OPINIÃO
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Luis Carlos Moreira Jorge *

 

Falando de censura

Com mais de vinte anos de jornalismo político, não poderia assistir passivamente as discussões sobre censura na imprensa acreana. Este é um debate que para ser válido, se tirar alguma lição, não pode se limitar a um momento. Não deve simplesmente ser enfocado ao sabor das diferenças partidárias, e tampouco ao rancor. A discussão tem que ser travada de forma abrangente. Não há como ficar de fora, por exemplo, como se deram as relações entre os que governaram o Acre e os meios de comunicação ao longo dos tempos. Dos governadores nomeados pela ditadura militar aos eleitos pelo voto popular, só não tive no epicentro, no governo José Augusto. Por isso, posso fazer, como poucos, uma análise real desta relação, sempre conflituosa. A divisão do bolo publicitário nunca foi democrática. Esta é uma realidade da qual não se pode fugir. Este fato sempre causou protestos, acusações de discriminação, dos que ficaram fora. Todo governador define com que setor da imprensa vai trabalhar. Esta sempre foi a tônica geral. E nada vai mudar se outra corrente política assumir o poder em 2007.

No governo Geraldo Mesquita, eu trabalhava no semanário “O JORNAL”, com uma equipe do mais alto nível intelectual, em que se incluíam José Chalub Leite, Édison Martins, José Paz, entre outros. Era um jornal governista. A recomendação de Mesquita era expressa: não dar nenhum espaço para o combativo líder da oposição na Assembléia Legislativa, deputado Alberto Zaire(MDB), crítico feroz de sua administração, que o fustigava em todas as sessões. À época, Ficou famosa uma frase de Mesquita - entrou para os anais- dita em uma reunião na redação: “Para o MDB, nem um copo de água, quanto mais espaço”. Outro fato marcante: durante seu governo, o bispo Dom Moacyr Grechi teve seu programa na Rádio Difusora Acreana suspenso, por supostamente insuflar seringueiros.

No governo Joaquim Macedo, era proibida qualquer relação publicitária com o antigo jornal “GAZETA DO ACRE”, e com o “ VARADOURO”, que faziam oposição sistemática à sua gestão.

Posteriormente, a “GAZETA DO ACRE” teve toda sua redação substituída, numa manobra do então candidato ao governo Jorge Kalume, porque seu corpo de jornalistas se recusou a apóia-lo.

Nabor Junior vence a eleição. O MDB enfim chega ao Poder embalado pelas mensagens democráticas. No segundo ano de seu mandato, rompe com o senador Mário Maia(MDB). A primeira reação de Nabor foi reunir o seu secretariado, e determinar:

-o secretário que der entrevista ao “Folha do Acre”, ou pagar alguma fatura de publicidade, está demitido.

O jornal era de propriedade de Mário Maia. A ordem foi cumprida à risca até o final do mandato de Nabor Junior.

No governo que se segue, de Iolanda Lima, as mesmas proibições permanecem. A ordem era: nenhum centavo para os jornais que faziam oposição, especialmente o “Folha do Acre”. Neste período, o “Folha do Acre” foi aos ares por uma bomba de alto poder, que destruiu sua impressora e todo seu parque técnico.

O autor, um tresloucado político que já se foi, agiu à revelia da governadora.

Iolanda acabou levando a culpa pelo que nem sabia, pagando pelo pato que não comeu.

Chega Flaviano Melo ao poder. Uma briga feroz é travada com o jornal “O RIO BRANCO”, que assim ficou fora do bolo publicitário, porque lhe fazia uma sistemática campanha de desmoralização.

Veio Romildo Magalhães. No decorrer de sua administração, rompeu com a TV-GAZETA e com “O RIO BRANCO” por causa das críticas ao seu governo, sendo cortado o pagamento de ambos os órgãos, que acabaram comandando uma campanha pelo seu impeachment.

É eleito Orleir Cameli. Foi neste período que aconteceram as relações mais tensas com a imprensa. O jornal “PÁGINA 20”, que lhe fazia oposição, foi declarado de pronto inimigo mortal. Assim aconteceu também com o jornal GAZETA. Ambos foram cortados da verba da mídia. Já no final de sua gestão, vem o rompimento com “O RIO BRANCO”, que também entrou na lista negra dos que não recebiam da verba publicitária do governo.

Orleir Cameli jogava pesado. Certa feita, todos os donos de televisão e jornais da capital, se reuniram e decidiram esperá-lo no aeroporto, após uma de suas viagens à Brasília, para uma conversa aberta sobre pagamentos e restabelecimento de relações. Alguém o avisou. O carro oficial foi aguardá-lo na porta do avião. Saiu em disparada. Atrás, os empresários seguiram em uma caravana, numa perseguição cinematográfica que não respeitava sinais. Orleir entrou direto na residência oficial. Os perseguidores caíram na besteira de entrar em seguida. Foi quando este investiu furioso contra o grupo: - “fora da minha casa que eu não os convidei a entrar, peguem o caminho da rua”.

Saiu um por um, pegando seus carros, desconfiados, e foram curtir a humilhação em suas empresas.

Estes são registros que devem ser feitos, não para justificar nada, nenhum fato similar, apenas para mostrar, que as relações entre o Poder e a imprensa acreana, nunca foram um mar de rosa de democracia. Sempre aconteceram da maneira mais tensa possível.

Sempre se pautaram, e vão se pautar nas décadas que virão, ao sabor das alianças.

E do jogo político!

Alguém duvida?

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de junho de 2005
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