram de um nada. Eram brabos no tempo da abertura da estrada Manaus-Caracaraí, não é verdade?
Meirelles: Então, esse é um projeto bem diferente, Elson. Eu sei que o Carvalho é uma pessoa muito centralizadora, mas o Projeto Waimiri-Atroari é uma coisa que deu certo. O cara não pode falar que aquele projeto não deu certo, porque deu! Por quê? Porque tem um cara que tem uma visão indigenista, que começou o projeto e está lá até hoje. E diz que quer morrer lá, que enquanto viver não sai de lá. Talvez agora ele tenha algum problema, porque o Édson Lobão, no tempo que o Carvalho trabalhava no Maranhão, brigou com ele lá. Dizem que o Édson Lobão detesta o Carvalho. O Édson Lobão é o atual ministro das Minas e Energia. Mas, enfim, isso é outra história. Mas o que eu vi e aprendi no Maranhão foi o seguinte. Primeiro, a doideira toda que o início do contato interétnico faz com um povo isolado. E segundo como não se deve usar o dinheiro de um mega-projeto sem planejamento e monitoramento. Muito dinheiro atabalhoadamente pode lascar a vida de índios e brancos. Foi o que aconteceu com os Guajajara lá no Maranhão com o dinheiro do mega-projeto da Vale do Rio Doce. Lascar talvez não seja o termo apropriado. A gente fala assim, mas os índios não vão se acabar. Nem vão se acabar por causa dessa história de aposentadoria rural, como está acontecendo agora com os Kampa e os Kulina lá no beiradão da cidade de Feijó. Tudo bêbado por lá, esperando o dinheiro da aposentadoria rural. Não conseguiram acabar com os índios no Acre nesses mais de cem anos de contato, não vai ser agora com a aposentadoria rural que eles vão se acabar. Não é isso! Só que o preço que eles pagam toda vez que entram numa nova experiência, é muito alto, Elson! Muitas vezes eles pagam com a própria vida.

Elson: O padre Paolino, lá em Sena Madureira, condena esse negocio de os índios viverem mais na cidade, por causa dessas aposentadorias rurais, do que nas suas próprias aldeias.
Meirelles: Isso é uma loucura, Elson! Só está dando prejuízo para os índios, Sério, meu compadre Terri, você vai visitar uma aldeia Kampa no alto rio Envira e as mulheres vêm te pedir farinha, porque não tem macaxeira para comer. A família toda vive de arribada. Só viajando pra lá e pra cá para receber aposentadoria em Feijó. Cadê os roçados? É doença pra danar. As mulheres pegam doenças sexualmente transmissíveis. Os índices de hepatites B e C são alarmantes entre os índios do Envira. É uma tristeza! Sei que eles ainda vão sacar como é que se deve fazer para receber aposentadoria rural do INSS sem prejudicar os roçados e a própria sobrevivência deles. Mas até agora o preço tem sido alto.

Txai: No final da década de 90, os sertanistas da Funai se reuniram em Brasilia para discutir uma nova política indigenista para índios isolados. Como foi isso?

Meirelles: Por conta das experiências que a gente teve e de todos os sertanistas que fizeram contatos com índios isolados, experiências logo após os primeiros contatos, né? O que fazer com esses povos isolados? Não será melhor protegê-los, aonde eles podem ser protegidos? Vamos respeitar o direito dos brabos de continuarem isolados! No dia que eles não quiserem mais ser isolados, eles que venham fazer contatos. Não sou eu que devo ir atrás deles. E ficar lá dando miçanguinha nem nada. Vamos deixar como está. Vamos respeitar o direito deles de continuar voluntariamente isolados. Quem sou eu pra decidir por eles. Não, agora vamos amansar os brabos.

Élson: Como você está falando, esse lance de miçanga é um desrespeito à cultura indígena.
Meirelles: Acho que os isolados têm o direito de continuarem isolados. No dia que eles quiserem amansar os brancos, eles que venham fazer contatos. Temos muito pouco a oferecer a esses povos. E pior do que miçangas são as doenças viróticas, psico-sociais e descaracterização sociocultural.

Txai: No tempo das Frentes de Atração da Funai, muitas vezes os primeiros contatos com povos isolados eram feitos porque havia fortes interesses econômicos na região onde eles viviam.
Meirelles: É isso mesmo, Txai. Sempre foi assim. Faziam contatos não pra resolver os problemas dos índios isolados, mas pra resolver os problemas do Estado e das grandes empresas brasileiros, vamos dizer assim. Existe uma situação limite que não podemos chamar de contato, mas de resgate. Aquelas famílias Awa Guajá, que nós achamos vivendo dentro de um igapó lá no Maranhão, aquilo não foi contato. Foi um resgate. É tipo que nem helicóptero do Corpo de Bombeiro, quando dá uma alagação e o cara tá morrendo afogado. Então, você vai lá resgatá-lo, não é? É mais ou menos isso. Agora em locais como esses das cabeceiras do Envira, acho que os índios isolados têm o direito de escolher ainda. Vai haver um dia, que eles vão ficar exprimidos e decidam fazer eles próprios contatos por aí. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Não tenho a menor dúvida disso! De fato, a partir de 1997, se criou uma nova política indigenista na Funai voltada não para estabelecer os primeiros contatos com povos isolados, mas para garantir logo a demarcação e regularização de suas terras. Então, o que achei mais interessante nessa história toda em relação aos isolados, foi porque hoje já é possível se demarcar terras indígenas para índios isolados, sem precisar fazer primeiro o contato. Agora, nas cabeceiras do Envira, vamos demarcar a terceira terra indígena destinada a índios isolados no Acre. E sem fazer o contato com eles. Isso está acontecendo agora. No começo deste verão de 2008, vamos começar a demarcar a Terra Indígena Riozinho do Alto Envira, destinada quase que exclusivamente aos índios isolados. Só tem uma família Ashaninka do alto rio Envira que mora naquela terra. Enfim, acho uma coisa muito boa e interessante demarcar terras indígenas para povos isolados, antes mesmo de se fazer os primeiros contatos com eles.

 
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Rio Branco-AC, 13 de abril de 2008
   GIRO GERAL
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